Mapa de questões · 1º dia
Questão 40 — ENEM 2019Caderno azul · 1º Dia
1. Nós queremos cantar o amor ao perigo, o hábito da energia e da temeridade.
2. A coragem, a audácia, a rebelião serão elementos essenciais de nossa poesia.
3. A literatura exaltou até hoje a imobilidade pensativa, o êxtase. o sono. Nós queremos exaltar o movimento agressivo. a insónia febril, o passo de corrida, o salto mortal, o bofetão e o soco.
4. Nós afirmamos que a magnificência do mundo enriqueceu-se de uma beleza nova: a beleza da velocidade. Um automóvel de corrida com seu cofre enfeitado com tubos grossos, semelhantes a serpentes de hálito explosivo… um automóvel rugidor, que parece correr sobre a metralha, é mais bonito que a Vitória de Samotrácia.
5. Nós queremos entoar hinos ao homem que segura o volante, cuja haste ideal atravessa a Terra, lançada também numa corrida sobre o circuito da sua órbita.
6. É preciso que o poeta prodigalize com ardor, fausto e munificiência, para aumentar o entusiástico fervor dos elementos primordiais.
MARINETTI. F. T. Manifesto futurista. In: TELES. G. M. Vanguardas europeias e Modernismo brasileiro. Petrópolis: Vozes, 1985
O documento de Marinetti, de 1909, propõe os referenciais estéticos do Futurismo, que valorizam a:
Alternativas
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Resolução
Ficha da Questão
- 📚 Matérias Necessárias: Literatura → Vanguardas Europeias (Futurismo)
- ⚡ Nível: Médio — exige reconhecer, dentro de um texto manifestário carregado de metáforas, qual valor estético concreto está sendo celebrado.
- 🎯 Tema/Habilidade: Futurismo de Marinetti e a estética da velocidade/máquina; competência de leitura que relaciona linguagem, código e suas manifestações (identificar em textos as marcas que singularizam um movimento artístico).
- 🏆 Gabarito: B — revelado após resolução completa
Passo 1 — Leitura Estratégica do Comando
- Comando reformulado: "Qual valor estético o manifesto de Marinetti (1909) está propondo como novo ideal de beleza?"
- Palavras-chave decisivas: automóvel de corrida, beleza da velocidade, mais bonito que a Vitória de Samotrácia
- Armadilha típica: confundir a menção à escultura grega (Vitória de Samotrácia) com uma defesa do Helenismo ou da tradição clássica — na verdade, o texto usa essa referência exatamente para rebaixá-la diante do novo ícone de beleza, o automóvel.
- O que a resposta precisa demonstrar: capacidade de identificar que o objeto central de exaltação no texto — o automóvel, a máquina, o movimento veloz — é um símbolo da modernidade técnica, e não de permanência, tradição ou contemplação.
Passo 2 — Mapa de Conceitos Essenciais
- Futurismo: vanguarda europeia lançada por Filippo Tommaso Marinetti em 1909, em Paris, por meio do "Manifesto Futurista". Rompe radicalmente com a arte do passado e celebra a civilização industrial, a máquina, a velocidade e a energia como novos parâmetros de beleza.
- Manifesto como gênero: texto de caráter programático e persuasivo, escrito para declarar princípios e convocar adesão; usa verbos de primeira pessoa do plural ("queremos", "afirmamos") e linguagem hiperbólica, típica de vanguardas que buscam romper com o status quo artístico.
- Vitória de Samotrácia: escultura grega helenística (c. século II a.C.), ícone consagrado da beleza clássica ocidental. Marinetti a cita propositalmente como contraponto: se até a beleza clássica mais celebrada é superada por um carro em movimento, isso prova que a estética mudou de eixo — do estático/eterno para o dinâmico/tecnológico.
- Contexto histórico (início do século XX): a Segunda Revolução Industrial consolidara o automóvel, a eletricidade e a velocidade das máquinas como símbolos de um mundo novo; os futuristas absorvem esse fascínio tecnológico como matéria-prima estética e ideológica.
Passo 3 — Decodificação do Enunciado
- Evidência 1: "a magnificência do mundo enriqueceu-se de uma beleza nova: a beleza da velocidade" → o texto anuncia explicitamente que a novidade estética proposta é a velocidade, associada diretamente à máquina.
- Evidência 2: "um automóvel rugidor, que parece correr sobre a metralha, é mais bonito que a Vitória de Samotrácia" → o automóvel — símbolo máximo da inovação tecnológica da época — é declarado superior à obra-prima da escultura clássica, invertendo hierarquias estéticas tradicionais.
- Evidência 3 (parágrafo 3): "a literatura exaltou até hoje a imobilidade pensativa, o êxtase, o sono. Nós queremos exaltar o movimento agressivo" → reforça, por contraste explícito, a rejeição da estática e da contemplação em favor do dinamismo.
- Síntese: todas as evidências convergem para o mesmo núcleo semântico: o texto celebra a máquina, a velocidade e o progresso técnico como a nova fonte de beleza, colocando a inovação tecnológica no centro do ideário futurista.
