Mapa de questões · 1º dia
Questão 60 — ENEM 2019Caderno azul · 1º Dia
A cidade medieval é, antes de mais nada, uma sociedade da abundância, concentrada num pequeno espaço em meio a vastas regiões pouco povoadas. Em seguida, é um lugar de produção e de trocas, onde se articulam o artesanato e o comércio, sustentados por uma economia monetária. É também o centro de um sistema de valores particular, do qual emerge a prática laboriosa e criativa do trabalho, o gosto pelo negócio e pelo dinheiro, a inclinação para o luxo, o senso da beleza. É ainda um sistema de organização de um espaço fechado com muralhas, onde se penetra por portas e se caminha por ruas e praças e que é guarnecido por torres.
LE GOFF, J.; SCHMITT, J.-C. Dicionário temático do Ocidente Medieval. Bauru: Edusc, 2006.
No texto, o espaço descrito se caracteriza pela associação entre a ampliação das atividades urbanas e a
Alternativas
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Resolução
Ficha da Questão
- 📚 Matérias Necessárias: História → Idade Média (renascimento urbano e comercial, séculos XI-XIII)
- ⚡ Nível: Médio — o texto é claro, mas exige eliminar alternativas que trazem processos históricos reais (porém não mencionados no trecho) para não confundir "o que aconteceu na Idade Média" com "o que o texto diz"
- 🎯 Tema/Habilidade: Cidade medieval como espaço econômico, cultural e defensivo — competência de leitura e interpretação de fontes historiográficas (H4/H6 da matriz de Ciências Humanas)
- 🏆 Gabarito: E — revelado após resolução completa
Passo 1 — Leitura Estratégica do Comando
- Comando reformulado: "O que, segundo o texto, acompanha o crescimento das atividades urbanas na cidade medieval?"
- Palavras-chave decisivas: ampliação das atividades urbanas, espaço fechado com muralhas, guarnecido por torres
- Armadilha típica: trazer conhecimento prévio sobre a Idade Média (comunas, burguesia, guildas, Renascimento comercial) e escolher uma alternativa que é historicamente plausível, mas que não está no texto — a questão pede o que o próprio excerto de Le Goff e Schmitt afirma, não tudo o que se sabe sobre o período.
- O que a resposta precisa demonstrar: capacidade de identificar, dentro do próprio texto, qual elemento aparece associado (na mesma frase ou na sequência lógica) ao crescimento da vida urbana — sem extrapolar para fatos externos ao trecho.
Passo 2 — Mapa de Conceitos Essenciais
- Renascimento urbano e comercial medieval: a partir do século XI, a retomada das rotas comerciais, o ressurgimento de feiras e o fortalecimento do artesanato fizeram muitas cidades europeias crescerem em população, riqueza e complexidade social, tornando-se polos de trocas monetárias.
- Cidade medieval como espaço fortificado: mesmo crescendo economicamente, a cidade medieval preservava sua função defensiva original, herdada dos burgos fortificados (de onde vem o termo "burguês"). Muralhas, portas e torres não eram vestígios do passado, mas estruturas em uso, necessárias para proteger habitantes e mercadorias de saques, guerras feudais e disputas locais.
- Sistema corporativo de ofícios: artesãos e comerciantes se organizavam em corporações de ofício (guildas), que regulavam produção, preços e formação profissional — um sistema que se consolidou, e não foi superado, durante a expansão urbana medieval.
- Cultura urbana e sistema de valores: o texto destaca que a cidade gerava um "sistema de valores particular" (gosto pelo negócio, pelo luxo, senso de beleza), mostrando que a expansão urbana não era só econômica, mas também cultural — ainda assim, essa dimensão convive, no texto, com a permanência da estrutura física de proteção.
Passo 3 — Decodificação do Enunciado
- Evidência 1: "é um lugar de produção e de trocas, onde se articulam o artesanato e o comércio, sustentados por uma economia monetária" → revela a dimensão da ampliação das atividades urbanas: comércio, artesanato e circulação de moeda em expansão.
- Evidência 2: "é ainda um sistema de organização de um espaço fechado com muralhas, onde se penetra por portas e se caminha por ruas e praças e que é guarnecido por torres" → revela que, junto com esse crescimento econômico e cultural, o texto encerra a definição de cidade medieval reafirmando sua estrutura arquitetônica de proteção — muralhas, portas e torres continuam organizando o espaço urbano.
- Síntese: o texto constrói a definição de cidade medieval em camadas (demográfica, econômica, cultural e espacial), e a última camada — a espacial — mostra que a intensificação das trocas e do artesanato não eliminou o caráter fortificado da cidade; pelo contrário, a proteção arquitetônica (muralhas e torres) permanece como traço estrutural do espaço urbano em expansão.
