Mapa de questões · 1º dia
Questão 67 — ENEM 2019Caderno azul · 1º Dia
TEXTO I
Considero apropriado deter-me algum tempo na contemplação deste Deus todo perfeito, ponderar totalmente à vontade seus maravilhosos atributos, considerar, admirar e adorar a incomparável beleza dessa imensa luz.
DESCARTES, R. Meditações. São Paulo: Abril Cultural, 1980.
TEXTO II
Qual será a forma mais razoável de entender como é o mundo? Existirá alguma boa razão para acreditar que o mundo foi criado por uma divindade todo-poderosa? Não podemos dizer que a crença em Deus é “apenas” uma questão de fé.
RACHELS, J. Problemas da filosofia. Lisboa: Gradiva, 2009.
Os textos abordam um questionamento da construção da modernidade que defende um modelo
Alternativas
Resolução em Vídeo
Resolução
Ficha da Questão
- 📚 Matérias Necessárias: Filosofia → Filosofia Moderna (racionalismo cartesiano) e o embate razão x fé
- ⚡ Nível: Médio — exige articular dois textos filosóficos abstratos e reconhecer o conceito histórico de "modernidade" por trás deles.
- 🎯 Tema/Habilidade: A ruptura racionalista da modernidade filosófica (Descartes) e a crítica epistemológica à crença religiosa; competência de leitura e análise de textos filosóficos (H5/C1 — Ciências Humanas)
- 🏆 Gabarito: A — revelado após resolução completa
Passo 1 — Leitura Estratégica do Comando
- Comando reformulado: "Que modelo de pensamento os dois textos, ao questionarem a fé/a existência de Deus, defendem como fundamento da modernidade?"
- Palavras-chave decisivas: questionamento, construção da modernidade, modelo
- Armadilha típica: confundir o tema "Deus" com uma defesa da religião ou com um recorte puramente teológico, ignorando que ambos os autores estão, na verdade, submetendo a crença religiosa ao crivo da razão — o que é o próprio movimento fundador da modernidade.
- O que a resposta precisa demonstrar: identificar que o fio comum entre Descartes (que "contempla" Deus por dedução racional) e Rachels (que pergunta se há "boa razão" para crer) é o uso da razão humana como instância legítima de julgamento, inclusive sobre questões antes reservadas à fé.
Passo 2 — Mapa de Conceitos Essenciais
- Racionalismo cartesiano: corrente inaugurada por René Descartes (séc. XVII) que elege a razão — e não a tradição, a autoridade eclesiástica ou os sentidos — como critério último de verdade. Mesmo ao tratar de Deus, Descartes o faz por meio de um método de dúvida e dedução lógica, não de dogma.
- Modernidade filosófica: período que rompe com o teocentrismo medieval e desloca o centro explicativo do mundo de Deus para o sujeito cognoscente (o "eu penso", de Descartes). É o chamado giro antropocêntrico/racionalista.
- Epistemologia da crença religiosa (Rachels): a filosofia contemporânea da religião discute se a fé pode (ou deve) ser justificada racionalmente — ou seja, submete-a a critérios de evidência e argumentação, e não apenas à aceitação por tradição.
- Distinção de outros modelos (para descartar alternativas): mito (explicação simbólica pré-filosófica), imanentismo (doutrina que nega transcendência, situando tudo dentro do próprio mundo/natureza), contratualismo (teoria política sobre a origem do Estado) e etnocentrismo (julgar outras culturas a partir da própria) — nenhum desses é o eixo dos textos.
Passo 3 — Decodificação do Enunciado
- Evidência 1: "Considero apropriado deter-me algum tempo na contemplação deste Deus todo perfeito, ponderar totalmente à vontade seus maravilhosos atributos" (Texto I) → Descartes não afirma Deus por fé cega; ele "considera", "ponderar" e "contemplar" são verbos de exercício racional — o filósofo chega a Deus por meio de um raciocínio metódico, dentro de sua obra Meditações, que é justamente o texto fundador do racionalismo moderno.
- Evidência 2: "Existirá alguma boa razão para acreditar que o mundo foi criado por uma divindade todo-poderosa? Não podemos dizer que a crença em Deus é 'apenas' uma questão de fé" (Texto II) → Rachels explicita o cerne do problema: a crença religiosa precisa de "boa razão", isto é, de justificativa racional, e não pode se blindar atrás do argumento de que "é só uma questão de fé".
- Síntese: Os dois textos, de épocas distintas, convergem no mesmo gesto: tratar até mesmo a existência de Deus como objeto a ser examinado pela razão. Esse é exatamente o "questionamento da construção da modernidade" que a questão pede — a modernidade se define por colocar a razão humana como critério de verdade acima da autoridade da fé e da tradição.
