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Mapa de questões · 1º dia
HumanasFilosofiaDifícil

Questão 74ENEM 2019Caderno azul · 1º Dia

Penso que não há um sujeito soberano, fundador, uma forma universal de sujeito que poderíamos encontrar em todos os lugares. Penso, pelo contrário, que o sujeito se constitui através das práticas de sujeição ou, de maneira mais autônoma, através de práticas de liberação, de liberdade, como na Antiguidade — a partir, obviamente, de um certo número de regras, de estilos, que podemos encontrar no meio cultural.

FOUCAULT, M. Ditos e escritos V: ética, sexualidade, política.  Rio de Janeiro: Forense Universitária, 2004.

O texto aponta que a subjetivação se efetiva numa dimensão

Alternativas

Resolução em Vídeo

Resolução

Ficha da Questão

  • 📚 Matérias Necessárias: Filosofia → filosofia contemporânea, teoria do sujeito em Michel Foucault
  • ⚡ Nível: Difícil — o vocabulário técnico ("sujeito soberano", "práticas de sujeição") exige leitura atenta e não permite resposta por senso comum
  • 🎯 Tema/Habilidade: Crítica foucaultiana ao sujeito universal/essencial; competência de leitura e interpretação de textos filosóficos densos, típica das Ciências Humanas do ENEM
  • 🏆 Gabarito: C — revelado após resolução completa

Passo 1 — Leitura Estratégica do Comando

  • Comando reformulado: "Segundo o trecho de Foucault, em que dimensão o processo de subjetivação (constituição do sujeito) efetivamente acontece?"
  • Palavras-chave decisivas: "não há... forma universal de sujeito", "práticas de sujeição ou... de liberação", "regras... estilos... no meio cultural"
  • Armadilha típica: marcar D ou E, porque o senso comum associa "sujeito" a algo fixo, dado por natureza, por Deus ou pela razão — exatamente o que Foucault nega logo na primeira frase.
  • O que a resposta precisa demonstrar: entender que, para Foucault, o sujeito não nasce pronto nem segue um modelo universal — ele é produzido por práticas históricas e culturais concretas, o que o torna contingente e social.

Passo 2 — Mapa de Conceitos Essenciais

  • Sujeito soberano/fundador (o que Foucault rejeita): ideia moderna, de raiz cartesiana e iluminista, de um "eu" racional, autônomo e universal, existente antes de qualquer relação social e base de todo conhecimento — o mesmo em qualquer época ou cultura.
  • Práticas de sujeição: mecanismos de poder e saber (instituições, discursos, normas) que atuam de fora para dentro, moldando o indivíduo e atribuindo-lhe identidades e condutas.
  • Práticas de liberação (ou de si): trabalho ético que o indivíduo faz sobre si mesmo — como no "cuidado de si" da Antiguidade greco-romana — para se constituir de modo mais autônomo, sempre a partir de regras e estilos culturalmente disponíveis.
  • Contingência: o que não é necessário nem universal, podendo ser diferente conforme o contexto histórico e cultural — o oposto de essência (o que é sempre e necessariamente assim).

Passo 3 — Decodificação do Enunciado

  • Evidência 1: "não há um sujeito soberano, fundador, uma forma universal de sujeito" → Foucault nega qualquer essência fixa e universal do sujeito, comprometendo alternativas que o tratem como algo dado, necessário ou transcendente.
  • Evidência 2: "o sujeito se constitui através das práticas de sujeição ou... de liberação... a partir... de regras, de estilos, que podemos encontrar no meio cultural" → a formação do sujeito depende de práticas inseridas em um meio cultural — algo social, histórico e variável, não uma fórmula fixa.
  • Síntese: a subjetivação não segue lei jurídica, lógica racional universal, desígnio religioso ou essência pré-dada; ela emerge de práticas concretas que mudam conforme tempo, lugar e relações sociais — exatamente o sentido de "contingencial" e "processada em interações sociais".