Passo 4 — Resolução Completa (Passo a Passo)
Subpasso 4.1 — Mapear o campo semântico dominante do texto
Ao ler os seis parágrafos do manifesto, é possível isolar um campo lexical recorrente: "energia", "temeridade", "coragem", "audácia", "movimento agressivo", "passo de corrida", "automóvel de corrida", "velocidade", "volante", "corrida sobre o circuito de sua órbita". Esse vocabulário não fala de sentimentos amorosos, de suspensão temporal ou de imobilidade — fala, insistentemente, de movimento, força e máquina. Esse é o primeiro sinal forte de que a resposta correta deve orbitar em torno da tecnologia/velocidade.
Subpasso 4.2 — Isolar a imagem-chave do parágrafo 4
O parágrafo 4 é o ponto de virada argumentativo do texto: Marinetti descreve com riqueza de detalhes um "automóvel de corrida com seu cofre enfeitado com tubos grossos, semelhantes a serpentes de hálito explosivo" e afirma que esse automóvel "é mais bonito que a Vitória de Samotrácia". Essa comparação não é gratuita — ela é a tese central do manifesto expressa em forma de imagem: o objeto técnico (o automóvel, produto da indústria moderna) substitui a obra de arte clássica como parâmetro máximo de beleza. Isso é a definição operacional de "valorização da inovação tecnológica".
Subpasso 4.3 — Verificação
Cruzando o campo semântico (movimento, velocidade, máquina) com a imagem-síntese (automóvel > escultura clássica) e com o parágrafo 5, em que Marinetti quer "entoar hinos ao homem que segura o volante" — outra referência direta à máquina automotiva —, confirma-se que o referencial estético proposto é a valorização do progresso técnico-industrial, expresso pela figura do automóvel e da velocidade. Esse resultado bate exatamente com a alternativa que fala em "inovação tecnológica", eliminando qualquer leitura que aponte para estaticidade, suspensão temporal ou retomada de modelos clássicos/tradicionais.
Passo 5 — Análise Crítica de Todas as Alternativas
A) composição estática.
❌ Incorreta: é o oposto do que o texto defende. Marinetti rejeita explicitamente a "imobilidade pensativa" e o "êxtase" como valores ultrapassados da literatura anterior, propondo no lugar o "movimento agressivo" — a estética futurista é dinâmica, não estática.
B) inovação tecnológica.
✅ Correta: o texto exalta o automóvel, símbolo da tecnologia industrial da época, como novo ícone de beleza ("a beleza da velocidade"), afirmando-o superior a uma obra-prima clássica. Esse é o núcleo do projeto estético futurista: fundir arte e progresso técnico-mecânico.
C) suspensão do tempo.
❌ Incorreta: o manifesto celebra justamente o contrário — a aceleração, a corrida, o instante veloz e irrepetível. Não há qualquer proposta de eternizar ou suspender o tempo; a temporalidade futurista é a da pressa e do movimento contínuo.
D) retomada do Helenismo.
❌ Incorreta: essa é a armadilha mais sedutora da questão. A menção à Vitória de Samotrácia (obra helenística) não representa uma valorização da arte grega — é usada exatamente para ser desqualificada, provando que o automóvel a superou em beleza. Citar um símbolo para rebaixá-lo não é retomá-lo.
E) manutenção das tradições.
❌ Incorreta: o Futurismo é, por definição, um movimento de ruptura radical com o passado artístico. O texto usa verbos de negação e superação da literatura anterior ("a literatura exaltou até hoje... nós queremos exaltar..."), deixando claro que seu projeto é romper com a tradição, não preservá-la.
🏆 Gabarito: B — o manifesto futurista de Marinetti propõe explicitamente a beleza da velocidade e da máquina (o automóvel) como novo parâmetro estético, valorizando a inovação tecnológica em detrimento dos ideais clássicos de arte.
Passo 6 — Conclusão, Generalização e Dica de Prova
- Reafirmação do gabarito: só a alternativa B capta o núcleo do texto — a substituição do belo clássico e contemplativo pelo belo técnico e veloz, materializado no automóvel.
- Padrão de cobrança: o ENEM costuma trazer trechos de manifestos de vanguarda (Futurismo, Modernismo brasileiro, Antropofagia) pedindo que o estudante identifique o valor estético ou ideológico central defendido pelo autor, geralmente por meio de uma imagem ou metáfora forte no texto.
- Generalização: em textos manifestários, a tese do movimento quase sempre aparece condensada em uma comparação ou hipérbole (aqui, "automóvel mais bonito que a Vitória de Samotrácia"); localizar essa imagem central costuma revelar a resposta certa.
- Dica de eliminação rápida: basta notar o vocabulário de movimento e velocidade espalhado pelo texto ("corrida", "movimento agressivo", "insónia febril") para descartar de imediato as alternativas ligadas à estaticidade (A) e à suspensão do tempo (C); em seguida, lembrar que citar algo para superá-lo não é o mesmo que endossá-lo, o que elimina D e E.
- Conexões: compare este manifesto com o Manifesto Antropófago de Oswald de Andrade (1928) e com a Semana de Arte Moderna de 1922, ambos também marcados pela ruptura com padrões estéticos anteriores em nome de uma identidade nova.
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