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Mapa de questões · 1º dia
HumanasFilosofiaMédio

Questão 50ENEM 2019Caderno azul · 1º Dia

A hospitalidade pura consiste em acolher aquele que chega antes de lhe impor condições, antes de saber e indagar o que quer que seja, ainda que seja um nome ou um “documento” de identidade. Mas ela também supõe que se dirija a ele, de maneira singular, chamando-o portanto e reconhecendo-lhe um nome próprio: “Como você se chama?” A hospitalidade consiste em fazer tudo para se dirigir ao outro, em lhe conceder, até mesmo perguntar seu nome, evitando que essa pergunta se torne uma “condição”, um inquérito policial, um fichamento ou um simples controle das fronteiras.  Uma arte e uma poética, mas também toda uma política dependem disso, toda uma ética se decide aí.

DERRIDA, J. Papel-máquina. São Paulo:  Estação Liberdade, 2004 (adaptado).

Associado ao contexto migratório contemporâneo, o conceito de hospitalidade proposto pelo autor impõe a necessidade de

Alternativas

Resolução em Vídeo

Resolução

Ficha da Questão

  • 📚 Matérias Necessárias: Filosofia → Ética da alteridade (Levinas/Derrida) aplicada às migrações contemporâneas
  • ⚡ Nível: Médio — exige interpretar um texto filosófico denso, com vocabulário abstrato, e transpor o argumento para o debate político sobre migração
  • 🎯 Tema/Habilidade: Hospitalidade e reconhecimento do outro; competência da área de Ciências Humanas voltada à compreensão da diversidade cultural e dos direitos humanos
  • 🏆 Gabarito: C — revelado após resolução completa

Passo 1 — Leitura Estratégica do Comando

  • Comando reformulado: "Que exigência o conceito derridiano de hospitalidade pura impõe quando aplicado à questão migratória de hoje?"
  • Palavras-chave decisivas: hospitalidade pura, nome próprio, condição
  • Armadilha típica: o candidato lê "acolher antes de impor condições" e conclui que hospitalidade significa não reconhecer nenhuma diferença entre as pessoas (alternativa A) ou que ela dispensa qualquer pergunta/diálogo (alternativa D) — quando, na verdade, Derrida defende justamente o contrário: reconhecer o outro pelo nome, sem transformar isso em controle.
  • O que a resposta precisa demonstrar: compreensão de que a hospitalidade pura é um duplo movimento — acolhida incondicional + reconhecimento singular do outro — sem reduzir esse outro a documento, ficha ou controle de fronteira.

Passo 2 — Mapa de Conceitos Essenciais

  • Hospitalidade pura (Derrida): acolhimento que antecede qualquer exigência — não se pede documento, não se investiga a procedência antes de receber quem chega.
  • Alteridade: a condição do outro enquanto outro, sua diferença irredutível em relação a quem o recebe; conceito herdado de Levinas e retrabalhado por Derrida no campo da ética e da política.
  • Aporia da hospitalidade: a tensão entre acolher sem condição e, ao mesmo tempo, dirigir-se ao outro de forma singular (chamando-o pelo nome) — Derrida resolve essa tensão ao dizer que perguntar o nome só é hospitaleiro se não virar exigência de entrada.
  • Contexto migratório contemporâneo: pano de fundo da questão (ENEM 2019), marcado por fluxos intensos de refugiados e migrantes (crise síria, êxodo venezuelano) e por políticas de fronteira que tratam o migrante como dado a ser fichado e verificado.

Passo 3 — Decodificação do Enunciado

  • Evidência 1: "acolher aquele que chega antes de lhe impor condições, antes de saber e indagar o que quer que seja" → a hospitalidade não pode ser condicionada a documentos ou exigências prévias; é acolhida incondicional.
  • Evidência 2: "dirija a ele, de maneira singular, chamando-o... reconhecendo-lhe um nome próprio" → mas a hospitalidade também exige reconhecer o outro em sua singularidade — ele não é um número anônimo, é alguém com nome, história e diferença.
  • Evidência 3: "evitando que essa pergunta se torne uma 'condição', um inquérito policial, um fichamento ou um simples controle das fronteiras" → Derrida ataca explicitamente as práticas que reduzem o migrante a objeto de controle administrativo.
  • Síntese: o texto não pede ausência de reconhecimento do outro (isso anularia sua diferença) nem controle sobre ele (isso o reduziria a dado de fronteira); pede que o outro seja recebido COM sua alteridade, integrada à relação social e política — não apagada, não fichada, não silenciada, não investigada como condição de entrada.

