Mapa de questões · 1º dia
Questão 48 — ENEM 2019Caderno azul · 1º Dia
Dizem que Humboldt, naturalista do século XIX, maravilhado pela geografia, flora e fauna da região sul-americana, via seus habitantes como se fossem mendigos sentados sobre um saco de ouro, referindo-se a suas incomensuráveis riquezas naturais não exploradas. De alguma maneira, o cientista ratificou nosso papel de exportadores de natureza no que seria o mundo depois da colonização ibérica: enxergou-nos como territórios condenados a aproveitar os recursos naturais existentes.
ACOSTA, A. Bem viver: uma oportunidade para imaginar outros mundos. São Paulo: Elefante, 2016 (adaptado).
A relação entre ser humano e natureza ressaltada no texto refletia a permanência da seguinte corrente filosófica:
Alternativas
Resolução em Vídeo
Resolução
Ficha da Questão
- 📚 Matérias Necessárias: Filosofia → Racionalismo cartesiano e a relação sujeito-natureza
- ⚡ Nível: Difícil — exige distinguir cinco correntes filosóficas com vocabulário parecido e reconhecer, por trás de um texto histórico-geográfico, a matriz filosófica que sustenta a exploração da natureza
- 🎯 Tema/Habilidade: A herança do dualismo cartesiano (razão x natureza-objeto) na formação do olhar colonial/científico sobre a América; competência de Ciências Humanas de relacionar processos de dominação e discursos legitimadores sobre natureza e sociedade
- 🏆 Gabarito: C — revelado após a resolução completa
Passo 1 — Leitura Estratégica do Comando
- Comando reformulado: "Que corrente filosófica explica a visão de Humboldt da América do Sul como um continente de riquezas naturais à espera de exploração?"
- Palavras-chave decisivas: mendigos sentados sobre um saco de ouro, recursos naturais não exploradas, territórios condenados a aproveitar
- Armadilha típica: confundir "materialismo dialético" com qualquer discurso que valorize riquezas materiais, ou associar "pluralismo epistemológico" ao texto por ele tratar de diferentes povos — quando na verdade o texto descreve justamente a ausência desse pluralismo (um único olhar, o europeu-racional, hierarquizando os demais).
- O que a resposta precisa demonstrar: identificar a matriz filosófica que separa radicalmente sujeito racional (quem conhece e explora) de natureza-objeto (o que é conhecido e explorado), legitimando a leitura utilitária dos territórios sul-americanos.
Passo 2 — Mapa de Conceitos Essenciais
- Racionalismo cartesiano: filosofia inaugurada por Descartes no século XVII que divide a realidade em duas substâncias — res cogitans (a mente, o pensamento, a razão) e res extensa (a matéria, o corpo, o mundo físico). A natureza, reduzida a res extensa, vira mecanismo sem finalidade própria, disponível ao conhecimento e ao domínio da razão humana.
- Dualismo sujeito-objeto: consequência direta do racionalismo cartesiano — o ser humano racional se coloca fora e acima da natureza, que passa a existir como recurso mensurável, e não mais como algo do qual o próprio ser humano é parte constitutiva (como em cosmovisões indígenas ou pré-modernas).
- "Senhores e possuidores da natureza": expressão do próprio Descartes no Discurso do Método, que resume o projeto moderno de dominação técnico-científica do mundo natural — o ideário que, séculos depois, orienta o olhar "civilizado" europeu sobre territórios colonizados.
- Contexto da citação (Alberto Acosta, "Bem Viver"): o autor equatoriano usa o episódio de Humboldt para criticar exatamente essa herança cartesiana, contrapondo-a a cosmovisões como o Bem Viver andino, que não separam ser humano e natureza.
Passo 3 — Decodificação do Enunciado
- Evidência 1: "via seus habitantes como se fossem mendigos sentados sobre um saco de ouro" → a riqueza natural ("o ouro") só ganha valor quando extraída pelo sujeito que detém o conhecimento racional-técnico para explorá-la; a natureza é tratada como objeto passivo à espera de um sujeito ativo.
- Evidência 2: "territórios condenados a aproveitar os recursos naturais existentes" → reforça a ideia de a natureza sul-americana ser mero estoque de recursos a serviço da exploração humana, não uma relação de pertencimento entre ser humano e ambiente.
- Síntese: o texto narra como o pensamento científico europeu, personificado em Humboldt, projeta sobre a América do Sul uma leitura estritamente utilitária da natureza — coerente com a matriz filosófica que, desde Descartes, separa a razão humana (sujeito que conhece e domina) da natureza (objeto a ser dominado).
Passo 4 — Resolução Completa (Passo a Passo)
Subpasso 4.1 — Identificando o núcleo do problema
O enunciado apresenta um juízo de valor sobre os habitantes sul-americanos: eles são "mendigos" porque não souberam (ou não puderam) explorar racionalmente a riqueza natural ao seu redor. Esse juízo pressupõe que o valor da natureza está em sua exploração técnico-científica, e não em uma relação de equilíbrio ou pertencimento entre ser humano e ambiente. A pergunta central que a questão coloca é: qual tradição filosófica sustenta essa cisão entre um sujeito racional que explora e uma natureza-objeto que é explorada?
