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Mapa de questões · 1º dia
HumanasFilosofiaDifícil

Questão 78ENEM 2019Caderno azul · 1º Dia

TEXTO I

Duas coisas enchem o ânimo de admiração e veneração sempre crescentes: o céu estrelado sobre mim e a lei moral em mim.

KANT, I. Crítica da razão prática. Lisboa: Edições 70, s/d (adaptado).

TEXTO II

Duas coisas admiro: a dura lei cobrindo-me e o estrelado céu dentro de mim.

FONTELA, O. Kant (relido). In: Poesia completa. São Paulo: Hedra, 2015.

A releitura realizada pela poeta inverte as seguintes ideias centrais do pensamento kantiano:

Alternativas

Resolução em Vídeo

Resolução

Ficha da Questão

  • 📚 Matérias Necessárias: Filosofia → Ética e metafísica kantianas (razão prática, autonomia da lei moral, distinção fenômeno/coisa-em-si)
  • ⚡ Nível: Difícil — exige compreender um conceito abstrato de Kant (a interioridade da lei moral em oposição à exterioridade do mundo sensível) e reconhecer essa oposição dentro de um jogo poético de reescrita.
  • 🎯 Tema/Habilidade: Autonomia da razão prática e fenomenalidade da natureza em Kant; leitura comparada entre um texto filosófico e sua reelaboração literária.
  • 🏆 Gabarito: E — revelado após resolução completa

Passo 1 — Leitura Estratégica do Comando

  • Comando reformulado: "Aponte quais duas ideias centrais do pensamento de Kant o poema de Orides Fontela troca de lugar em relação ao texto original."
  • Palavras-chave decisivas: inverte, ideias centrais, releitura
  • Armadilha típica: marcar uma alternativa que traga conceitos genuinamente kantianos — liberdade, boa vontade, juízo a priori — mas que não sejam, especificamente, os dois elementos que trocam de posição entre o Texto I e o Texto II. São "Kant verdadeiro, resposta errada".
  • O que a resposta precisa demonstrar: capacidade de mapear a estrutura espacial de cada texto (o que está "em mim" e o que está "sobre/acima de mim") e traduzir essa geografia poética em vocabulário filosófico preciso.

Passo 2 — Mapa de Conceitos Essenciais

  • Autonomia da lei moral: para Kant, a lei moral não vem de fora — de Deus, da sociedade ou da natureza — mas é dada pela própria razão prática do sujeito, que se autolegisla. Por isso ela é descrita como algo interior, que habita "em mim".
  • Fenômeno (mundo sensível): na filosofia teórica de Kant, fenômeno é o mundo tal como aparece aos sentidos, organizado no espaço e no tempo, e regido por leis causais da física. O céu estrelado é a imagem máxima desse mundo fenomênico: uma imensidão física, exterior, que está "sobre" o observador.
  • Heteronomia: o oposto da autonomia; ocorre quando a conduta é determinada por uma autoridade ou força externa ao sujeito, que o submete de fora para dentro — exatamente a sensação evocada por uma lei que "cobre" alguém, como um peso ou um teto.

Passo 3 — Decodificação do Enunciado

  • Evidência 1: "o céu estrelado sobre mim e a lei moral em mim" (Texto I) → no Kant original, o céu (natureza, fenômeno) ocupa a posição exterior ("sobre"), enquanto a lei moral ocupa a posição interior ("em").
  • Evidência 2: "a dura lei cobrindo-me e o estrelado céu dentro de mim" (Texto II) → Fontela troca as posições: agora é a lei que está por cima, "cobrindo" o eu poético (exterior, quase opressiva, com o adjetivo "dura" reforçando a ideia de imposição), e é o céu que passa a estar "dentro" (interior).
  • Síntese: a poeta não troca os objetos — lei moral e céu estrelado continuam sendo os mesmos elementos —, mas inverte o lugar que cada um ocupa. E, em Kant, esse lugar não é um detalhe poético: ele é o próprio conteúdo filosófico. "Estar em mim" é a marca da autonomia da norma; "estar sobre mim" é a marca da fenomenalidade do mundo natural. Ao trocar o "onde", Fontela inverte o estatuto filosófico dos dois elementos.

Passo 4 — Resolução Completa (Passo a Passo)

Subpasso 4.1 — Reconstituir a estrutura espacial de cada texto

No Texto I: céu estrelado = posição exterior ("sobre mim"); lei moral = posição interior ("em mim"). No Texto II: lei = posição exterior ("cobrindo-me"); céu estrelado = posição interior ("dentro de mim"). Houve uma troca cruzada e simétrica de posições entre os dois elementos.

