Mapa de questões · 1º dia
Questão 1 — ENEM 2021 PPL
No se raje, chicanita (para Missy Anzaldúa)
No se raje, mi prietita,
apriétese la faja aguántese.
Su linaje es antiquísimo,
sus raíces como las de los mesquites,
bien plantadas, horadando bajo tierra
a esa corriente, el alma de tierra madre —
tu origen.
[…]
Y sí, nos han quitado las tierras.
Ya no nos queda ni el camposanto
donde enterraron a Don Urbano tu vis-visabuelo.
Tiempos duros como pastura los cargamos
derechitas caminamos.
Pero nunca quitarán ese orgullo
de ser mexicana — chicana — tejana
ni el espíritu indio.
Y cuando los gringos se acaban —
mira como se matan unos a los otros —
aquí vamos a parecer
Quizá muriéndonos de hambre como siempre
pero una nueva especie
piel entre negra y bronces
segunda pestaña bajo la primera
con el poder de mirar al sol ojos desnudos.
Y vivas, m'ijita, retevivas.
ANZALDÚA, G. Borderlands/la frontera: the new mestiza. San Francisco: Aunt Lute Books, 1987 (fragmento).
O poema expressa os sentimentos de uma chicana nos Estados Unidos. Nesse cenário, o eu lírico faz um apelo fundamentado na
Alternativas
Resolução
Ficha da Questão
- 📚 Matérias Necessárias: Espanhol → Interpretação de texto poético; literatura chicana; identidade étnico-cultural
- ⚡ Nível: Médio — o vocabulário coloquial e regional (raje, prietita, m'ijita, retevivas) exige atenção redobrada, mas a repetição do campo semântico de "raízes/orgulho" facilita a decodificação do sentido geral.
- 🎯 Tema/Habilidade: Identidade chicana e resistência cultural na poesia de fronteira; competência de leitura crítica de textos literários em língua estrangeira para identificar o posicionamento e o propósito argumentativo do eu lírico.
- 🏆 Gabarito: B — revelado após resolução completa
Passo 1 — Leitura Estratégica do Comando
- Comando reformulado: "Em que o eu lírico chicano fundamenta o apelo (chamado, exortação) que faz no poema?"
- Palavras-chave decisivas: linaje, raíces, orgullo
- Armadilha típica: confundir a menção às terras perdidas ("nos han quitado las tierras") com um apelo pela sua recuperação (alternativa C) — o poema apenas constata essa perda como fato consumado, sem transformá-la em bandeira de reivindicação.
- O que a resposta precisa demonstrar: reconhecer que o eixo do apelo lírico é a valorização identitária — ancestralidade, raízes, orgulho étnico — como resposta simbólica à opressão, e não a reconquista territorial, nem a revolta interna, nem a promessa de uma vida sem dificuldades.
Passo 2 — Mapa de Conceitos Essenciais
- Chicanos: descendentes de mexicanos nascidos ou radicados nos Estados Unidos, sobretudo no sudoeste (Texas, Novo México, Arizona, Califórnia) — território que pertenceu ao México até a guerra México-EUA (1846-1848) e o Tratado de Guadalupe Hidalgo, que o anexou aos EUA.
- Gloria Anzaldúa: escritora, poeta e teórica chicana, autora de Borderlands/La Frontera: The New Mestiza (1987), obra fundadora dos estudos de fronteira que mistura espanhol, inglês, náuatle e caló para expressar a identidade híbrida da "nova mestiça".
- "No se raje": expressão idiomática mexicana equivalente a "não desista", "não se acovarde"; marca o tom de conselho/exortação de uma voz mais velha (mãe, avó) dirigida a uma mais jovem ("chicanita", "m'ijita", "prietita" — diminutivos afetivos).
- Poesia de fronteira (border literature): gênero que usa a mistura linguística e a oralidade familiar para reafirmar uma identidade que não se encaixa integralmente nem na cultura mexicana nem na estadunidense, encontrando força justamente nessa condição híbrida.
Passo 3 — Decodificação do Enunciado
- Evidência 1: "Su linaje es antiquísimo, / sus raíces como las de los mesquites, / bien plantadas, horadando bajo tierra" → a genealogia (linaje) é comparada às raízes profundas do mesquite, árvore símbolo do sudoeste americano, reforçando a imagem de uma ancestralidade sólida e antiga como fonte de força interior.
- Evidência 2: "Pero nunca quitarán ese orgullo / de ser mexicana — chicana — tejana / ni el espíritu indio." → mesmo reconhecendo a perda material (terras, cemitério onde o avô foi enterrado), o eu lírico afirma que o orgulho da identidade múltipla é inalienável — esse é o núcleo do apelo do poema.
- Síntese: as duas evidências convergem para o mesmo campo semântico — raízes, linhagem, orgulho — mostrando que o apelo do eu lírico não é por reconquista física da terra nem por revolta contra os próprios chicanos, mas pelo fortalecimento e reconhecimento da própria origem étnico-cultural como escudo simbólico contra a opressão histórica.