Subpasso 4.2 — Rastreando a matriz filosófica
Essa cisão remonta ao racionalismo cartesiano do século XVII. Descartes funda a modernidade filosófica separando duas substâncias: a res cogitans (pensamento, razão) e a res extensa (matéria, mundo físico). Reduzida a res extensa, a natureza passa a ser mecanismo bruto, desprovido de valor ou finalidade próprios — algo a ser medido, conhecido e dominado pela razão. No Discurso do Método, Descartes projeta explicitamente o ideal de o ser humano tornar-se "senhor e possuidor da natureza". É esse ideário — a razão instrumental que transforma o mundo natural em recurso disponível — que, séculos depois, orienta o olhar de Humboldt sobre a América: um continente riquíssimo em "recursos não explorados", à espera de alguém (europeu, racional, científico) capaz de extrair seu valor.
Subpasso 4.3 — Verificação
Comparando o raciocínio com as cinco alternativas, apenas o racionalismo cartesiano oferece o arcabouço específico exigido pelo texto: um sujeito racional ativo contraposto a uma natureza-objeto passiva, cujo valor depende inteiramente da exploração humana. Nenhuma das demais correntes — relativismo cognitivo, materialismo dialético, pluralismo epistemológico, existencialismo fenomenológico — sustenta esse tipo específico de dualismo utilitário entre razão e natureza. A alternativa C é, portanto, a única compatível com a cena descrita.
Passo 5 — Análise Crítica de Todas as Alternativas
A) Relativismo cognitivo.
❌ Incorreta: o relativismo cognitivo sustenta que a verdade e o conhecimento são relativos a contextos, culturas ou sujeitos — não há verdade única e universal. O texto, ao contrário, não discute a relatividade do saber; descreve uma postura de domínio único e inquestionável sobre a natureza, algo estranho ao relativismo.
B) Materialismo dialético.
❌ Incorreta: o materialismo dialético é a base filosófica do marxismo, que entende a realidade como processo histórico movido por contradições materiais e luta de classes, com a natureza sendo transformada pelo trabalho humano em determinado modo de produção. O texto, porém, não trata de contradições históricas, classes sociais ou relações de produção — trata de uma visão de mundo que separa sujeito racional e natureza-objeto, algo próprio do racionalismo, não do materialismo dialético.
C) Racionalismo cartesiano.
✅ Correta: a cisão entre um sujeito racional que conhece, mede e explora, e uma natureza reduzida a reserva de recursos à espera de exploração, é exatamente a herança do dualismo cartesiano. Essa matriz filosófica fundamenta a mentalidade moderna de dominação técnico-científica da natureza, presente com nitidez no olhar de Humboldt sobre a América do Sul e na leitura colonial dos territórios como "sacos de ouro" não aproveitados.
D) Pluralismo epistemológico.
❌ Incorreta: o pluralismo epistemológico defende a coexistência de múltiplas formas legítimas de produzir conhecimento — científico, indígena, tradicional, entre outras. É exatamente o oposto da postura relatada no texto, que hierarquiza o olhar científico europeu como o único capaz de reconhecer e explorar corretamente a riqueza natural, desqualificando os saberes e modos de vida locais.
E) Existencialismo fenomenológico.
❌ Incorreta: essa corrente, associada a autores como Husserl, Heidegger e Sartre, concentra-se na experiência subjetiva da existência, na consciência intencional e na liberdade individual diante do mundo. Não guarda relação direta com a lógica de dominação econômica e exploração da natureza descrita no texto, que é de ordem civilizacional e não existencial-individual.
🏆 Gabarito: C — o texto expressa a lógica racionalista cartesiana, que separa radicalmente razão humana e natureza-objeto, legitimando a leitura da América do Sul como reserva de riquezas à espera de exploração científica europeia.
Passo 6 — Conclusão, Generalização e Dica de Prova
- Reafirmação do gabarito: somente o racionalismo cartesiano fornece o par sujeito-racional/natureza-objeto que explica a leitura de Humboldt sobre a América do Sul como "reserva de riquezas não exploradas" — nenhuma das demais correntes listadas trata dessa dualidade instrumental entre razão e mundo natural.
- Padrão de cobrança: o ENEM recorrentemente cobra, em Filosofia e Geografia, a crítica à visão antropocêntrica e utilitarista da natureza herdada da modernidade europeia, muitas vezes contrapondo-a a cosmovisões indígenas, africanas ou latino-americanas, como o "Bem Viver" citado na própria fonte do texto.
- Generalização: sempre que um texto descrever a natureza como "recurso", "reserva" ou "objeto a ser dominado/explorado" por um sujeito racional externo a ela, a resposta tende a apontar para o racionalismo cartesiano (ou seus desdobramentos posteriores, como o positivismo).
- Dica de eliminação rápida: elimine primeiro as correntes ligadas à pluralidade de saberes ou verdades (relativismo cognitivo, pluralismo epistemológico) quando o texto descrever uma visão única e hierárquica; elimine em seguida as correntes centradas na experiência subjetiva individual (existencialismo fenomenológico), já que o tema aqui é uma relação humano-natureza em escala civilizacional, não pessoal.
- Conexões: o Discurso do Método de Descartes e o ideal de "senhor e possuidor da natureza"; a crítica decolonial e ecológica ao desenvolvimento predatório, presente em autores latino-americanos como Alberto Acosta e Aníbal Quijano.
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