Mapa de questões · 1º dia
Questão 22 — ENEM 2019Caderno azul · 1º Dia
Uma ouriça
Se o de longe esboça lhe chegar perto,
se fecha (convexo integral de esfera),
se eriça (bélica e multiespinhenta):
e, esfera e espinho, se ouriça à espera.
Mas não passiva (como ouriço na loca);
nem só defensiva (como jamais o ouriço),
do agressivo capaz de bote, de salto
(não do salto para trás, como o gato);
daquele capaz de salto para o assalto.
Se o de longe lhe chega em (de longe),
de esfera aos espinhos, ela se desouriça.
Reconverte: o metal hermético e armado
na carne de antes (côncava e propícia),
e as molas felinas (para o assalto),
nas molas em espiral (para o abraço).
MELO NETO, J. C. A educação pela pedra. Rio de Janeiro. Nova Fronteira, 1997.
Com apuro formal, o poema tece um conjunto semântico que metaforiza a atitude feminina de
Alternativas
Resolução em Vídeo
Resolução
Ficha da Questão
- 📚 Matérias Necessárias: Literatura → Interpretação de poema lírico moderno (metáfora e recursos formais em João Cabral de Melo Neto)
- ⚡ Nível: Difícil — sintaxe elíptica, vocabulário raro (multiespinhenta, desouriça) e linguagem altamente condensada exigem leitura ativa e reconstrução do sentido figurado.
- 🎯 Tema/Habilidade: Reconhecimento do efeito de sentido produzido por metáfora estendida em texto poético
- 🏆 Gabarito: A — revelado após resolução completa
Passo 1 — Leitura Estratégica do Comando
- Comando reformulado: "Que atitude feminina o poema representa por meio da metáfora do ouriço-do-mar?"
- Palavras-chave decisivas: apuro formal, conjunto semântico, metaforiza
- Armadilha típica: ler só a primeira metade do poema (a do fechamento e da ameaça de ataque) e escolher uma alternativa que fale apenas em defesa, isolamento ou desconfiança — ignorando que o poema tem uma segunda metade que inverte completamente esse quadro.
- O que a resposta precisa demonstrar: capacidade de acompanhar o poema em suas duas fases (fechamento defensivo → reconversão afetiva) e perceber que a metáfora central é sobre transformação de uma força, não sobre um estado fixo de medo, isolamento ou desejo não correspondido.
Passo 2 — Mapa de Conceitos Essenciais
- Metáfora estendida (ou continuada): figura que não se limita a uma imagem isolada, mas se desenvolve por todo o texto, sustentando uma comparação implícita entre dois campos — aqui, o comportamento do ouriço-do-mar e a atitude de uma mulher diante da aproximação de alguém.
- Personificação sutil: o ouriço-do-mar recebe atributos de vontade humana ("não passiva", "capaz de bote"), reforçando a leitura alegórica: o animal age como sujeito que decide se defende ou se entrega.
- Estrutura em díptico: o poema se organiza em dois blocos simétricos e opostos — fechamento/armamento (estrofes 1-3) e abertura/reconversão (estrofes 4-5) —, técnica do "apuro formal" cabralino, de rigor quase geométrico.
- Neologismos verbais: "se ouriça" e "se desouriça" são criações do poeta a partir do substantivo "ouriço", condensando numa só palavra o processo de fechar-se em defesa e de se abrir de novo.
Passo 3 — Decodificação do Enunciado
- Evidência 1: "se fecha (convexo integral de esfera), / se eriça (bélica e multiespinhenta)" → fechamento físico total e armamento com linguagem de guerra ("bélica"), diante de uma aproximação ainda incerta, vinda "de longe".
- Evidência 2: "Mas não passiva [...] nem só defensiva [...] daquele capaz de salto para o assalto" → o poema nega a passividade: essa força de defesa é ativa, combativa, capaz de atacar. É a tenacidade — firmeza que resiste e, se preciso, revida.
- Evidência 3: "ela se desouriça. Reconverte: o metal hermético e armado / na carne de antes (côncava e propícia)" → quando a aproximação é reconhecida e desejada, a couraça se desfaz: o metal duro volta a ser carne macia e acolhedora. "Reconverte" é a chave semântica da transformação.
- Evidência 4: "as molas felinas (para o assalto), / nas molas em espiral (para o abraço)" → a mesma energia que armava o bote vira mola de abraço: não é a força que desaparece, é a forma dela que muda — de ataque para acolhimento.
- Síntese: o poema não retrata uma mulher fraca nem fechada para sempre; retrata uma força (tenacidade) que permanece intacta como energia, mas muda de forma — de armadura combativa para gesto de afeto (brandura). É exatamente "tenacidade transformada em brandura".
