Mapa de questões · 1º dia
Questão 76 — ENEM 2019Caderno azul · 1º Dia
Essa atmosfera de loucura e irrealidade, criada pela aparente ausência de propósitos, é a verdadeira cortina de ferro que esconde dos olhos do mundo todas as formas de campos de concentração. Vistos de fora, os campos e o que neles acontece só podem ser descritos com imagens extraterrenas, como se a vida fosse neles separada das finalidades deste mundo. Mais que o arame farpado, é a irrealidade dos detentos que ele confina que provoca uma crueldade tão incrível que termina levando à aceitação do extermínio como solução perfeitamente normal.
ARENDT, H. Origens do totalitarismo. São Paulo: Cia. das Letras, 1989 (adaptado).
A partir da análise da autora, no encontro das temporalidades históricas, evidencia-se uma crítica à naturalização do(a)
Alternativas
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Resolução
Ficha da Questão
- 📚 Matérias Necessárias: Filosofia → Totalitarismo e biopolítica (leitura de Hannah Arendt)
- ⚡ Nível: Difícil — exige transpor um texto filosófico abstrato para um conceito-chave (biopolítica) sem que a palavra apareça no enunciado.
- 🎯 Tema/Habilidade: Crítica arendtiana ao totalitarismo e à naturalização da segregação humana como base de projetos de controle da vida (competência de leitura e articulação de processos históricos em Ciências Humanas).
- 🏆 Gabarito: D — revelado após resolução completa
Passo 1 — Leitura Estratégica do Comando
- Comando reformulado: "O que, segundo Arendt, se torna 'normal' e precisa ser criticado quando comparamos diferentes momentos da história?"
- Palavras-chave decisivas: cortina de ferro, irrealidade dos detentos, extermínio como solução perfeitamente normal
- Armadilha típica: associar o texto apenas ao nazismo e marcar a alternativa A (ideário nacional), confundindo o pano de fundo histórico (o nazismo é nacionalista) com o mecanismo conceitual que Arendt de fato denuncia.
- O que a resposta precisa demonstrar: compreensão de que a crítica de Arendt não é sobre um regime específico, mas sobre um mecanismo recorrente — separar seres humanos do mundo comum para tornar aceitável decidir sobre sua vida e morte.
Passo 2 — Mapa de Conceitos Essenciais
- Totalitarismo (Arendt): regime que não se contenta em dominar politicamente, mas busca controlar toda a existência humana, destruindo a pluralidade e a condição de sujeito de direitos dos indivíduos.
- Campo de concentração como "laboratório": para Arendt, o campo é o espaço onde se testa a supressão da humanidade das pessoas, tornando-as descartáveis.
- Biopolítica: exercício do poder político diretamente sobre a vida biológica das populações — quem pode viver, quem pode morrer, quem é incluído ou excluído da comunidade. É esse mecanismo que permite tratar o extermínio como "solução normal".
- Encontro das temporalidades históricas: a questão pede a percepção de um padrão que atravessa diferentes períodos — o texto de 1951 sobre os campos nazistas dialoga com outros episódios de segregação e extermínio ao longo da história, não descreve um fato isolado.
Passo 3 — Decodificação do Enunciado
- Evidência 1: "esconde dos olhos do mundo todas as formas de campos de concentração" → o uso de "todas as formas" indica que Arendt fala de um fenômeno estrutural e recorrente, não de um evento único e irrepetível.
- Evidência 2: "é a irrealidade dos detentos que ele [o arame farpado] confina que provoca uma crueldade tão incrível que termina levando à aceitação do extermínio como solução perfeitamente normal" → o confinamento retira os detentos da esfera de reconhecimento humano comum; essa segregação simbólica e física é a condição que torna o extermínio aceitável.
- Síntese: A crítica da autora incide sobre o processo que separa certos grupos humanos do restante da humanidade — negando-lhes o estatuto de sujeitos plenos — e que, justamente por isso, serve de fundamento para projetos de controle e eliminação da vida em larga escala.
Passo 4 — Resolução Completa (Passo a Passo)
Subpasso 4.1 — Identificar o objeto real da crítica
Arendt não descreve o nazismo como um fenômeno isolado de "loucura" pontual; a expressão "cortina de ferro" indica um mecanismo escondido e sistemático, que opera por trás de qualquer campo de concentração, em qualquer contexto histórico. O elemento central não é o arame farpado (a barreira física), mas a "irrealidade dos detentos" — o modo como esses seres humanos são retirados do mundo comum, tratados como se não pertencessem à mesma realidade dos demais.
