Mapa de questões · 1º dia
Questão 16 — ENEM 2019Caderno azul · 1º Dia
Ed Mort só vai
Mort. Ed Mort. Detetive particular. Está na plaqueta. Tenho um escritório numa galeria de Copacabana entre um fliperama e uma loja de carimbos. Dá só para o essencial. um telefone mudo e um cinzeiro. Mas insisto numa mesa e numa cadeira. Apesar do protesto das baratas. Elas não vencerão. Comprei um jogo de máscaras. No meu trabalho o disfarce é essencial. Para escapar dos credores. Outro dia entrei na sala e vi a cara do King Kong andando pelo chão. As baratas estavam roubando as máscaras. Espisoteei meia dúzia. As outras atacaram a mesa. Consegui salvar a minha Bic e o jornal. O jornal era novo, tinha só uma semana. Mas elas levaram a agenda. Saí ganhando. A agenda estava em branco. Meu último caso fora com a funcionária do Erótica. a primeira ótica da cidade com balconista topless. Acabara mal. Mort. Ed Mort. Está na plaqueta.
VERISSIMO, L. F. Ed Mort: todas as histórias. Porto Alegre: L&PM, 1997 (adaptado).
Nessa crônica, o efeito de humor é basicamente construído por uma
Alternativas
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Resolução
Ficha da Questão
- 📚 Matérias Necessárias: Português → Leitura e interpretação de texto literário (gênero crônica, construção do humor)
- ⚡ Nível: Médio — a dificuldade está em diferenciar recursos de forma (sintaxe, estrutura da frase) do recurso de conteúdo (sequência de eventos) que efetivamente gera o riso
- 🎯 Tema/Habilidade: Efeitos de sentido e humor em texto narrativo; reconhecimento de recursos expressivos do gênero crônica (Competência de Área 1 de Linguagens)
- 🏆 Gabarito: D — revelado após a resolução completa
Passo 1 — Leitura Estratégica do Comando
- Comando reformulado: "Qual mecanismo é o principal responsável por criar o efeito cômico nesta crônica?"
- Palavras-chave decisivas: efeito de humor, basicamente construído, crônica
- Armadilha típica: confundir o estilo de escrita (frases curtas, cortadas, "picotadas") com a verdadeira origem do humor. O texto tem, de fato, uma sintaxe fragmentada, e é tentador marcar uma alternativa que descreva essa forma. Mas a pergunta é sobre a fonte do RISO, e o riso nasce do que é contado, não de como as orações estão montadas gramaticalmente.
- O que a resposta precisa demonstrar: capacidade de distinguir plano da forma (sintaxe, estrutura do período) de plano do conteúdo (sequência de fatos narrados) e identificar corretamente onde está o efeito cômico.
Passo 2 — Mapa de Conceitos Essenciais
- Crônica: gênero híbrido entre jornalismo e literatura, texto curto, que narra fatos do cotidiano — reais ou ficcionais — com liberdade estilística e, frequentemente, tom irônico ou humorístico.
- Paródia do romance policial (hardboiled): Ed Mort é uma criação de Luis Fernando Verissimo que imita o estilo seco e telegráfico dos detetives clássicos (à la Philip Marlowe), mas em um universo caricato e brasileiro, o que já cria uma base de humor por contraste de registros.
- Humor por absurdo narrativo: recurso cômico que consiste em narrar, com naturalidade e seriedade de tom, uma sucessão de acontecimentos ilógicos ou disparatados. O riso surge da distância entre a "normalidade" com que os fatos são contados e o absurdo do que de fato acontece.
- Sequenciação narrativa: a ordem em que os eventos da história são apresentados ao leitor — o encadeamento da ação, isto é, o enredo em si, e não a estrutura gramatical das frases que o compõem.
Passo 3 — Decodificação do Enunciado
- Evidência 1: "vi a cara do King Kong andando pelo chão. As baratas estavam roubando as máscaras." → revela um evento absurdo: baratas disfarçadas, comportando-se como pequenos ladrões organizados — quebra total da lógica do real, narrada como se fosse um fato corriqueiro.
- Evidência 2: "Consegui salvar a minha Bic e o jornal [...] Mas elas levaram a agenda. Saí ganhando. A agenda estava em branco." → outro evento absurdo articulado logo em seguida: uma perda é reinterpretada como vitória, numa lógica interna maluca que só existe dentro da sequência de fatos contada pelo narrador.
- Evidência 3: "Meu último caso fora com a funcionária do Erótica. a primeira ótica da cidade com balconista topless." → mais um episódio disparatado encaixado na sequência de acontecimentos, reforçando o padrão de humor por absurdo que perpassa toda a crônica.
- Síntese: o texto não é uma única piada isolada, mas uma cadeia de pequenos episódios (o escritório precário, os disfarces contra credores, a invasão de baratas fantasiadas, a "vitória" ao perder a agenda vazia, o caso anterior na ótica topless) apresentados em sequência. É exatamente essa articulação, em ordem narrativa, de eventos absurdos que produz o riso — não a forma sintática das orações.
