Mapa de questões · 1º dia
Questão 64 — ENEM 2019Caderno azul · 1º Dia
A lenda diz que, em um belo dia ensolarado, Newton estava relaxando sob uma macieira. Pássaros gorjeavam em suas orelhas. Havia uma brisa gentil. Ele cochilou por alguns minutos. De repente, uma maçã caiu sobre a sua cabeça e ele acordou com um susto. Olhou para cima. “Com certeza um pássaro ou um esquilo derrubou a maçã da árvore”, supôs. Mas não havia pássaros ou esquilos na árvore por perto. Ele, então, pensou: “Apenas alguns minutos antes, a maçã estava pendurada na árvore. Nenhuma força externa fez ela cair. Deve haver alguma força subjacente que causa a queda das coisas para a terra”.
SILVA, C. C.; MARTINS, R. A. Estudos de história e filosofia das ciências.
São Paulo: Livraria da Física, 2006 (adaptado).
Em contraponto a uma interpretação idealizada, o texto aponta para a seguinte dimensão fundamental da ciência moderna:
Alternativas
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Resolução
Ficha da Questão
- 📚 Matérias Necessárias: Filosofia → Filosofia da Ciência / Epistemologia (método científico)
- ⚡ Nível: Médio — exige interpretar um texto narrativo e relacioná-lo a um conceito epistemológico abstrato, sem que a palavra "hipótese" apareça literalmente no enunciado
- 🎯 Tema/Habilidade: Fundamentos do método científico moderno (formulação de hipóteses) — competência de análise da produção do conhecimento científico
- 🏆 Gabarito: C — revelado após resolução completa
Passo 1 — Leitura Estratégica do Comando
- Comando reformulado: "Qual característica da ciência moderna o texto evidencia ao desmontar a lenda romântica da maçã de Newton?"
- Palavras-chave decisivas: "contraponto a uma interpretação idealizada", "supôs", "deve haver alguma força subjacente"
- Armadilha típica: deixar-se levar pelo cenário bucólico (macieira, brisa, pássaros cantando) e marcar "contemplação da natureza" — exatamente a leitura ingênua que o texto quer refutar.
- O que a resposta precisa demonstrar: identificar que Newton, no relato, não apenas observa passivamente, mas constrói raciocínios explicativos (hipóteses) para um fenômeno sem causa aparente.
Passo 2 — Mapa de Conceitos Essenciais
- Ciência moderna (séc. XVI-XVII): rompe com explicações teleológicas/aristotélicas e passa a associar observação sistemática a raciocínio racional para explicar causalmente os fenômenos naturais.
- Hipótese científica: explicação provisória e testável formulada diante de um fenômeno observado; é o ponto de partida da investigação, não seu produto final.
- Mito da descoberta científica: narrativas populares (a maçã, a banheira de Arquimedes) tendem a retratar a descoberta como um lampejo súbito e passivo; a historiografia da ciência desmonta essa idealização mostrando o trabalho racional por trás dela.
- Indutivismo ingênuo x raciocínio hipotético: a visão ingênua supõe que basta observar repetidamente a natureza para que a verdade "apareça"; a ciência moderna, na prática, avança quando o cientista propõe explicações causais que orientam novas observações e testes.
Passo 3 — Decodificação do Enunciado
- Evidência 1: "'Com certeza um pássaro ou um esquilo derrubou a maçã da árvore', supôs" → Newton, diante do fenômeno, já reage formulando uma explicação causal simples — um primeiro esboço de hipótese, baseado em causas cotidianas conhecidas.
- Evidência 2: "Mas não havia pássaros ou esquilos na árvore por perto" → ele confronta essa hipótese inicial com a observação direta e a descarta; não há aqui contemplação passiva, e sim investigação ativa.
- Evidência 3: "Nenhuma força externa fez ela cair. Deve haver alguma força subjacente que causa a queda das coisas para a terra" → sem causa visível, ele elabora uma nova hipótese explicativa, mais ousada — o embrião da lei da gravitação.
- Síntese: o texto narra em miniatura o próprio método científico: observação → tentativa de explicação → confronto com os fatos → reformulação da explicação. Isso é o contraponto direto à "interpretação idealizada" da lenda, que trata a descoberta como um dom passivo diante da natureza contemplada sob a árvore.
Passo 4 — Resolução Completa (Passo a Passo)
Subpasso 4.1 — Identificar o contraponto proposto pelo enunciado
A pergunta pede a dimensão da ciência moderna que aparece "em contraponto a uma interpretação idealizada". Essa interpretação idealizada é a lenda: Newton relaxando ao som dos pássaros, embalado pela brisa, e a maçã caindo magicamente sobre sua cabeça, gerando um "estalo" instantâneo de genialidade — como se a descoberta científica dispensasse trabalho racional e fosse fruto do acaso ou de uma iluminação súbita.
