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Mapa de questões · 1º dia
HumanasHistóriaMédio

Questão 82ENEM 2019Caderno azul · 1º Dia

Tratava-se agora de construir um ritmo novo. Para tanto, era necessário convocar todas as forças vivas da Nação, todos os homens que, com vontade de trabalhar e confiança no futuro, pudessem erguer, num tempo novo, um novo Tempo. E, à grande convocação que conclamava o povo para a gigantesca tarefa, começaram a chegar de todos os cantos da imensa pátria os trabalhadores: os homens simples e quietos, com pés de raiz, rostos de couro e mãos de pedra, e no calcanho, em carro de boi, em lombo de burro, em paus-de-arara, por todas as formas possíveis e imagináveis, em sua mudez cheia de esperança, muitas vezes deixando para trás mulheres e filhos a aguardar suas promessas de melhores dias; foram chegando de tantos povoados, tantas cidades cujos nomes pareciam cantar saudades aos seus ouvidos, dentro dos antigos ritmos da imensa pátria… Terra de sol, Terra de luz… Brasil! Brasil! Brasília!

MORAES, V.; JOBIM, A. C. Brasília, sinfonia da alvorada. III — A chegada dos candangos.
Disponível em: www.viniciusdemoraes.com.br. Acesso em: 14 ago. 2012 (adaptado).

No texto, a narrativa produzida sobre a construção de Brasília articula os elementos políticos e socioeconômicos indicados, respectivamente, em:

Alternativas

Resolução em Vídeo

Resolução

Ficha da Questão

  • 📚 Matérias Necessárias: História → Era JK e desenvolvimentismo; Interpretação de fonte literária como documento histórico
  • ⚡ Nível: Médio — a dificuldade não está em decorar datas, mas em traduzir a linguagem poética da canção em dois conceitos históricos articulados entre si
  • 🎯 Tema/Habilidade: A construção de Brasília como projeto político-simbólico do governo JK e a migração inter-regional de trabalhadores; leitura crítica de fontes literárias/musicais como documento histórico
  • 🏆 Gabarito: A — revelado após resolução completa

Passo 1 — Leitura Estratégica do Comando

  • Comando reformulado: "Na letra sobre a construção de Brasília, qual alternativa traz, na ordem certa, o elemento político e o elemento socioeconômico da narrativa?"
  • Palavras-chave decisivas: elementos políticos, socioeconômicos, respectivamente
  • Armadilha típica: inverter a ordem (tratar o socioeconômico como se fosse o político) ou marcar uma alternativa "coerente com a época JK" mas sem qualquer evidência no texto
  • O que a resposta precisa demonstrar: identificar dentro da própria letra (1) o discurso de legitimação política, simbólico e retórico, e (2) o fato socioeconômico concreto narrado — o deslocamento de trabalhadores de várias regiões

Passo 2 — Mapa de Conceitos Essenciais

  • Desenvolvimentismo de JK: governo Juscelino Kubitschek (1956-1961), lema "cinquenta anos em cinco", que fez de Brasília a meta-síntese de um projeto de modernização acelerada e interiorização do poder
  • Apelo simbólico do discurso oficial: para legitimar uma obra cara e polêmica, construiu-se uma narrativa épica — "nação renascendo", "novo tempo" — associando a capital a um marco fundador do Brasil moderno
  • Candangos e migração inter-regional: trabalhadores vindos majoritariamente do Nordeste e de Minas Gerais, um dos grandes fluxos migratórios internos do século XX, motivado pela busca de emprego
  • Pau-de-arara: transporte precário associado à migração nordestina; reforça a dimensão socioeconômica do deslocamento, não a política

Passo 3 — Decodificação do Enunciado

  • Evidência 1: "construir um ritmo novo... convocar todas as forças vivas da Nação... erguer, num tempo novo, um novo Tempo" → linguagem grandiloquente e repetitiva, sentido quase messiânico para a obra: é retórica política de legitimação, o apelo simbólico
  • Evidência 2: "chegar de todos os cantos da imensa pátria os trabalhadores... a pé, em carro de boi, em lombo de burro, em paus-de-arara... deixando para trás mulheres e filhos" → deslocamento concreto de pessoas de diferentes regiões para o Planalto Central: a migração inter-regional
  • Síntese: o texto costura o discurso do "novo tempo nacional" (dimensão simbólica que legitima a obra) com o retrato dos candangos migrando de todo o país (dimensão material que efetivamente a construiu) — exatamente as duas camadas exigidas pelo comando