Passo 4 — Resolução Completa (Passo a Passo)
Subpasso 4.1 — Campo semântico da defesa e do ataque (1ª metade do poema)
O vocabulário das quatro primeiras estrofes — "fecha", "convexo", "eriça", "bélica", "multiespinhenta", "não passiva", "nem só defensiva", "agressivo", "bote", "assalto" — converge para um único campo: resistência armada e ativa. O eu lírico nega de propósito a leitura de mero recuo defensivo e afirma uma postura capaz de atacar primeiro. Isso é tenacidade: firmeza deliberada, não fraqueza disfarçada.
Subpasso 4.2 — Campo semântico da abertura e do afeto (2ª metade do poema)
Nas duas últimas estrofes o vocabulário se inverte ponto a ponto: "desouriça", "reconverte", "carne [...] côncava e propícia", "molas em espiral", "abraço". O contraste é sistemático — metal × carne, espinho × concavidade, assalto × abraço. Essa reconversão só ocorre porque "o de longe lhe chega em (de longe)": a repetição sugere um sinal reconhecido de antemão, aceito, diferente da chegada que provocou o fechamento inicial.
Subpasso 4.3 — Verificação
A primeira metade descreve tenacidade (resistência e possível ataque, negando a passividade); a segunda descreve brandura (suavidade, carne acolhedora, abraço). O verbo "reconverte" prova que uma coisa se transforma na outra — não que uma anula a outra nem que coexistem estaticamente. Isso corresponde, termo a termo, à alternativa A.
Passo 5 — Análise Crítica de Todas as Alternativas
A) tenacidade transformada em brandura.
✅ Correta: o poema constrói, na primeira parte, uma força resistente e combativa (fechar-se, eriçar-se, ser capaz de bote e assalto — tenacidade) que, na segunda parte, se metamorfoseia — mesma energia, nova forma — em suavidade e acolhimento (carne côncava, molas em espiral para o abraço — brandura). O verbo "reconverte" é a prova textual dessa passagem de um estado a outro.
B) obstinação traduzida em isolamento.
❌ Incorreta: "obstinação" (insistência teimosa) e "isolamento" (afastamento) contrariam o movimento do poema, que termina no oposto do isolamento — na abertura para o abraço e o encontro físico.
C) inércia provocada pelo desejo platônico.
❌ Incorreta: "inércia" é negada explicitamente pelo texto ("Mas não passiva [...] nem só defensiva"). Não há traço de "desejo platônico" (amor idealizado e não realizado) — o poema culmina em imagem de contato físico concreto: o abraço.
D) irreverência cultivada de forma cautelosa.
❌ Incorreta: "irreverência" remete a desafio ou deboche, campo semântico ausente do poema, que trabalha só as oposições defesa/ataque e fechamento/entrega — nunca o registro da zombaria.
E) desconfiança consumada pela intolerância.
❌ Incorreta: mesmo que a primeira metade sugira cautela, o desfecho é a superação dessa cautela pelo acolhimento — o oposto de "intolerância", que indica recusa permanente, não abertura.
🏆 Gabarito: A — a estrutura em díptico do poema (fechamento bélico ↔ reconversão afetiva) metaforiza uma força feminina que não se anula, mas se transforma: de tenacidade (resistência armada e combativa) em brandura (acolhimento e entrega), exatamente como sintetizado pelo verbo-chave "reconverte".
Passo 6 — Conclusão, Generalização e Dica de Prova
- Reafirmação do gabarito: só a alternativa A contempla as duas fases do poema — fechamento tenaz e abertura branda — unidas por uma relação de transformação, e não de anulação (C), isolamento (B), desafio (D) ou endurecimento definitivo (E).
- Padrão de cobrança: o ENEM recorrentemente cobra poemas construídos sobre metáfora estendida, pedindo o sentido figurado global do texto, não de um verso isolado — é preciso comparar diferentes estrofes para captar a virada de sentido.
- Generalização: mapeie o(s) campo(s) semântico(s) do texto inteiro e verifique se existe transformação entre eles; a alternativa correta costuma nomear com precisão as duas pontas dessa mudança.
- Dica de eliminação rápida: descarte alternativas que descrevem apenas um estado estático (isolamento, inércia, intolerância) sempre que houver no poema um "se" ou conjunção que sinalize virada ("Se o de longe lhe chega em... ela se desouriça"); esse sinal já elimina B, C, D e E.
- Conexões: outros poemas de João Cabral de Melo Neto (rigor formal, geometrização da linguagem, como em "Morte e Vida Severina") e questões sobre metáfora, personificação e antítese em textos líricos são recorrentes nas provas de Linguagens do ENEM.
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