Passo 4 — Resolução Completa (Passo a Passo)
Subpasso 4.1 — Identificar a situação enunciativa
O poema é construído como um discurso de aconselhamento intergeracional: uma voz materna/ancestral se dirige a uma "chicanita" (menina chicana) usando imperativos ("No se raje", "apriétese la faja", "aguántese") e diminutivos carinhosos ("prietita", "m'ijita"). Esse formato de conselho já sinaliza que o texto não é uma denúncia política objetiva nem um manifesto de ação prática — é uma transmissão de valores entre gerações.
Subpasso 4.2 — Mapear o campo semântico dominante
Ao longo das três estrofes, repetem-se palavras do campo da ancestralidade e do orgulho: linaje, raíces, mesquites, origen, orgullo, espíritu indio, mexicana — chicana — tejana. Em contraste, a perda de terras aparece apenas uma vez, como constatação histórica ("nos han quitado las tierras... Ya no nos queda ni el camposanto"), sem verbos de reivindicação ou recuperação. A morte também é citada de forma hipotética e secundária ("Quizá muriéndonos de hambre como siempre"). Estatisticamente e tematicamente, o poema pesa muito mais no eixo identidade/orgulho do que em qualquer outro.
Subpasso 4.3 — Verificação
Ao final do poema, a síntese confirma essa leitura: mesmo diante da adversidade e da possível extinção dos opressores ("cuando los gringos se acaban"), o que resta e se transforma é a própria identidade chicana, agora descrita como "una nueva especie" com "el poder de mirar al sol ojos desnudos" — uma metáfora de força e dignidade que nasce justamente do orgulho das raízes, fechando o ciclo argumentativo iniciado em "Su linaje es antiquísimo". Isso confirma que a alternativa correta trata da valorização das origens.
Passo 5 — Análise Crítica de Todas as Alternativas
A) criação de uma sociedade chicana livre das dificuldades.
❌ Incorreta: o poema não projeta nenhuma utopia sem sofrimento. Ao contrário, assume explicitamente a dureza persistente da vida ("Tiempos duros como pastura los cargamos") e admite que o futuro pode continuar difícil ("Quizá muriéndonos de hambre como siempre"). O apelo não é por uma sociedade idealizada, mas pela força para suportar as dificuldades reais.
B) necessidade dos chicanos de valorizarem suas origens.
✅ Correta: sustentada pela repetição de linaje, raíces, orgullo e espíritu indio em todas as estrofes, culminando na afirmação de que, apesar de tudo, "nunca quitarán ese orgullo de ser mexicana — chicana — tejana". O apelo do eu lírico se fundamenta exatamente na valorização identitária como fonte de resistência.
C) possibilidade de recuperação das terras chicanas.
❌ Incorreta: o poema constata a perda das terras como fato definitivo e irreversível ("Ya no nos queda ni el camposanto donde enterraron a Don Urbano"), sem sugerir qualquer via de reconquista. A terra funciona como memória e ferida simbólica, não como reivindicação política concreta do apelo lírico.
D) morte de chicanos pela ganância dos invasores.
❌ Incorreta: a morte surge apenas como possibilidade hipotética e periférica ("Quizá muriéndonos de hambre como siempre"), não como o eixo temático nem como o fundamento do apelo. O poema não constrói uma denúncia centrada na violência letal dos invasores, mas um chamado à afirmação identitária.
E) revolta contra a atitude resignada dos chicanos.
❌ Incorreta: o eu lírico elogia justamente a postura de manter-se erguido apesar da dor ("derechitas caminamos"), o que é tratado como virtude, não como falha a ser combatida. Não há qualquer tom de crítica ou repreensão aos próprios chicanos — a mensagem é de acolhimento, orgulho e solidariedade intergeracional.
🏆 Gabarito: B — o poema constrói, do início ao fim, um apelo fundamentado na valorização das origens (linhagem, raízes, orgulho étnico e espiritual) como forma de resistência simbólica diante da perda material e da opressão histórica.
Passo 6 — Conclusão, Generalização e Dica de Prova
- Reafirmação do gabarito: apenas a alternativa B corresponde ao campo semântico dominante e à progressão argumentativa do poema — da menção ao linaje antiquísimo até o orgulho final que "nunca quitarán" —, o que torna as demais alternativas incompatíveis com o texto.
- Padrão de cobrança: o ENEM (inclusive na PPL) costuma trazer, na prova de Espanhol, poemas ou trechos de literatura hispano-americana com temática identitária — indígena, afrodescendente, feminista ou, como aqui, chicana — pedindo que o candidato identifique o propósito ou o fundamento da mensagem do eu lírico.
- Generalização: quando o comando pergunta sobre o "fundamento do apelo" ou "propósito" de um texto poético, mapeie o campo semântico mais repetido ao longo de todas as estrofes — ele quase sempre indica a resposta correta, funcionando como uma bússola lexical.
- Dica de eliminação rápida: descarte alternativas que descrevem ações concretas não sustentadas pelo texto (recuperar terras, criar sociedade perfeita) e as que invertem o tom emocional do poema (revolta interna, quando o tom real é de acolhimento e orgulho) — isso elimina A, C e E quase de imediato.
- Conexões: Movimento Chicano (décadas de 1960-70); literatura de fronteira (border literature); conceito de mestizaje cultural em Gloria Anzaldúa.
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