Subpasso 4.2 — Conectar segregação e projeto biopolítico
Retirar pessoas da esfera de reconhecimento humano é, em essência, um ato de segregação: separar um grupo do resto da sociedade, negando-lhe direitos e voz política. É essa segregação que abre caminho para que o Estado decida quem deve viver e quem deve morrer — o que é, por definição, um projeto biopolítico. A "aceitação do extermínio como solução perfeitamente normal" só é possível porque a segregação prévia já retirou dos detentos o estatuto de seres plenamente humanos.
Subpasso 4.3 — Verificação
Ao reler o comando — "no encontro das temporalidades históricas, evidencia-se uma crítica à naturalização do(a)..." — a resposta precisa nomear esse mecanismo: segregar humanos para fundamentar decisões sobre vida e morte. Isso corresponde à alternativa D: "segregação humana, que fundamenta os projetos biopolíticos." Nenhuma outra alternativa nomeia esse duplo movimento (excluir + decidir sobre a vida).
Passo 5 — Análise Crítica de Todas as Alternativas
A) ideário nacional, que legitima as desigualdades sociais.
❌ Incorreta: o texto não discute nacionalismo nem desigualdade social como categoria econômica; a crítica de Arendt é sobre a exclusão da condição humana dos detentos, não sobre hierarquias de classe ou identidade nacional.
B) alienação ideológica, que justifica as ações individuais.
❌ Incorreta: Arendt não fala de indivíduos alienados justificando suas próprias ações, mas de um sistema estrutural (o campo) que naturaliza o extermínio coletivo; o foco está no mecanismo institucional, não na consciência individual.
C) cosmologia religiosa, que sustenta as tradições hierárquicas.
❌ Incorreta: não há qualquer menção a crenças religiosas ou tradições hierárquicas no texto; a referência a "imagens extraterrenas" é uma metáfora sobre a irrealidade do campo, não uma alusão a cosmologia religiosa.
D) segregação humana, que fundamenta os projetos biopolíticos.
✅ Correta: é exatamente o que o texto descreve — a separação dos detentos do mundo comum ("irrealidade") é o que torna possível o extermínio como algo "normal", caracterizando um projeto de controle da vida e da morte de populações inteiras, ou seja, um projeto biopolítico fundado na segregação.
E) enquadramento cultural, que favorece os comportamentos punitivos.
❌ Incorreta: o texto não trata de cultura ou de punição; o campo de concentração descrito por Arendt não é um instrumento de punição no sentido jurídico-penal, mas um espaço de extermínio administrativo e sistemático.
🏆 Gabarito: D — a crítica de Arendt recai sobre a naturalização da segregação humana como base de projetos biopolíticos, isto é, sobre como excluir grupos da condição humana comum permite ao poder decidir sobre sua vida e morte em larga escala.
Passo 6 — Conclusão, Generalização e Dica de Prova
- Reafirmação do gabarito: apenas a alternativa D nomeia com precisão o mecanismo descrito por Arendt — segregar para depois exterminar —, articulando-o ao conceito de biopolítica.
- Padrão de cobrança: o ENEM recorrentemente traz trechos de pensadores como Arendt, Foucault e Bauman para cobrar conceitos como totalitarismo, biopolítica e desumanização, exigindo que o candidato ultrapasse a leitura literal e identifique o conceito teórico por trás do relato histórico.
- Generalização: em questões sobre violência de Estado (Holocausto, ditaduras, genocídios), desconfie de alternativas que reduzem o fenômeno a causas superficiais (nacionalismo, religião, cultura) e procure a que trata do mecanismo estrutural de exclusão/controle da vida.
- Dica de eliminação rápida: elimine alternativas que introduzem elementos ausentes do texto — religião (C) e cultura/punição (E); entre as restantes, escolha a que fala em excluir/segregar pessoas, não em ideologia individual (B) ou nacionalismo (A).
- Conexões: dialoga com "banalidade do mal" (Arendt, sobre Eichmann) e com o conceito foucaultiano de biopoder, recorrentes em Filosofia e Sociologia sobre Estado, poder e direitos humanos.
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