Passo 4 — Resolução Completa (Passo a Passo)

Subpasso 4.1 — Identificar o que o texto nega

Foucault abre o trecho afirmando o que o sujeito não é: não é soberano, não é fundador, não é uma "forma universal" encontrável "em todos os lugares". Essa negação já elimina qualquer alternativa que descreva a subjetivação como algo essencial, fixo ou transcendente.

Subpasso 4.2 — Identificar o que o texto afirma

O sujeito "se constitui através de práticas" — de sujeição (poder vindo de fora) ou de liberação (trabalho ético sobre si, como na Antiguidade) —, sempre "a partir... de regras... de estilos... no meio cultural". Duas expressões guiam a resposta: "práticas" (processo relacional, não substância) e "meio cultural" (contexto social e histórico, não lei, religião ou lógica abstrata).

Subpasso 4.3 — Verificação

Cruzando as etapas: a subjetivação não é universal nem essencial (descarta D e E); o texto não menciona lei (descarta A); não descreve dedução lógica (descarta B); e afirma que o sujeito se forma por práticas ligadas ao "meio cultural" — relações socialmente situadas e historicamente variáveis. Só a alternativa C reúne contingência e caráter social.

Passo 5 — Análise Crítica de Todas as Alternativas

A) legal, pautada em preceitos jurídicos.

❌ Incorreta: o texto não cita lei, direito ou normas jurídicas. As "regras" e "estilos" mencionados por Foucault são referências éticas e culturais de conduta, não códigos jurídicos — confundir "regra de conduta" com "norma legal" é o erro típico aqui.

B) racional, baseada em pressupostos lógicos.

❌ Incorreta: Foucault não descreve a formação do sujeito como dedução lógica ou fundamentação racional universal. Ele historiciza o sujeito — incompatível com uma base lógico-racional, que seria, por definição, igual em qualquer contexto.

C) contingencial, processada em interações sociais.

✅ Correta: é a tese central do texto. O sujeito não tem forma universal nem necessária (logo, é contingente) e se constitui por práticas de sujeição ou de liberação inseridas em regras e estilos do "meio cultural" — relações e interações sociais historicamente situadas.

D) transcendental, efetivada em princípios religiosos.

❌ Incorreta: o texto não menciona religião, e a própria ideia de "transcendental" — algo acima da experiência histórica e cultural — contradiz a primeira frase do trecho, que nega qualquer "forma universal de sujeito".

E) essencial, fundamentada em parâmetros substancialistas.

❌ Incorreta: é a alternativa mais armadilha, pois inverte o sentido do texto. Foucault nega explicitamente uma essência fixa e universal do sujeito ("não há... uma forma universal de sujeito"); para ele, a subjetivação é processo e relação, não substância pré-dada.

🏆 Gabarito: C — o texto descreve o sujeito como produto de práticas históricas e culturais (de sujeição ou de liberação), portanto contingente e social, e não universal, jurídico, lógico ou religioso.

Passo 6 — Conclusão, Generalização e Dica de Prova

  • Reafirmação do gabarito: C é a única alternativa compatível com a dupla negação do texto (nada de sujeito universal, nada de sujeito essencial) somada à afirmação de que a subjetivação ocorre por práticas culturais e sociais variáveis conforme o contexto.
  • Padrão de cobrança: o ENEM costuma trazer Foucault em trechos sobre poder, disciplina e subjetividade, pedindo que o estudante reconheça a crítica pós-estruturalista às noções modernas de sujeito, verdade e poder como algo fixo e universal.
  • Generalização: em filosofia contemporânea (Foucault, Nietzsche, pós-estruturalismo), desconfie de alternativas com "essencial", "universal", "transcendental" ou "natural" — geralmente é o oposto do que esses autores defendem, que é a historicidade dos fenômenos humanos.
  • Dica de eliminação rápida: se o texto-base nega uma noção fixa ou universal, elimine de cara as alternativas que a reafirmam com outras palavras (aqui, D e E); depois busque termos concretos de processo e contexto social (aqui, "práticas" e "meio cultural"), que apontam para a resposta certa.
  • Conexões: dialoga com a "microfísica do poder" de Vigiar e Punir e com a ética do "cuidado de si" na Antiguidade greco-romana — eixos recorrentes de Foucault no ENEM.

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