Subpasso 4.2 — Rastrear o raciocínio efetivo de Newton no texto
O texto, contudo, mostra outra coisa: Newton primeiro levanta uma hipótese trivial ("foi um pássaro ou esquilo"), testa mentalmente essa hipótese contra a observação (não havia nenhum dos dois por perto) e, ao vê-la refutada, formula uma explicação mais geral e ousada: "deve haver alguma força subjacente". Esse movimento — observar um fenômeno intrigante e propor, por raciocínio, uma explicação causal ainda não comprovada, mas testável — é o que a história e a filosofia da ciência chamam de proposição (ou formulação) de hipóteses, etapa fundadora do método científico consolidado a partir da Revolução Científica.
Subpasso 4.3 — Verificação
Comparando com as cinco alternativas, apenas "proposição de hipóteses" descreve com exatidão o que o trecho narra: um raciocínio ativo de criação de explicações causais provisórias, testadas e reformuladas diante dos fatos — o oposto da passividade contemplativa da lenda popular. O resultado da análise converge, portanto, para a alternativa C.
Passo 5 — Análise Crítica de Todas as Alternativas
A) Falsificação de teses.
❌ Incorreta: a falsificação, no sentido popperiano, é a etapa de testar experimentalmente e tentar refutar uma hipótese já formulada e desenvolvida. O texto mostra apenas o nascimento da hipótese ("deve haver..."), não um processo formal de tentativa de refutação científica de uma teoria consolidada.
B) Negação da observação.
❌ Incorreta: o texto faz exatamente o oposto — Newton observa atentamente (olha para cima, verifica se há pássaros ou esquilos por perto). A observação não é negada; ela é mostrada como necessária, porém insuficiente sozinha, pois precisa ser complementada por uma explicação racional do fenômeno.
C) Proposição de hipóteses.
✅ Correta: é exatamente o que o texto narra — diante de um fenômeno sem causa aparente, Newton elabora explicações causais provisórias (primeiro a errada, depois a da "força subjacente"), numa demonstração do raciocínio hipotético que caracteriza o método científico moderno.
D) Contemplação da natureza.
❌ Incorreta: essa é justamente a "interpretação idealizada" que o texto busca desconstruir. A cena bucólica (brisa, pássaros, cochilo) sugere passividade contemplativa, mas o núcleo do trecho está no raciocínio ativo que se segue à observação, não na contemplação em si.
E) Universalização de conclusões.
❌ Incorreta: generalizar a força observada na queda de uma maçã para todos os corpos do universo (a lei da gravitação universal) é uma etapa posterior do trabalho newtoniano, que não é descrita neste trecho — o texto se limita ao momento de formular a hipótese explicativa inicial, ainda particular ao caso da maçã.
🏆 Gabarito: C — o texto contrapõe à lenda idealizada da descoberta passiva o verdadeiro motor da ciência moderna: o raciocínio ativo que propõe hipóteses explicativas diante de fenômenos observados.
Passo 6 — Conclusão, Generalização e Dica de Prova
- Reafirmação do gabarito: C é a única alternativa que corresponde ao movimento de pensamento narrado no texto — criar uma explicação causal (hipótese) diante de um fenômeno intrigante, e não apenas observá-lo ou contemplá-lo.
- Padrão de cobrança: o ENEM costuma cobrar epistemologia e método científico por meio de textos narrativos ou historiográficos que contrapõem senso comum e ciência, mito e método, indutivismo ingênuo e raciocínio hipotético-dedutivo.
- Generalização: sempre que o enunciado citar uma "lenda" ou "mito" de descoberta científica e pedir o que o texto contrapõe a essa visão romântica, procure o elemento de raciocínio ativo e testável (a hipótese) que a narrativa popular esconde por trás da imagem de acaso ou inspiração súbita.
- Dica de eliminação rápida: descarte alternativas que descrevam etapas posteriores do método científico, como testar/refutar (falsificação) ou generalizar (universalização), e descarte também as que contradizem literalmente o texto (negação da observação, contemplação passiva). Fique com o verbo que combina com "pensou... deve haver": propor.
- Conexões: método hipotético-dedutivo de Karl Popper; Revolução Científica e a ruptura com a física aristotélica; historiografia da ciência e a desconstrução de mitos de descoberta (como a lenda de Galileu em Pisa).
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