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Mapa de questões · 1º dia
HumanasHistóriaMédio

Questão 54ENEM 2019Caderno azul · 1º Dia

Dificilmente passa-se uma noite sem que algum sitiante tenha seu celeiro ou sua pilha de cereais destruídos pelo fogo. Vários trabalhadores não diretamente envolvidos nos ataques pareciam  apoiá-los, como se vê neste depoimento ao The Times: “deixa queimar, pena que não foi a casa”; “podemos nos aquecer agora”; “nós só queríamos algumas batatas,  há um fogo ótimo para cozinhá-las”.

HOBSBAWM, E.; RUDÉ, G. Capitão Swing. Rio de Janeiro: Francisco Alves, 1982 (adaptado).

A revolta descrita no texto, ocorrida na Inglaterra no século XIX, foi uma reação ao seguinte processo socioespacial:

Alternativas

Resolução em Vídeo

Resolução

Ficha da Questão

  • 📚 Matérias Necessárias: História → Revolução Industrial inglesa e transformações no campo (cercamentos)
  • ⚡ Nível: Médio — exige relacionar um relato de violência rural a um processo estrutural específico da história agrária inglesa, e não apenas interpretar o texto de forma literal.
  • 🎯 Tema/Habilidade: Impactos sociais da Revolução Industrial no campo inglês; competência de identificar transformações econômico-sociais decorrentes do avanço do capitalismo agrário.
  • 🏆 Gabarito: B — revelado após resolução completa

Passo 1 — Leitura Estratégica do Comando

  • Comando reformulado: "Qual processo socioespacial explica a revolta rural inglesa do século XIX narrada no texto?"
  • Palavras-chave decisivas: sitiante, celeiro/pilha de cereais destruídos pelo fogo, "nós só queríamos algumas batatas"
  • Armadilha típica: associar a revolta apenas à industrialização fabril urbana (como no ludismo clássico contra máquinas têxteis) e ignorar que o cenário descrito é rural, envolvendo terra, alimento e sobrevivência do campesinato.
  • O que a resposta precisa demonstrar: compreensão de que a violência contra propriedades rurais tinha como causa profunda a perda do acesso à terra pelos trabalhadores do campo, e não apenas fome ou raiva difusa.

Passo 2 — Mapa de Conceitos Essenciais

  • Cercamentos (Enclosures): processo, intensificado do século XVIII ao XIX, pelo qual terras comunais (usadas coletivamente por camponeses para pastagem, coleta de lenha e pequenos cultivos de subsistência) foram cercadas e transformadas em propriedade privada de grandes latifundiários, geralmente por meio de atos parlamentares (Enclosure Acts).
  • Capitão Swing (1830): nome fictício usado como assinatura em cartas de ameaça durante uma onda de revoltas rurais no sul e leste da Inglaterra, marcada por incêndios de celeiros, destruição de máquinas de debulhar trigo e exigências de melhores salários e acesso à terra.
  • Proletarização do campesinato: consequência direta dos cercamentos — sem terra própria nem acesso aos comuns, o camponês inglês foi transformado em trabalhador assalariado, dependente de jornadas de trabalho na lavoura de grandes proprietários ou obrigado a migrar para as cidades industriais.
  • Revolução Agrícola: paralela à Revolução Industrial, trouxe mecanização (como as máquinas de debulha) e novas técnicas de cultivo que aumentavam a produtividade da terra concentrada, mas reduziam a necessidade de mão de obra e aprofundavam a expulsão dos pequenos produtores.

Passo 3 — Decodificação do Enunciado

  • Evidência 1: "sitiante tenha seu celeiro ou sua pilha de cereais destruídos pelo fogo" → revela ataques direcionados a símbolos da propriedade agrária concentrada (celeiros, estoques de grãos), típicos da fúria contra os grandes proprietários que haviam se apropriado da terra.
  • Evidência 2: "nós só queríamos algumas batatas, há um fogo ótimo para cozinhá-las" → mostra que os revoltosos, mesmo sem estar diretamente ligados aos incêndios, viam neles uma oportunidade de suprir necessidades básicas de subsistência — sinal de miséria extrema e de carência de meios próprios de produção de alimento.
  • Síntese: o cenário é de trabalhadores rurais empobrecidos, sem terra e sem alternativa de sustento, revoltando-se contra os símbolos da riqueza agrária concentrada. Esse quadro só se explica historicamente pela expropriação anterior das terras que antes eram de uso comum, o que empurrou o campesinato inglês para a dependência total do trabalho assalariado precário.