Passo 4 — Resolução Completa (Passo a Passo)
Subpasso 4.1 — Identificar o gênero e a intenção do autor
A crônica é uma paródia bem-humorada do romance policial noir: Verissimo cria um detetive caricato, narrado em 1ª pessoa, com frases curtas que imitam o estilo "duro" dos clássicos americanos. Essa imitação já rende comicidade por contraste (pose de detetive durão vs. pobreza da trama), mas a questão pede o mecanismo central, dominante, do humor.
Subpasso 4.2 — Mapear a sequência de eventos narrados
Reconstituindo a ordem dos fatos: escritório precário entre um fliperama e uma loja de carimbos → luta constante contra as baratas → compra de máscaras para disfarçar-se de credores → cena central: baratas vestidas de King Kong roubando as máscaras → "batalha" contra elas, salvando só a Bic e o jornal → perda da agenda, reinterpretada como vitória por estar em branco → menção ao caso anterior, na ótica com balconista topless. Cada evento, isolado, já é estranho; encadeados em sequência e em ritmo acelerado, formam a espinha dorsal cômica do texto.
Subpasso 4.3 — Verificação
Comparando essa conclusão com as cinco alternativas, apenas uma descreve esse mecanismo — o encadeamento (sequenciação) de acontecimentos ilógicos (eventos absurdos) na narrativa. As demais deslocam a análise para o nível gramatical da frase (constituintes, núcleo verbal, arranjo de períodos) ou para um recurso lexical ausente no texto (redundância). Confirma-se a alternativa que trata do plano do conteúdo narrado, não da forma sintática.
Passo 5 — Análise Crítica de Todas as Alternativas
A) segmentação de enunciados baseada na descrição dos hábitos do personagem.
❌ Incorreta: o texto tem frases curtas e fragmentadas ("Mort. Ed Mort. Detetive particular."), mas essa segmentação é recurso de estilo (imita a fala seca do noir), não descreve "hábitos" rotineiros — o humor não vem de rotina descrita, e sim de acontecimentos pontuais e absurdos narrados em sequência.
B) ordenação dos constituintes oracionais no qual se destaca o núcleo verbal.
❌ Incorreta: trata de sintaxe interna da oração (posição do verbo em relação a sujeito e complementos), nível estritamente gramatical que a crônica não explora para gerar riso.
C) estrutura composicional caracterizada pelo arranjo singular dos períodos.
❌ Incorreta: fala da forma dos períodos (frases curtas, picotadas), ainda no plano estrutural/sintático, não do conteúdo narrado. É marca de estilo de Verissimo, mas não é a fonte do humor: o riso está no que é contado, não em como as frases estão organizadas.
D) sequenciação narrativa na qual se articulam eventos absurdos.
✅ Correta: a crônica é tecida como sucessão de episódios (baratas disfarçadas de King Kong, roubo de máscaras, luta contra os insetos, "vitória" ao perder uma agenda em branco, caso anterior na ótica topless) narrados em sequência de tempo, mas com conteúdo completamente ilógico. É essa articulação, em ordem narrativa, de fatos absurdos que sustenta o humor — marca registrada da escrita de Verissimo.
E) seleção lexical na qual predominam informações redundantes.
❌ Incorreta: o texto é o oposto de redundante. A escrita é econômica e elíptica — cada frase curta traz informação nova, sem repetições, reforçando o estilo telegráfico da paródia policial.
🏆 Gabarito: D — o humor da crônica nasce da sequência de eventos absurdos narrados (as baratas disfarçadas, a "vitória" pela perda da agenda vazia, a ótica topless), e não de qualquer recurso sintático ou lexical descrito nas demais alternativas.
Passo 6 — Conclusão, Generalização e Dica de Prova
- Reafirmação do gabarito: D é a única alternativa que localiza a fonte do humor no plano correto — o encadeamento narrativo de fatos disparatados — coerente com toda a construção da crônica de Verissimo.
- Padrão de cobrança: o ENEM cobra recorrentemente questões sobre gêneros textuais literários (crônica, conto, poema, tirinha) pedindo que o candidato identifique QUAL recurso (linguístico, estrutural ou narrativo) constrói um efeito de sentido específico — humor, ironia, crítica social, surpresa.
- Generalização: sempre que a pergunta for "como se constrói o efeito de humor/ironia/crítica" num texto narrativo, procure primeiro a resposta no CONTEÚDO — o que está sendo narrado e em que ordem — antes de se prender a rótulos técnicos de gramática, a menos que o texto realmente explore ambiguidade sintática de forma explícita.
- Dica de eliminação rápida: desconfie de alternativas que usam jargão de análise sintática ("núcleo verbal", "constituintes oracionais", "arranjo dos períodos") quando o efeito pedido é de sentido/humor num texto narrativo — normalmente são "armadilhas de forma" que soam sofisticadas mas não respondem à pergunta.
- Conexões: vale revisar também questões sobre variação linguística e registro informal (uso de expressões coloquiais como "Dá só para o essencial") e sobre paródia/intertextualidade de gênero, temas frequentes nas provas de Linguagens do ENEM.
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