Mapa de questões · 2º dia
Questão 104 — ENEM 2019Caderno azul · 2º Dia
Algumas toneladas de medicamentos para uso humano e veterinário são produzidas por ano. Os fármacos são desenvolvidos para serem estáveis, mantendo suas propriedades químicas de forma a atender a um propósito terapêutico. Após o consumo de fármacos, parte de sua dosagem é excretada de forma inalterada, persistindo no meio ambiente. Em todo o mundo, antibióticos, hormônios, anestésicos, anti-inflamatórios, entre outros, são detectados em concentrações preocupantes no esgoto doméstico, em águas superficiais e de subsolo. Dessa forma, a ocorrência de fármacos residuais no meio ambiente pode apresentar efeitos adversos em organismos aquáticos e terrestres.
BILA, D. M.; DEZOTTI, M. Fármacos no meio ambiente.
Química Nova, v. 26, n. 4, ago. 2003 (adaptado).
Qual ação minimiza a permanência desses contaminantes nos recursos hídricos?
Alternativas
Resolução em Vídeo
Resolução
Ficha da Questão
- 📚 Matérias Necessárias: Química → Química Ambiental (tratamento de efluentes e poluentes emergentes)
- ⚡ Nível: Médio — exige interpretar um texto técnico e reconhecer por que o tratamento convencional de esgoto não elimina moléculas quimicamente estáveis
- 🎯 Tema/Habilidade: Poluição de recursos hídricos por fármacos residuais e avaliação crítica de propostas de intervenção ambiental
- 🏆 Gabarito: D — revelado após resolução completa
Passo 1 — Leitura Estratégica do Comando
- Comando reformulado: "Entre as cinco ações propostas, qual delas efetivamente reduz a quantidade de fármacos que permanece nos rios, lagos e lençóis freáticos?"
- Palavras-chave decisivas: minimiza, permanência, recursos hídricos
- Armadilha típica: associar automaticamente "saneamento básico" a "solução da poluição por fármacos" — o candidato marca a alternativa B por parecer uma medida ambiental positiva, sem perceber que coletar mais esgoto não resolve nada se a estação de tratamento não consegue remover esse tipo específico de contaminante.
- O que a resposta precisa demonstrar: compreensão de que fármacos são moléculas projetadas para resistir à degradação e que, por isso, a solução real está em criar tecnologias de tratamento capazes de quebrar ou reter essas moléculas — não em medidas genéricas de coleta ou descarte.
Passo 2 — Mapa de Conceitos Essenciais
- Poluentes emergentes: fármacos, hormônios e outros compostos de uso humano/veterinário que, mesmo em baixíssimas concentrações, causam efeitos adversos em organismos aquáticos e terrestres; são chamados "emergentes" porque os sistemas de tratamento tradicionais não foram projetados para eles.
- Estabilidade química como problema ambiental: o texto-base explica que os fármacos "são desenvolvidos para serem estáveis" — essa é justamente a característica que garante seu efeito terapêutico no organismo, mas é também o que os torna resistentes à biodegradação quando chegam ao ambiente.
- Tratamento convencional de efluentes (ETE): as estações de tratamento de esgoto tradicionais operam basicamente com processos físicos (decantação) e biológicos (degradação por microrganismos). Esses processos são eficientes para matéria orgânica comum, mas pouco eficazes para remover micropoluentes persistentes, que passam praticamente intactos pelo sistema.
- Processos avançados de tratamento: tecnologias como oxidação avançada (ozonização, UV/H₂O₂), adsorção em carvão ativado e filtração por membranas (nanofiltração, osmose reversa) são capazes de degradar ou reter moléculas que o tratamento biológico convencional não consegue eliminar.
Passo 3 — Decodificação do Enunciado
- Evidência 1: "Os fármacos são desenvolvidos para serem estáveis, mantendo suas propriedades químicas" → revela a causa raiz do problema: a estabilidade que faz o remédio funcionar no corpo humano é a mesma propriedade que impede sua degradação natural no ambiente.
- Evidência 2: "parte de sua dosagem é excretada de forma inalterada, persistindo no meio ambiente" → mostra que o fármaco chega ao esgoto praticamente intacto, ou seja, o problema já nasce resistente a processos simples de tratamento.
- Evidência 3: "são detectados em concentrações preocupantes no esgoto doméstico, em águas superficiais e de subsolo" → indica que, mesmo após passar pelo sistema de coleta e tratamento de esgoto, esses compostos continuam presentes nas águas — a falha está na etapa de tratamento, não na etapa de coleta.
- Síntese: como a estabilidade química é a barreira central, e o esgoto tratado ainda carrega fármacos até os corpos d'água, a única ação capaz de "minimizar a permanência" do contaminante é aquela que ataca diretamente essa limitação tecnológica do tratamento.
Passo 4 — Resolução Completa (Passo a Passo)
Subpasso 4.1 — Identificar a causa raiz do problema
O texto deixa claro que os fármacos persistem porque foram quimicamente projetados para ser estáveis. Isso significa que processos biológicos convencionais (que dependem de microrganismos "quebrando" moléculas menos resistentes) não conseguem degradar essas substâncias com eficiência. Logo, qualquer solução que não altere a forma como esses compostos são tratados quimicamente não resolverá o problema na origem.
