Mapa de questões · 2º dia
Questão 128 — ENEM 2010Caderno azul · 2º Dia
Capítulo III
Um criado trouxe o café. Rubião pegou na xícara e, enquanto lhe deitava açúcar, ia disfarçadamente mirando a bandeja, que era de prata lavrada. Prata, ouro, eram os metais que amava de coração; não gostava de bronze, mas o amigo Palha disse-lhe que era matéria de preço, e assim se explica este par de figuras que aqui está na sala: um Mefistófeles e um Fausto. Tivesse, porém, de escolher, escolheria a bandeja, – primor de argentaria, execução fina e acabada. O criado esperava teso e sério. Era espanhol; e não foi sem resistência que Rubião o aceitou das mãos de Cristiano; por mais que lhe dissesse que estava acostumado aos seus crioulos de Minas, e não queria línguas estrangeiras em casa, o amigo Palha insistiu, demonstrando-lhe a necessidade de ter criados brancos. Rubião cedeu com pena. O seu bom pajem, que ele queria pôr na sala, como um pedaço da província, nem o pôde deixar na cozinha, onde reinava um francês, Jean; foi degradado a outros serviços.
ASSIS, M. Quincas Borba. In: Obra completa. V.1. Rio de Janeiro: Nova Aguilar, 1993 (fragmento).
Quincas Borba situa-se entre as obras-primas do autor e da literatura brasileira. No fragmento apresentado, a peculiaridade do texto que garante a universalização de sua abordagem reside
Alternativas
Resolução
📋 Ficha da Questão
- 📚 Matérias Necessárias: Literatura → Realismo (Machado de Assis)
- ⚡ Nível: Muito difícil — a chave é perceber que Rubião age pelo olhar dos outros.
- 🎯 Tema/Habilidade: Aparência e essência em Quincas Borba.
- 🏆 Gabarito: A — revelado após a resolução completa
🔎 Passo 1 — O que a questão pede
- Comando: em que se baseia a crítica social do fragmento.
- Estrutura da questão: Rubião admira a bandeja porque é de prata; aceita o bronze porque Palha disse que valia. Duas escolhas guiadas por outrem.
- Armadilha antecipada: levar a sério a preferência por metais como gosto pessoal. O texto mostra que o critério de Rubião é o valor social, não o estético.
📚 Passo 2 — O conceito em jogo
O Realismo machadiano expõe a distância entre o que as pessoas são e o que aparentam. O narrador não julga: apresenta o gesto e deixa a contradição visível.
Rubião era homem simples que enriqueceu por herança. Ao subir socialmente, passa a adotar os signos da elite sem os compreender — daí aceitar Fausto e Mefistófeles porque Palha disse que era matéria de preço.
O detalhe do disfarçadamente mirando a bandeja é decisivo: ele quer parecer acostumado ao luxo, e é justamente esse esforço que denuncia sua origem.
🧮 Passo 4 — O caminho até a resposta
Observe as duas cenas: ele mira a bandeja disfarçadamente e mantém em casa figuras que não aprecia, por conselho alheio.
Nas duas, o critério é o que vale socialmente, e não o que ele sente ou entende.
A crítica está no conflito entre o passado pobre e o presente rico, com a aparência vencendo a essência — alternativa A.
🔍 Passo 5 — Análise das Alternativas
- A) ✓ Correta. É a leitura do fragmento: Rubião age pelo valor social dos objetos, e o esforço de parecer rico denuncia sua origem simples.
- B) ✗ Incorreta. Não há nostalgia do passado no fragmento, nem discussão sobre substituição de mão de obra.
- C) ✗ Incorreta. Fausto e Mefistófeles estão ali porque Palha disse que valiam. A referência serve à crítica social, não a um desejo de eternidade.
- D) ✗ Incorreta. Rubião não valoriza os metais pela durabilidade do trabalho, e sim pelo prestígio que conferem.
- E) ✗ Incorreta. Não há xenofobia no trecho. A relação de Rubião com os criados é mediada pelo mesmo desejo de status.
🏁 Passo 6 — O que levar dessa questão
Em Machado, o gesto pequeno carrega a crítica. Repare sempre em advérbios como disfarçadamente: eles denunciam o personagem.
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