Passo 4 — Resolução Completa (Passo a Passo)
Subpasso 4.1 — Identificar o autor e o contexto do Texto I
René Descartes escreve as Meditações Metafísicas em 1641, texto-marco do racionalismo moderno. Ali ele desenvolve o método da dúvida hiperbólica: duvida de tudo (sentidos, mundo, corpo) até encontrar uma verdade indubitável (o "penso, logo existo") e, a partir dela, reconstrói o conhecimento por dedução — inclusive a prova da existência de Deus, tratada como um problema lógico-racional, e não como artigo de fé revelada.
Subpasso 4.2 — Identificar o argumento do Texto II
James Rachels, filósofo contemporâneo, retoma essa mesma lógica ao perguntar se há "boa razão" para a crença em Deus e ao recusar a ideia de que a fé dispensa justificativa racional. Ou seja, ele aplica ao problema religioso o mesmo crivo: a razão como tribunal que examina e valida (ou não) as crenças.
Subpasso 4.3 — Verificação: conectar os dois textos ao "modelo da modernidade"
Juntando as duas evidências, o padrão comum não é a defesa nem a negação de Deus, mas o método usado para tratar do tema: a razão humana como instrumento supremo de investigação, mesmo sobre o que antes era domínio exclusivo da fé. Esse é precisamente o marco que separa a modernidade da mentalidade teocêntrica medieval — daí a resposta convergir para "centrado na razão humana", confirmando a alternativa A.
Passo 5 — Análise Crítica de Todas as Alternativas
A) centrado na razão humana.
✅ Correta: os dois textos usam a razão — ponderação, contemplação metódica em Descartes; exigência de "boa razão" em Rachels — como critério para tratar até da existência de Deus. Esse deslocamento do fundamento do conhecimento (da fé/tradição para a razão) é a marca definidora da modernidade filosófica inaugurada por Descartes.
B) baseado na explicação mitológica.
❌ Incorreta: o mito é justamente o modelo de pensamento pré-filosófico, anterior à razão discursiva, que explica o mundo por narrativas simbólicas e personificações divinas sem exame crítico. Nenhum dos textos recorre a narrativas míticas; ambos empregam argumentação racional, o oposto do pensamento mítico.
C) fundamentado na ordenação imanentista.
❌ Incorreta: o imanentismo nega qualquer instância transcendente, explicando a realidade apenas por causas internas ao próprio mundo (imanentes). Mas os textos discutem justamente a possibilidade de uma divindade transcendente ("todo-poderosa", "todo perfeito"); o debate não é sobre negar o transcendente, e sim sobre como a razão pode (ou não) justificá-lo.
D) focado na legitimação contratualista.
❌ Incorreta: o contratualismo é uma teoria política (Hobbes, Locke, Rousseau) sobre a origem do Estado e do poder político a partir de um pacto entre indivíduos. Os textos não tratam de política, poder ou organização social, mas de epistemologia religiosa — tema totalmente distinto.
E) configurado na percepção etnocêntrica.
❌ Incorreta: etnocentrismo é o julgamento de outras culturas a partir dos valores da própria cultura como parâmetro universal. Os textos não comparam culturas nem hierarquizam povos; discutem a validade racional da crença em Deus, sem qualquer viés comparativo entre civilizações.
🏆 Gabarito: A — Descartes e Rachels, cada um a seu modo e época, submetem a questão de Deus ao exame da razão humana, e não da fé ou da tradição — esse é o traço definidor do modelo racionalista que funda a modernidade filosófica.
Passo 6 — Conclusão, Generalização e Dica de Prova
- Reafirmação do gabarito: só a alternativa A capta o elemento comum aos dois textos — o uso da razão como instância de julgamento sobre a crença religiosa —, sendo esse justamente o traço que caracteriza a ruptura moderna com o pensamento teocêntrico medieval.
- Padrão de cobrança: o ENEM recorrentemente cobra a oposição entre modelos explicativos do mundo (mito, fé/teocentrismo, razão/ciência) em questões de Filosofia sobre a modernidade, usando trechos de Descartes, Kant, Bacon ou textos contemporâneos que dialogam com esses clássicos.
- Generalização: sempre que um texto de Filosofia mencionar "modernidade" associada a dúvida metódica, exame crítico, exigência de "razões" ou "provas", a resposta tende a apontar para o racionalismo/antropocentrismo, e não para mito, fé ou tradição.
- Dica de eliminação rápida: leia as alternativas buscando termos de outras áreas do conhecimento — "contratualista" pede Ciência Política, "etnocêntrica" pede Antropologia — e elimine-os de cara se o enunciado for claramente epistemológico/filosófico; entre "razão" e "imanentismo", cheque se o texto nega ou apenas questiona racionalmente o transcendente.
- Conexões: o Iluminismo (razão contra dogma religioso e político) e o método científico moderno (Bacon, Galileu) são desdobramentos diretos desse mesmo giro racionalista inaugurado por Descartes.
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