Mapa de questões · 1º dia
Questão 69 — ENEM 2019Caderno azul · 1º Dia
Localizado a 160 km da cidade de Porto Velho (capital do estado de Rondônia), nos limites da Reserva Extrativista Jaci-Paraná e Terra Indígena Karipunas, o povoado de União Bandeirantes surgiu em 2000 a partir de movimentos de camponeses, madeireiros, pecuaristas e grileiros que, à revelia do ordenamento territorial e diante da passividade governamental, demarcaram e invadiram terras na área rural fundando a vila. Atualmente, constitui-se na região de maior produção agrícola e leiteira do município de Porto Velho, fornecendo, inclusive, alimentos para a Hidrelétrica de Jirau.
SILVA, R. G. C. Amazônia globalizada — o exemplo de Rondônia. Confins, n. 23, 2015 (adaptado).
A dinâmica de ocupação territorial descrita foi decorrente da
Alternativas
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Resolução
Ficha da Questão
- 📚 Matérias Necessárias: Geografia → Geografia Agrária e Ocupação Territorial da Amazônia
- ⚡ Nível: Médio — a dificuldade não está em identificar "invasão de terras", mas em distinguir conceitos próximos (frente pioneira, frente de expansão e colonização dirigida) e não cair na armadilha de associar Rondônia diretamente a projetos oficiais de colonização.
- 🎯 Tema/Habilidade: Dinâmica de ocupação da fronteira agropecuária amazônica — competência de área voltada à análise de processos de produção e apropriação do espaço geográfico brasileiro.
- 🏆 Gabarito: E — revelado após resolução completa
Passo 1 — Leitura Estratégica do Comando
- Comando reformulado: "Qual conceito geográfico explica a ocupação espontânea e desordenada de terras amazônicas por camponeses, madeireiros, pecuaristas e grileiros, à margem do Estado?"
- Palavras-chave decisivas: à revelia do ordenamento territorial, demarcaram e invadiram terras, passividade governamental
- Armadilha típica: associar automaticamente Rondônia a "colonização dirigida", já que o estado foi, nas décadas de 1970-1980, um dos grandes palcos dos projetos oficiais de colonização do INCRA ao longo da BR-364. O texto, porém, descreve o oposto: uma ocupação de 2000, sem planejamento estatal e sem titulação regular.
- O que a resposta precisa demonstrar: capacidade de reconhecer que a formação da vila resultou do avanço espontâneo de agentes econômicos privados sobre uma área de fronteira, processo que a Geografia clássica denomina "frente pioneira".
Passo 2 — Mapa de Conceitos Essenciais
- Frente pioneira: conceito consolidado por Pierre Monbeig e amplamente utilizado por Bertha Becker para descrever o avanço de agentes capitalizados — fazendeiros, madeireiros, grileiros, empresas — sobre áreas de fronteira, voltado à exploração comercial de recursos (madeira, pecuária, agricultura) e à integração dessas terras ao mercado, frequentemente à margem da legislação fundiária.
- Frente de expansão: avanço anterior e menos capitalizado, protagonizado por populações tradicionais (indígenas, ribeirinhos, seringueiros, posseiros) com produção voltada à subsistência e ao extrativismo, sem grande articulação com o mercado nacional/internacional.
- Colonização dirigida: processo planejado e conduzido pelo Estado (via INCRA, nos Projetos Integrados de Colonização — PICs), com demarcação prévia de lotes, titulação regular de terra e infraestrutura mínima definida antes da chegada dos colonos — justamente o que o enunciado nega ao mencionar "passividade governamental".
- Grilagem: apropriação ilegal de terras públicas ou devolutas por meio de documentação falsa ou inexistente, prática recorrente nas frentes pioneiras amazônicas e citada explicitamente no enunciado ("grileiros").
Passo 3 — Decodificação do Enunciado
- Evidência 1: "camponeses, madeireiros, pecuaristas e grileiros" → mistura heterogênea de agentes sociais e econômicos que buscam se apropriar da terra por interesses distintos (produção, especulação, extração de recursos), característica típica da frente pioneira, não de um projeto único e coordenado.
- Evidência 2: "à revelia do ordenamento territorial e diante da passividade governamental" → confirma a ausência de planejamento estatal, eliminando de imediato as hipóteses de colonização dirigida e de reforma agrária (que exigem ação institucional do Estado).
- Evidência 3: "demarcaram e invadiram terras" na Reserva Extrativista Jaci-Paraná e na Terra Indígena Karipunas → evidencia o conflito fundiário típico do avanço da fronteira agropecuária sobre áreas ambiental e socialmente protegidas, um dos traços mais marcantes das frentes pioneiras na Amazônia contemporânea.
- Evidência 4: hoje União Bandeirantes é "a região de maior produção agrícola e leiteira do município", abastecendo inclusive a Hidrelétrica de Jirau → mostra a consolidação produtiva e a integração ao mercado (agropecuária comercial, grandes empreendimentos), etapa final típica de uma frente pioneira que se firma economicamente após a ocupação inicial.
- Síntese: as quatro evidências formam uma sequência coerente — ocupação espontânea → conflito com áreas protegidas → consolidação produtiva capitalizada e integrada ao mercado — que corresponde exatamente à definição geográfica de expansão de frentes pioneiras.