Subpasso 4.2 — Testar cada proposta contra o critério "remove/degrada o fármaco antes de chegar à água"
Ao aplicar esse filtro conceitual:
- Medidas que apenas redirecionam o contaminante (como usar esterco ou lodo na agricultura, ou descartar em lixões) não eliminam o fármaco — apenas o deslocam para outro compartimento ambiental (solo), de onde ele pode voltar a contaminar águas subterrâneas por lixiviação.
- Medidas de infraestrutura de coleta (como ampliar a rede de esgoto) aumentam o volume de efluente que chega à estação de tratamento, mas não mudam a capacidade dessa estação de remover o fármaco — se o processo de tratamento continua o mesmo, o contaminante continua passando.
- Apenas uma proposta ataca diretamente o processo de tratamento em si, buscando novas tecnologias capazes de degradar compostos estáveis.
Subpasso 4.3 — Verificação
Comparando com as alternativas, a única que propõe uma mudança na capacidade técnica de remoção do poluente — e não apenas um redirecionamento ou uma ampliação de infraestrutura já existente — é a que fala em "desenvolvimento de novos processos nas estações de tratamento de efluentes". Essa é a resposta que fecha corretamente o raciocínio construído a partir do texto.
Passo 5 — Análise Crítica de Todas as Alternativas
A) Utilização de esterco como fertilizante na agricultura.
❌ Incorreta: o esterco de animais tratados com antibióticos e outros fármacos veterinários pode conter resíduos desses compostos. Usá-lo como fertilizante não remove contaminante algum — pelo contrário, pode introduzir fármacos residuais diretamente no solo, de onde eles podem ser carreados por chuva até rios e lençóis freáticos.
B) Ampliação das redes de coleta de esgoto na zona urbana.
❌ Incorreta: ampliar a coleta é uma medida importante de saneamento básico, mas não resolve o problema específico apresentado no texto. Se o esgoto coletado passa por estações que usam apenas tratamento convencional (ineficaz para fármacos estáveis), mais esgoto tratado da mesma forma significa a mesma proporção de contaminante chegando às águas — o gargalo está na tecnologia do tratamento, não no volume coletado.
C) Descarte dos medicamentos fora do prazo de validade em lixões.
❌ Incorreta: lixões não possuem qualquer barreira de contenção adequada para resíduos químicos. Medicamentos descartados dessa forma podem se dissolver com a água da chuva (chorume) e infiltrar no solo, contaminando diretamente águas subterrâneas — a alternativa agrava o problema em vez de minimizá-lo.
D) Desenvolvimento de novos processos nas estações de tratamento de efluentes.
✅ Correta: como os fármacos são quimicamente estáveis, apenas tecnologias mais avançadas — como oxidação avançada, adsorção em carvão ativado ou filtração por membranas — conseguem degradar ou reter essas moléculas antes que o efluente seja descartado nos corpos hídricos. É a única ação que ataca a causa técnica do problema descrito no texto.
E) Reúso dos lodos provenientes das estações de tratamento de esgoto na agricultura.
❌ Incorreta: o lodo de esgoto concentra boa parte dos poluentes adsorvidos durante o tratamento, incluindo resíduos de fármacos. Reutilizá-lo na agricultura sem tratamento específico para removê-los reintroduz esses contaminantes no ambiente, com risco de novamente atingir os recursos hídricos por escoamento superficial.
🏆 Gabarito: D — apenas o desenvolvimento de novos processos de tratamento de efluentes ataca diretamente a estabilidade química dos fármacos, que é a verdadeira causa de sua persistência nas águas.
Passo 6 — Conclusão, Generalização e Dica de Prova
- Reafirmação do gabarito: a letra D é a única alternativa que propõe uma mudança tecnológica capaz de degradar ou reter compostos quimicamente estáveis — exatamente a propriedade apontada no texto como responsável pela persistência dos fármacos no ambiente.
- Padrão de cobrança: o ENEM frequentemente traz textos sobre poluentes emergentes (fármacos, hormônios, agrotóxicos) para testar se o aluno entende que "tratar mais esgoto" é diferente de "tratar melhor o esgoto" — a quantidade de coleta não substitui a qualidade/tecnologia do tratamento.
- Generalização: em questões de intervenção ambiental, a alternativa correta costuma ser aquela que ataca a causa química ou física do problema descrito no texto-base, e não medidas genéricas de infraestrutura ou descarte que apenas deslocam o contaminante de um compartimento ambiental para outro.
- Dica de eliminação rápida: descarte de imediato qualquer alternativa que reintroduza resíduos no ambiente (esterco, lodo, lixão) — elas contradizem o próprio objetivo de "minimizar" a contaminação; entre as restantes, prefira a que menciona diretamente uma mudança no processo de tratamento.
- Conexões: o tema dialoga com ciclo da água e bioacumulação de poluentes (Biologia) e com processos de separação e tratamento de misturas em Química Ambiental — vale revisar também questões sobre eutrofização e tratamento de água potável.
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