Passo 4 — Resolução Completa (Passo a Passo)
Subpasso 4.1 — Isolar o que o texto afirma sobre a organização espacial
O último período do excerto é decisivo: depois de descrever a cidade como espaço de abundância, de produção/trocas e de valores culturais, Le Goff e Schmitt fecham a definição afirmando que ela é "um sistema de organização de um espaço fechado com muralhas [...] guarnecido por torres". Ou seja, a mesma cidade que abriga comércio intenso e vida cultural refinada continua sendo, fisicamente, um espaço murado e vigiado.
Subpasso 4.2 — Relacionar com o contexto histórico da Baixa Idade Média
Historicamente, o crescimento urbano medieval (a partir do século XI) não apagou a necessidade de defesa: instabilidade política, disputas entre senhores feudais, ataques externos e a cobrança de taxas de entrada (pedágios nas portas) exigiam que a cidade mantivesse muralhas, portões controlados e torres de vigia mesmo enquanto se tornava mais rica e movimentada. Portanto, a ampliação das atividades urbanas caminhou lado a lado com a manutenção — não com o abandono — dos elementos arquitetônicos de proteção.
Subpasso 4.3 — Verificação
Voltando ao comando da questão — "a ampliação das atividades urbanas e a..." — o único complemento sustentado literalmente pelo texto é a permanência de muralhas, portas e torres. Isso corresponde exatamente à alternativa E. As demais alternativas descrevem processos que não aparecem no trecho (poder real, usura religiosa, independência alimentar, fim das corporações de ofício), confirmando por eliminação que E é a resposta.
Passo 5 — Análise Crítica de Todas as Alternativas
A) emancipação do poder hegemônico da realeza.
❌ Incorreta: o texto não menciona rei, realeza ou poder monárquico em nenhum momento. A emancipação política de algumas cidades medievais (movimento comunal) se dava, historicamente, mais em relação a senhores feudais e bispos locais do que à realeza, e mesmo assim esse tema é estranho ao excerto — é conhecimento externo sendo forçado sobre um texto que não o sustenta.
B) aceitação das práticas usurárias dos religiosos.
❌ Incorreta: o texto fala em "economia monetária" e "gosto pelo negócio e pelo dinheiro", mas isso não equivale a práticas usurárias praticadas por religiosos — pelo contrário, a Igreja medieval condenava a usura (cobrança de juros) como pecado. Não há qualquer menção a religiosos ou à aceitação da usura no trecho.
C) independência da produção alimentar dos campos.
❌ Incorreta: o texto nada diz sobre autossuficiência alimentar da cidade. Historicamente é o oposto: a cidade medieval dependia do campo circundante para se abastecer de alimentos, já que a "sociedade da abundância" descrita está concentrada num pequeno espaço urbano, não seria capaz de produzir sua própria comida.
D) superação do ordenamento corporativo dos ofícios.
❌ Incorreta: o texto cita "artesanato" articulado ao comércio, mas não afirma que as corporações de ofício foram superadas. Ao contrário, o sistema corporativo (guildas de artesãos e mercadores) se fortaleceu justamente durante a expansão urbana medieval, regulando a produção descrita no texto — não há "superação" alguma.
E) permanência dos elementos arquitetônicos de proteção.
✅ Correta: é exatamente o que o texto afirma na última frase — a cidade, mesmo com a ampliação das trocas, do artesanato e da cultura urbana, continua sendo "um espaço fechado com muralhas [...] guarnecido por torres". Os elementos de proteção arquitetônica (muralhas, portas, torres) permanecem como parte constitutiva do espaço, associados diretamente ao crescimento das atividades urbanas descrito nas frases anteriores.
🏆 Gabarito: E — o texto associa explicitamente a intensificação da vida urbana (produção, comércio, cultura) à manutenção da estrutura defensiva da cidade — muralhas, portas e torres —, o que só a alternativa E expressa com fidelidade ao trecho.
Passo 6 — Conclusão, Generalização e Dica de Prova
- Reafirmação do gabarito: somente a letra E reproduz, sem extrapolação, o que o próprio texto afirma sobre o espaço urbano medieval: o crescimento das atividades urbanas conviveu com a permanência das muralhas, portas e torres.
- Padrão de cobrança: o ENEM recorrentemente cobra a leitura de fontes historiográficas (Le Goff é autor frequente) exigindo que o candidato responda com base apenas no que o texto diz, não em tudo que sabe sobre o período histórico.
- Generalização: em questões de interpretação de texto histórico, a resposta correta costuma parafrasear literalmente uma informação presente no trecho — desconfie de alternativas "historicamente corretas" que não aparecem no enunciado.
- Dica de eliminação rápida: procure no texto palavras-chave que ecoem cada alternativa; se um termo central da alternativa (rei, religiosos, campo, corporações superadas) simplesmente não existe no trecho, elimine-a imediatamente — restam poucas opções sustentadas pela leitura literal.
- Conexões: o tema dialoga com "burgos e burguesia medieval" e com "revolução comercial e urbana da Baixa Idade Média", frequentes em questões de História sobre a transição do feudalismo para a sociedade urbana e mercantil.
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