Subpasso 4.2 — Traduzir a posição espacial em conceito filosófico

"Estar em mim" (interior) é, para Kant, a marca da lei moral autônoma: a norma não é imposta de fora, mas legislada pela própria razão prática do sujeito — por isso pode habitar "dentro". "Estar sobre mim" (exterior) é a marca do fenômeno: a natureza física, o mundo sensível observável "lá fora", acima do sujeito, obedecendo a leis causais que não dependem da vontade individual. Fontela inverte exatamente esses dois estatutos: faz a lei parecer heterônoma (cobrindo, de fora) e faz o céu — símbolo do mundo fenomênico — parecer internalizado, como se a fronteira entre sujeito e natureza se dissolvesse.

Subpasso 4.3 — Verificação

Testando contra as alternativas, apenas uma nomeia com precisão os dois termos que efetivamente trocaram de lugar: a interioridade da norma (que deixa de ser interior no poema) e a fenomenalidade do mundo (que deixa de ser exterior no poema). Esse par corresponde exatamente à alternativa E, confirmando-a como gabarito.

Passo 5 — Análise Crítica de Todas as Alternativas

A) Possibilidade da liberdade e obrigação da ação.

❌ Incorreta: liberdade (condição de possibilidade da moralidade) e obrigação (o caráter imperativo da lei moral, o "dever") são conceitos kantianos legítimos, mas nenhum dos dois textos discute se a ação é livre ou obrigatória — a troca poética é de localização espacial (dentro/fora), não de status modal da ação.

B) Aprioridade do juízo e importância da natureza.

❌ Incorreta: a aprioridade do juízo pertence à teoria do conhecimento de Kant (juízos sintéticos a priori) e não aparece tematizada nos dois textos; quanto à "importância da natureza", ela não é invertida — o céu estrelado permanece presente e admirado nas duas versões, apenas muda de posição, não de relevância.

C) Necessidade da boa vontade e crítica da metafísica.

❌ Incorreta: a boa vontade (tema da Fundamentação da Metafísica dos Costumes) e a crítica à metafísica tradicional (tema da Crítica da Razão Pura) são discussões kantianas reais, porém alheias ao par de imagens contrastadas nos dois poemas — não há, no texto, nenhuma menção à vontade nem à validade do conhecimento metafísico.

D) Prescindibilidade do empírico e autoridade da razão.

❌ Incorreta: além de não ser o que está em jogo na troca espacial dos textos, essa alternativa distorce o próprio Kant, que nunca dispensa totalmente o empírico — para ele, todo conhecimento começa com a experiência, ainda que não derive só dela; a "autoridade da razão" também não é tematizada nos versos.

E) Interioridade da norma e fenomenalidade do mundo.

✅ Correta: nomeia exatamente os dois estatutos filosóficos trocados de posição. No Texto I, a norma (lei moral) é interior — autônoma, autolegislada — e o mundo (céu estrelado) é fenômeno exterior. No Texto II, Fontela inverte: a norma passa a "cobrir" de fora (perde sua interioridade) e o mundo passa a estar "dentro" (perde sua exterioridade fenomênica).

🏆 Gabarito: E — a releitura de Fontela preserva os dois elementos de Kant (lei moral e céu estrelado), mas troca suas posições espaciais, e essa troca corresponde exatamente à inversão entre a interioridade da norma moral (autonomia) e a fenomenalidade do mundo natural (exterioridade sensível), únicos conceitos citados com fidelidade em uma alternativa.

Passo 6 — Conclusão, Generalização e Dica de Prova

  • Reafirmação do gabarito: somente a alternativa E cita os dois pares conceituais que estão de fato em jogo no confronto entre os textos — a posição interior da lei moral e a posição exterior (fenomênica) do mundo natural — e mostra como o poema inverte exatamente esses dois lugares.
  • Padrão de cobrança: o ENEM costuma explorar Kant a partir de pares de textos (filosófico + literário, ou filosófico + jornalístico) que reformulam uma ideia original; a tarefa do candidato é comparar estrutura, não decorar citações.
  • Generalização: em questões de "releitura" ou "reescrita", concentre-se no que muda de posição, de sujeito ou de valor entre o texto-fonte e o texto-derivado — a resposta certa costuma nomear precisamente esse deslocamento, nem mais, nem menos.
  • Dica de eliminação rápida: descarte de cara alternativas que tragam vocabulário kantiano "genérico e correto" (liberdade, boa vontade, a priori) mas sem relação direta com as palavras literalmente presentes nos dois textos — se o conceito não aparece implicado nas imagens do poema, ele não pode ser a resposta.
  • Conexões: aprofunde a distinção fenômeno/coisa-em-si (Crítica da Razão Pura) e o conceito de autonomia da vontade (Fundamentação da Metafísica dos Costumes e Crítica da Razão Prática) — a dupla forma a espinha dorsal do sistema crítico kantiano.

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