Mapa de questões · 1º dia
Questão 75 — ENEM 2019Caderno azul · 1º Dia
TEXTO I
Os segredos da natureza se revelam mais sob a tortura dos experimentos do que no seu curso natural.
BACON, F. Novum Organum, 1620. In: HADOT, P. O véu de Ísis: ensaio sobre a história da ideia de natureza. São Paulo: Loyola, 2006.
TEXTO II
O ser humano, totalmente desintegrado do todo, não percebe mais as relações de equilíbrio da natureza. Age de forma totalmente desarmônica sobre o ambiente, causando grandes desequilíbrios ambientais.
GUIMARÃES, M. A dimensão ambiental na educação. Campinas: Papirus, 1995.
Os textos indicam uma relação da sociedade diante da natureza caracterizada pela
Alternativas
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Resolução
Ficha da Questão
- 📚 Matérias Necessárias: Filosofia → relação sociedade-natureza e crítica à racionalidade científica moderna
- ⚡ Nível: Médio — exige articular dois textos densos de épocas e áreas diferentes (filosofia da ciência do século XVII e educação ambiental contemporânea) para extrair um conceito abstrato comum que nenhum dos dois enuncia explicitamente
- 🎯 Tema/Habilidade: Crítica ao paradigma moderno de domínio sobre a natureza; competência de leitura comparada e articulação de textos filosóficos/sociológicos
- 🏆 Gabarito: A — revelado após resolução completa
Passo 1 — Leitura Estratégica do Comando
- Comando reformulado: "Que conceito único explica a forma como a sociedade se relaciona com a natureza, segundo os dois textos apresentados?"
- Palavras-chave decisivas: tortura dos experimentos, desintegrado do todo, desarmônica
- Armadilha típica: associar a menção de Bacon aos "experimentos" com uma defesa do método científico (levando à alternativa D), quando na verdade a imagem da "tortura" denuncia justamente uma relação de dominação violenta, e não de confiabilidade científica.
- O que a resposta precisa demonstrar: que o candidato percebe, nos dois textos, a mesma lógica de fundo — a natureza tratada como algo externo ao ser humano, passível de ser manipulado, controlado e explorado, isto é, reduzido à condição de objeto.
Passo 2 — Mapa de Conceitos Essenciais
- Racionalismo baconiano e Revolução Científica: Francis Bacon é um dos fundadores do método experimental moderno; para ele, conhecer a natureza significa forçá-la a "confessar" seus segredos por meio de experimentos — uma postura de domínio e controle sobre o mundo natural, não de contemplação.
- Antropocentrismo moderno: paradigma que coloca o ser humano como sujeito separado e superior à natureza, a qual se torna mero recurso ou matéria disponível para uso, estudo e exploração.
- Objetificação: processo de transformar algo — no caso, o espaço físico/natural — em objeto passivo, despido de valor intrínseco, existindo apenas em função da utilidade que oferece ao sujeito que o manipula.
- Crise ambiental e desintegração (Guimarães): quando o ser humano se percebe como algo à parte da natureza, perde a noção de equilíbrio e interdependência, e sua ação sobre o ambiente passa a ser desarmônica, gerando desequilíbrios ecológicos.
Passo 3 — Decodificação do Enunciado
- Evidência 1: "Os segredos da natureza se revelam mais sob a tortura dos experimentos" → a metáfora da tortura mostra a natureza como algo que resiste, que precisa ser forçado, subjugado; ela é tratada como um corpo passivo submetido à vontade do experimentador, não como parceira de convivência.
- Evidência 2: "totalmente desintegrado do todo... age de forma totalmente desarmônica sobre o ambiente" → o ser humano se enxerga como externo à natureza, como agente que atua "sobre" ela (e não "com" ela), o que só é possível quando a natureza é percebida como algo separado, disponível, objetivado.
- Síntese: apesar de tratarem de momentos históricos e campos distintos — um da epistemologia científica do século XVII, outro da educação ambiental do fim do século XX —, os dois textos descrevem a mesma estrutura de relação: a natureza reduzida a objeto externo, manipulável e passível de exploração pelo ser humano, seja para produzir conhecimento (Bacon), seja como consequência do afastamento que gera degradação (Guimarães).
Passo 4 — Resolução Completa (Passo a Passo)
Subpasso 4.1 — Isolar o núcleo comum aos dois textos
No Texto I, Bacon defende que a natureza só revela seus segredos quando submetida à "tortura dos experimentos" — uma imagem deliberadamente violenta, que expressa a ciência moderna como prática de dominação: o cientista extrai, força, manipula. A natureza não é sujeito de diálogo, é objeto de investigação coercitiva. No Texto II, Guimarães descreve o resultado psicológico e prático dessa mesma lógica: o ser humano "desintegrado do todo" não reconhece mais as relações de equilíbrio da natureza e age "desarmonicamente" sobre o ambiente. Ora, só se pode agir "sobre" algo — em vez de "como parte de" algo — quando esse algo é percebido como externo e disponível, isto é, como objeto.