Passo 4 — Resolução Completa (Passo a Passo)
Subpasso 4.1 — Identificar a natureza do processo descrito
O texto apresenta um evento datado (surgimento em 2000), protagonizado por grupos sociais diversos (camponeses, madeireiros, pecuaristas, grileiros) que agiram por iniciativa própria, sem qualquer coordenação do poder público — pelo contrário, o enunciado destaca explicitamente a "passividade governamental". Isso já descarta qualquer leitura que dependa de ação estatal planejada.
Subpasso 4.2 — Comparar com os processos de ocupação territorial conhecidos
- Mecanização (A): a mecanização é uma técnica produtiva posterior, ligada à modernização agrícola; não explica a origem da ocupação, apenas eventuais ganhos de produtividade depois de consolidada a atividade.
- Colonização dirigida (B): pressupõe planejamento estatal prévio (demarcação, titulação, infraestrutura) — o oposto do que o texto descreve.
- Reforma agrária (C): é um processo institucional de redistribuição de terras pelo Estado, mediante desapropriação legal; aqui não há desapropriação nem ação redistributiva formal, e sim invasão.
- Franjas urbanas (D): refere-se à expansão de áreas periféricas de cidades; o caso ocorre em zona rural, distante 160 km da capital, sem relação com o crescimento urbano de Porto Velho.
- Frentes pioneiras (E): descreve exatamente o avanço espontâneo, conflituoso e voltado à exploração econômica de recursos sobre uma área de fronteira — compatível com todos os elementos do texto.
Subpasso 4.3 — Verificação
Confrontando a definição de frente pioneira (avanço de agentes capitalizados sobre a fronteira, à margem do ordenamento fundiário, culminando em produção integrada ao mercado) com a trajetória de União Bandeirantes (invasão de terras em 2000 → consolidação como polo agrícola e leiteiro → fornecimento a uma hidrelétrica), confirma-se que a alternativa E é a única compatível com todas as evidências do texto.
Passo 5 — Análise Crítica de Todas as Alternativas
A) mecanização do processo produtivo.
❌ Incorreta: a mecanização diz respeito à substituição de trabalho humano por máquinas na produção agropecuária; é, no máximo, uma consequência tardia da consolidação econômica da área, não a causa da ocupação territorial descrita no texto.
B) adoção da colonização dirigida.
❌ Incorreta: colonização dirigida é um processo planejado pelo Estado, com titulação regular de terras. O enunciado afirma explicitamente que a ocupação se deu "à revelia do ordenamento territorial e diante da passividade governamental", ou seja, sem qualquer direcionamento oficial — o oposto do conceito.
C) realização de reforma agrária.
❌ Incorreta: reforma agrária pressupõe ação institucional de redistribuição legal de terras pelo Estado (desapropriação, assentamento). No caso descrito, houve invasão e grilagem, não um processo formal e legalizado de reforma fundiária.
D) ampliação de franjas urbanas.
❌ Incorreta: franjas urbanas referem-se à expansão das periferias das cidades. União Bandeirantes está a 160 km de Porto Velho, em área rural de reserva extrativista e terra indígena, sem qualquer relação com crescimento urbano.
E) expansão de frentes pioneiras.
✅ Correta: o processo descrito — avanço espontâneo de camponeses, madeireiros, pecuaristas e grileiros sobre terras na fronteira amazônica, à margem da lei e do Estado, seguido de consolidação como área de produção agropecuária integrada ao mercado — é a definição clássica de frente pioneira, fenômeno recorrente na história da ocupação da Amazônia desde a abertura de rodovias como a BR-364.
🏆 Gabarito: E — a dinâmica descrita corresponde à expansão de frentes pioneiras: ocupação espontânea, conflituosa e capitalizada de áreas de fronteira amazônica, sem planejamento estatal, seguida de integração produtiva ao mercado.
Passo 6 — Conclusão, Generalização e Dica de Prova
- Reafirmação do gabarito: somente a expansão de frentes pioneiras explica simultaneamente a heterogeneidade dos agentes, a ilegalidade da ocupação, a ausência de ação estatal e a posterior consolidação produtiva e comercial da área.
- Padrão de cobrança: o ENEM recorre com frequência a estudos de caso da Amazônia (Rondônia, Pará, Mato Grosso) para avaliar se o estudante distingue frente pioneira, frente de expansão, colonização dirigida e reforma agrária — sempre a partir de pistas textuais sobre quem ocupa a terra e com que grau de planejamento estatal.
- Generalização: sempre que o texto descrever agentes privados avançando sobre terras públicas ou protegidas, de forma espontânea e voltada à exploração comercial de recursos (madeira, gado, lavoura), o conceito correto é "frente pioneira" — independentemente da região do país.
- Dica de eliminação rápida: procure no enunciado a presença (ou ausência) do Estado. Se houver planejamento estatal explícito, pense em colonização dirigida ou reforma agrária; se houver "passividade governamental", "invasão" ou "grilagem", a resposta caminha para frente pioneira — isso já elimina B e C em segundos. Em seguida, descarte alternativas que tratem de técnica (mecanização) ou de espaço urbano (franjas urbanas), pois o texto trata de origem e natureza da ocupação rural.
- Conexões: o tema dialoga diretamente com "arco do desmatamento" e com os impactos socioambientais de grandes obras de infraestrutura na Amazônia, como a própria Hidrelétrica de Jirau citada no texto.
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