Passo 4 — Resolução Completa (Passo a Passo)

Subpasso 4.1 — Identificar o contexto histórico do relato

O trecho de Hobsbawm e Rudé narra episódios da chamada Revolta de Swing (Captain Swing Riots), ocorrida por volta de 1830 no campo inglês. Trabalhadores rurais atacavam celeiros, queimavam pilhas de cereais e destruíam máquinas de debulha, numa onda de protesto que combinava sabotagem econômica e desespero social. É fundamental perceber que esse não é um movimento urbano-fabril (como o ludismo têxtil de 1811-1816), mas sim um movimento do campo, o que direciona a resposta para processos agrários.

Subpasso 4.2 — Relacionar a violência descrita à sua causa estrutural

Desde o século XVIII, e com aceleração no início do XIX, o Parlamento inglês aprovou sucessivos Enclosure Acts que cercavam as terras comunais (commons) — áreas coletivas onde camponeses pobres criavam animais, colhiam lenha e plantavam pequenas roças de subsistência. Com o cercamento, essas terras passaram a propriedade privada de grandes proprietários rurais, e o campesinato perdeu sua base material de sobrevivência autônoma. O resultado foi um enorme contingente de trabalhadores rurais sem terra, dependentes de salários baixos e de trabalho sazonal, exatamente o grupo social retratado no depoimento do jornal The Times.

Subpasso 4.3 — Verificação

A frase "nós só queríamos algumas batatas" só faz sentido pleno se entendida como o desespero de quem não tem mais terra própria para cultivar seu próprio alimento — consequência direta da expropriação das terras comunais. Isso confirma que a alternativa correta deve tratar exatamente desse processo: a perda do acesso coletivo à terra, e não de restrição genérica da propriedade privada, estatização, monocultura ou proibição de artesanato.

Passo 5 — Análise Crítica de Todas as Alternativas

A) Restrição da propriedade privada.

❌ Incorreta: o processo histórico foi exatamente o oposto — os cercamentos ampliaram e consolidaram a propriedade privada sobre terras que antes eram de uso comunal. Não houve restrição à propriedade privada, mas sua expansão às custas dos comuns.

B) Expropriação das terras comunais.

✅ Correta: os Enclosure Acts transformaram terras coletivas (commons), historicamente usadas pelos camponeses pobres para subsistência, em propriedade privada de grandes latifundiários. Essa expropriação retirou dos trabalhadores rurais seus meios autônomos de produção de alimento, gerando a miséria e a revolta retratadas no texto — inclusive a fala sobre precisar de batatas para comer.

C) Imposição da estatização fundiária.

❌ Incorreta: não houve nacionalização ou estatização de terras na Inglaterra do período; ao contrário, o movimento foi de privatização das terras comunais em favor de proprietários particulares, reforçando o capitalismo agrário e não o controle estatal sobre a terra.

D) Redução da produção monocultora.

❌ Incorreta: o texto não trata de mudança no tipo de cultivo (mono ou policultura), e o problema histórico central dos cercamentos não foi a diversificação ou redução de culturas, mas a perda do acesso à terra pelos pequenos produtores.

E) Proibição das atividades artesanais.

❌ Incorreta: essa alternativa remete a outro contexto histórico (o declínio do artesanato têxtil doméstico diante da industrialização fabril, ligado ao ludismo), não ao cenário rural de incêndios em celeiros e pilhas de cereais descrito no texto, que é tipicamente agrário.

🏆 Gabarito: B — a revolta de Swing foi uma reação direta à expropriação das terras comunais pelos cercamentos, que retirou do campesinato inglês seus meios de subsistência e o empurrou para a miséria e o trabalho assalariado precário.

Passo 6 — Conclusão, Generalização e Dica de Prova

  • Reafirmação do gabarito: apenas a alternativa B explica coerentemente por que trabalhadores rurais empobrecidos atacavam celeiros e desejavam comida básica como batatas — eles haviam perdido o acesso à terra comunal que antes garantia sua subsistência.
  • Padrão de cobrança: o ENEM recorrentemente cobra os impactos sociais da Revolução Industrial e da Revolução Agrícola inglesa, especialmente a formação de uma massa de trabalhadores sem propriedade (proletariado rural e urbano) como resultado dos cercamentos e da mecanização.
  • Generalização: sempre que um texto descrever miséria rural, ataques a propriedades agrícolas e falta de terra na Inglaterra dos séculos XVIII-XIX, associe ao processo de cercamento (enclosure) das terras comunais, e não a fenômenos isolados de fome ou banditismo.
  • Dica de eliminação rápida: descarte de imediato alternativas que contradizem o sentido da privatização crescente da terra (como "restrição da propriedade privada" e "estatização fundiária"), pois o processo histórico foi de concentração fundiária privada, não de limitação ou nacionalização.
  • Conexões: compare com o movimento ludista (destruição de máquinas têxteis nas fábricas) e com a formação do proletariado urbano nas cidades industriais inglesas — ambos derivam do mesmo processo mais amplo de expropriação do trabalhador de seus meios de produção.

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