Passo 4 — Resolução Completa (Passo a Passo)

Subpasso 4.1 — Isolar o elemento político

Na primeira metade — "Tratava-se agora de construir um ritmo novo [...] pudessem erguer, num tempo novo, um novo Tempo" — não há partidos, eleições ou instituições formais. Há um discurso de mobilização nacional, com metáforas de renovação ("tempo novo", "novo Tempo" em maiúscula, quase um marco civilizatório). Essa linguagem é o apelo simbólico: usar símbolos e imagens de renascimento para dar legitimidade política a um projeto de Estado — a mudança da capital.

Subpasso 4.2 — Isolar o elemento socioeconômico

Na segunda metade o foco muda para corpos e trajetos reais: "homens simples e quietos, com pés de raiz [...] a pé, em carro de boi, em lombo de burro, em paus-de-arara [...] deixando para trás mulheres e filhos". Descreve-se o deslocamento em massa de trabalhadores "de todos os cantos da imensa pátria" em busca de emprego na obra — o fenômeno da migração inter-regional, um dos processos socioeconômicos mais marcantes do Brasil do século XX.

Subpasso 4.3 — Verificação

Confrontando com as alternativas, só a opção que combina "apelo simbólico" (político) com "migração inter-regional" (socioeconômico), nessa ordem, corresponde às duas evidências extraídas. As demais trazem termos — sindicalismo, capital financeiro, segurança territorial, partidos, modernização rodoviária, democracia, transportes eficientes — ausentes do texto.

Passo 5 — Análise Crítica de Todas as Alternativas

A) Apelo simbólico e migração inter-regional.

✅ Correta: o texto legitima a obra com retórica de "novo tempo" e "nação renascida" (apelo simbólico) e narra a chegada de trabalhadores de todas as regiões, em transportes precários, para erguer a cidade (migração inter-regional). As duas dimensões aparecem literalmente no trecho.

B) Organização sindical e expansão do capital.

❌ Incorreta: não há menção a sindicatos, greves ou negociação coletiva — os trabalhadores aparecem em "mudez cheia de esperança", isolados, não como categoria organizada. Também não há referência a expansão de capital financeiro ou lucro.

C) Segurança territorial e estabilidade financeira.

❌ Incorreta: o texto não trata de defesa de fronteiras, ocupação militar ou indicadores econômico-monetários; a canção fala de esperança, esforço coletivo e deslocamento humano.

D) Consenso partidário e modernização rodoviária.

❌ Incorreta: não há acordo entre partidos políticos. Quanto ao transporte, o texto mostra o oposto de modernização: "carro de boi", "lombo de burro" e "paus-de-arara" são meios rudimentares e precários.

E) Perspectiva democrática e eficácia dos transportes.

❌ Incorreta: não se discute regime político, eleições ou participação democrática. E, como na alternativa D, os transportes citados são precários e improvisados — o contrário de "eficácia".

🏆 Gabarito: A — o texto articula, respectivamente, o apelo simbólico do discurso de "construir um tempo novo" para a Nação (elemento político) e a chegada de trabalhadores de todo o país em meios de transporte precários, deixando famílias para trás (elemento socioeconômico: migração inter-regional).

Passo 6 — Conclusão, Generalização e Dica de Prova

  • Reafirmação do gabarito: a letra A é a única cujos dois termos têm correspondência literal no texto — as demais não têm nenhuma ancoragem textual, o que já bastaria para eliminá-las.
  • Padrão de cobrança: o ENEM frequentemente usa letras de música, poemas e trechos literários como "fontes históricas", exigindo que o candidato extraia categorias de Ciências Humanas de dentro de uma linguagem figurada.
  • Generalização: em questões que cruzam texto literário e categorias históricas (político x socioeconômico, cultural x econômico), volte ao texto e pergunte "isso é discurso/legitimação (político) ou fato material/social concreto (socioeconômico)?".
  • Dica de eliminação rápida: risque de cara qualquer alternativa com termos "técnicos" ausentes do texto (sindicato, capital, segurança, partidos, democracia, rodovias modernas) — se a palavra não ecoa no trecho, é armadilha.
  • Conexões: dialoga com a "Marcha para o Oeste" varguista, com o êxodo rural nordestino rumo a São Paulo e ao Centro-Oeste, e com o debate sobre interiorização do desenvolvimento no Brasil.

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