Passo 4 — Resolução Completa (Passo a Passo)

Subpasso 4.1 — Isolar a tese central do texto

Derrida constrói uma definição aparentemente paradoxal de hospitalidade pura: ela é, ao mesmo tempo, acolhimento sem perguntas prévias e um gesto de dirigir-se ao outro pelo nome, reconhecendo-o como sujeito singular. Não há contradição — há uma aporia produtiva: o cuidado do texto está em impedir que "como você se chama?" vire condição burocrática de entrada. Reconhecer o outro não é o mesmo que controlá-lo.

Subpasso 4.2 — Transpor o argumento para o contexto migratório

Aplicado às migrações contemporâneas, o texto denuncia políticas de fronteira que tratam o migrante apenas como "documento" e "fichamento" — o Estado que só reconhece o estrangeiro enquanto dado administrativo verificável, apagando sua condição de sujeito singular. A hospitalidade genuína precisa acolher o outro como outro: com sua cultura, língua e trajetória — trazendo essa diferença (alteridade) para dentro da relação social, em vez de eliminá-la, congelá-la em ficha ou submetê-la a controle prévio.

Subpasso 4.3 — Verificação

Confrontando essa síntese com as cinco alternativas, apenas uma expressão capta os dois movimentos simultâneos do texto — acolher incondicionalmente e reconhecer a singularidade do outro sem convertê-la em controle: "incorporação da alteridade". As demais invertem o sentido do texto (verificação da proveniência), contradizem a defesa da singularidade (anulação da diferença, cristalização da biografia) ou ignoram que a hospitalidade pressupõe diálogo (supressão da comunicação).

Passo 5 — Análise Crítica de Todas as Alternativas

A) anulação da diferença.

❌ Incorreta: o texto defende exatamente o oposto. Derrida pede que se dirija ao outro "de maneira singular", reconhecendo-lhe "um nome próprio" — isto é, preservando sua diferença, não a apagando. Anular a diferença equivaleria a assimilar o migrante, dissolvendo sua identidade na cultura de chegada, o que contraria a citação.

B) cristalização da biografia.

❌ Incorreta: "cristalizar a biografia" significa fixar a identidade do outro em um registro definitivo e imutável — exatamente o que Derrida rejeita ao afirmar que a pergunta pelo nome não pode virar "fichamento". A hospitalidade pura acolhe o outro em sua abertura, não o engessa em dossiê.

C) incorporação da alteridade.

✅ Correta: a hospitalidade pura concilia acolhimento incondicional com reconhecimento singular do outro — ela incorpora a alteridade do migrante à relação social e política, sem eliminá-la (como em A) nem subordiná-la a exigências de controle (como em E). É a síntese exata do duplo gesto do texto: acolher e nomear sem fichar.

D) supressão da comunicação.

❌ Incorreta: o texto valoriza a comunicação — "Como você se chama?" é abertura de diálogo, não seu silenciamento. A hospitalidade pura depende de "se dirigir ao outro", o que pressupõe fala e escuta, jamais sua supressão.

E) verificação da proveniência.

❌ Incorreta: esta é a antítese do texto. Derrida rejeita explicitamente que a pergunta ao outro se torne "um simples controle das fronteiras" — ou seja, rejeita a verificação de origem como condição para acolher. Marcar esta alternativa inverte o sentido central da citação.

🏆 Gabarito: C — a hospitalidade pura, transposta para o contexto migratório, exige incorporar a alteridade do migrante (acolhê-lo com sua diferença, sem apagá-la nem submetê-la a controle), e não anulá-la, fixá-la, silenciá-la ou investigá-la como condição de entrada.

Passo 6 — Conclusão, Generalização e Dica de Prova

  • Reafirmação do gabarito: C é a única alternativa que sintetiza a dupla exigência derridiana — acolher incondicionalmente e, ao mesmo tempo, reconhecer a singularidade do outro — sem recair em controle, apagamento ou silêncio.
  • Padrão de cobrança: o ENEM costuma trazer textos filosóficos densos (Levinas, Derrida, Bauman, Foucault) associados a temas de atualidade — migrações, direitos humanos, diversidade cultural — exigindo que o candidato traduza um conceito abstrato em um posicionamento político concreto.
  • Generalização: em questões de ética sobre "o outro", a alternativa correta quase sempre valoriza o reconhecimento da diferença sem hierarquização ou controle; desconfie de opções que propõem apagamento, fichamento, silenciamento ou vigilância do outro.
  • Dica de eliminação rápida: descarte de imediato as alternativas que reproduzem o que o próprio texto condena (fichamento, controle de fronteiras → elimina E) e as que contradizem a defesa explícita da singularidade do outro (anulação da diferença → elimina A; fixação em biografia → elimina B).
  • Conexões: filosofia do rosto e do outro em Levinas; políticas migratórias e direitos humanos no cenário de crises de refugiados contemporâneas.

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