Subpasso 4.2 — Nomear o conceito que une as duas evidências
O termo que sintetiza essa relação, presente tanto na postura experimental de Bacon quanto no distanciamento descrito por Guimarães, é a objetificação: o espaço físico/natural deixa de ser compreendido como totalidade da qual o ser humano faz parte e passa a ser tratado como coisa, recurso, matéria-prima sujeita à ação humana — seja para gerar conhecimento científico, seja simplesmente para ser usada e explorada sem critério de equilíbrio.
Subpasso 4.3 — Verificação
Confrontando essa síntese com as alternativas, apenas a opção A — "objetificação do espaço físico" — descreve com precisão o fenômeno comum aos dois textos: a natureza tratada como objeto externo ao ser humano, submetida à sua vontade de dominação (Bacon) e à sua ação desarmônica (Guimarães). As demais alternativas propõem ideias que não aparecem em nenhum dos dois textos ou que contradizem diretamente o que eles afirmam, como será detalhado no Passo 5.
Passo 5 — Análise Crítica de Todas as Alternativas
A) objetificação do espaço físico.
✅ Correta: os dois textos convergem para a mesma ideia — a natureza tratada como objeto passivo e externo ao ser humano. Bacon a transforma em objeto de experimentação forçada ("tortura"); Guimarães mostra que, uma vez que o homem se percebe desintegrado do todo natural, ele passa a agir sobre o ambiente como se este fosse mero espaço a ser usado, o que gera desequilíbrio. Essa é exatamente a lógica da objetificação: retirar da natureza seu estatuto de totalidade viva e reduzi-la a coisa manipulável.
B) retomada do modelo criacionista.
❌ Incorreta: nenhum dos dois textos menciona explicações religiosas ou bíblicas sobre a origem da natureza. O debate criacionismo versus evolucionismo é estranho ao conteúdo dos textos, que tratam de epistemologia científica e de percepção ambiental, não de cosmogonia religiosa.
C) recuperação do legado ancestral.
❌ Incorreta: os textos descrevem exatamente o oposto de uma recuperação — mostram uma ruptura, um distanciamento ("desintegrado do todo") entre ser humano e natureza. Não há qualquer menção a saberes tradicionais, indígenas ou ancestrais sendo resgatados; ao contrário, o que se descreve é a perda do sentido de pertencimento à natureza.
D) infalibilidade do método científico.
❌ Incorreta: embora o Texto I mencione "experimentos", ele não afirma que o método científico é infalível ou sempre correto — a ênfase está na violência da relação ("tortura"), não na confiabilidade dos resultados. Além disso, o Texto II nada diz sobre ciência ou método, tratando exclusivamente da relação prática entre ser humano e ambiente, o que torna essa alternativa incompatível com a articulação exigida entre os dois textos.
E) formação da cosmovisão holística.
❌ Incorreta: é a antítese do que o Texto II afirma. Uma cosmovisão holística pressupõe a percepção do ser humano como parte integrada do todo natural — mas o texto de Guimarães diz justamente que o ser humano está "totalmente desintegrado do todo", ou seja, descreve a ausência (e não a formação) de uma visão holística.
🏆 Gabarito: A — os dois textos, de contextos distintos, ilustram a mesma lógica de fundo: a natureza reduzida a objeto externo e manipulável pelo ser humano, seja pela via da dominação científica experimental (Bacon), seja pela via do distanciamento que gera ação desarmônica sobre o ambiente (Guimarães).
Passo 6 — Conclusão, Generalização e Dica de Prova
- Reafirmação do gabarito: A é a única alternativa que nomeia o fenômeno concreto ilustrado pelos dois textos — a transformação da natureza em objeto disponível à ação humana, seja para conhecimento, seja para exploração.
- Padrão de cobrança: o ENEM costuma cruzar um texto filosófico clássico (Bacon, Descartes, Rousseau) com um texto contemporâneo de cunho ambiental ou sociológico para testar a capacidade de identificar, por trás de linguagens e épocas diferentes, o mesmo conceito abstrato — geralmente ligado à crítica do antropocentrismo, do dualismo sujeito-objeto e da crise ecológica.
- Generalização: quando a questão apresenta dois textos de origens muito distintas que "parecem" falar de coisas diferentes, busque o conceito-ponte que explica ambos ao mesmo tempo, em vez de tentar encaixar cada texto isoladamente em uma alternativa.
- Dica de eliminação rápida: elimine de cara qualquer alternativa que descreva algo positivo, harmônico ou de recuperação (como C e E), já que os dois textos descrevem relações de ruptura e dominação; elimine também qualquer alternativa que introduza um tema ausente nos textos, como religião (B).
- Conexões: dualismo cartesiano sujeito-objeto (res cogitans x res extensa); pensamento sistêmico e crítica ecológica contemporânea (Fritjof Capra, Edgar Morin), que propõem justamente a superação dessa visão objetificada da natureza.
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