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Mapa de questões · 1º dia
LinguagensArtesMédio

Questão 31ENEM 2019Caderno azul · 1º Dia

PICASSO, P. Cabeça de touro. Bronze, 33,5 cm x 43,5 cm x 19 cm. Musée Picasso, Paris. França, 1945. JANSON, H. W. Iniciação à história da arte. São Paulo: Martins Fontes, 1988.

Na obra Cabeça de touro, o material descartado torna-se objeto de arte por meio da

Alternativas

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Resolução

Ficha da Questão

  • 📚 Matérias Necessárias: Artes → História da Arte / Arte Moderna (ready-made e assemblage)
  • ⚡ Nível: Médio — exige reconhecer, a partir da leitura da imagem, o procedimento artístico de ressignificação de objetos (e não conhecimento decorado de datas ou nomes de movimentos).
  • 🎯 Tema/Habilidade: Vanguardas do século XX e o conceito de objet trouvé (objeto encontrado) — competência de leitura de linguagens visuais e reconhecimento de recursos expressivos das artes.
  • 🏆 Gabarito: D — revelado após resolução completa

Passo 1 — Leitura Estratégica do Comando

  • Comando reformulado: "Qual é o procedimento artístico que transforma um material descartado em obra de arte, na escultura Cabeça de touro, de Picasso?"
  • Palavras-chave decisivas: material descartado, objeto de arte, por meio da
  • Armadilha típica: confundir "transformação de sentido" com "transformação física" — o candidato acha que Picasso reciclou a matéria-prima (fundiu, moldou, alterou quimicamente o material) quando, na verdade, ele apenas remontou objetos prontos, preservando sua forma original.
  • O que a resposta precisa demonstrar: entendimento de que a arte, aqui, nasce do deslocamento de sentido/função de objetos cotidianos, não da criação de uma forma nova a partir de matéria bruta.

Passo 2 — Mapa de Conceitos Essenciais

  • Ready-made / objet trouvé: procedimento inaugurado por Marcel Duchamp no início do século XX, no qual um objeto industrial ou cotidiano é retirado de seu contexto de uso e apresentado como obra de arte, sem alteração de sua forma física.
  • Assemblage: técnica de composição escultórica que reúne objetos e materiais diversos (muitas vezes descartados) numa única obra tridimensional, criando um novo conjunto de sentido a partir da justaposição.
  • Picasso e as vanguardas do pós-guerra: na década de 1940, Picasso explorou a escultura-assemblage como forma de questionar as fronteiras entre "arte erudita" e objeto comum, dialogando com o espírito cubista de decompor e recompor a realidade.
  • Metáfora visual (o "espírito" da obra): o que garante a leitura da obra como "touro" não é o material (couro, metal), mas a disposição das peças, que o olhar reconhece como cabeça e chifres.

Passo 3 — Decodificação do Enunciado

  • Evidência 1 (imagem): a escultura é composta, de forma nitidamente reconhecível, por um selim (banco) de bicicleta, posicionado como o focinho/cabeça do touro, e por um guidão de bicicleta invertido, cujas curvas assumem o papel dos chifres → revela que os "materiais descartados" são peças de bicicleta, objetos utilitários sem qualquer relação original com arte ou com um animal.
  • Evidência 2 (enunciado): "Bronze" e o título Cabeça de touro aparecem na ficha técnica → num primeiro olhar sugerem fundição tradicional, mas a obra original (1942) foi montada com o selim e o guidão reais; o bronze é apenas o registro/multiplicação posterior daquela montagem, o que reforça que o gesto criador está na combinação dos objetos, não na escultura em metal fundido desde o início.
  • Síntese: a "mágica" da obra está em pegar dois objetos com função definida (sentar e guiar uma bicicleta) e, ao uni-los numa nova configuração, fazer o espectador enxergar algo completamente diferente — uma cabeça de touro. É exatamente essa mudança de função pela integração de objetos que converte o descarte em arte.

Passo 4 — Resolução Completa (Passo a Passo)

Subpasso 4.1 — Identificar o gesto artístico central

Observando a fotografia da escultura, o candidato deve reconhecer as duas peças de bicicleta: o selim, na posição horizontal, funcionando visualmente como o focinho alongado do touro; e o guidão, virado para cima, cujas curvas simétricas se tornam os chifres. Nenhuma das duas peças foi refundida, esculpida ou quimicamente processada — elas foram encaixadas uma na outra, mantendo sua forma industrial original.

Subpasso 4.2 — Conectar o gesto ao conceito de arte moderna

Esse procedimento é a essência do objet trouvé/assemblage: o artista não cria a forma do zero, mas reorganiza objetos existentes, deslocando-os de sua função utilitária (sentar, guiar) para uma função simbólica e estética (representar um touro). A "funcionalidade" original de cada peça é abandonada e substituída por uma nova, ditada pela composição visual do conjunto. É esse deslocamento — de objeto de uso para elemento de significado plástico — que transforma o descarte em arte.

Subpasso 4.3 — Verificação contra as alternativas

Ao testar essa conclusão contra as cinco alternativas, apenas a opção que fala em "mudança da funcionalidade pela integração dos objetos" descreve com precisão esse mecanismo: dois objetos com função técnica (peças de bicicleta) passam, por estarem integrados de determinada forma, a exercer uma função estética-representativa (cabeça de touro). As demais alternativas descrevem processos que não correspondem ao que a imagem mostra, como será detalhado no Passo 5.

Passo 5 — Análise Crítica de Todas as Alternativas

A) reciclagem da matéria-prima original.

❌ Incorreta: reciclagem implica processar/transformar fisicamente o material (derreter, moer, reconstituir) para gerar nova matéria-prima. Picasso não recicla o selim e o guidão nesse sentido — ele os mantém intactos e reconhecíveis, apenas os reposiciona. Confundir "reaproveitar objetos" com "reciclar matéria-prima" é o erro conceitual mais comum nessa questão.

B) complexidade da combinação de formas abstratas.

❌ Incorreta: a obra é, na verdade, notável pela sua simplicidade — apenas duas peças articuladas — e pelo fato de gerar uma imagem figurativa (um touro reconhecível), não abstrata. Não há complexidade formal nem abstração envolvidas no procedimento que gera o efeito artístico.

C) perenidade dos elementos que constituem a escultura.

❌ Incorreta: perenidade se refere à durabilidade/permanência do material ao longo do tempo (por isso a versão final foi fundida em bronze). Mas a questão pergunta como o material descartado vira arte, e isso acontece no momento da montagem conceitual dos objetos, não pela sua resistência física ou capacidade de durar.

D) mudança da funcionalidade pela integração dos objetos.

✅ Correta: o selim de bicicleta deixa de ser assento e o guidão deixa de ser peça de direção; integrados um ao outro numa nova configuração espacial, ambos passam a exercer a função de representar visualmente a cabeça e os chifres de um touro. É exatamente essa ressignificação funcional — de objeto utilitário descartado para elemento de linguagem artística — que caracteriza o procedimento de Picasso e responde ao comando da questão.

E) fragmentação da imagem no uso de elementos diversificados.

❌ Incorreta: não há fragmentação — pelo contrário, a obra busca a unidade de leitura: o espectador vê "um touro", uma imagem coesa, e não fragmentos dispersos. Fragmentação remete a um recurso cubista de decomposição da figura em planos, o que não é o que estrutura essa escultura específica.

🏆 Gabarito: D — a escultura transforma peças descartadas de bicicleta em obra de arte ao integrá-las numa nova composição que muda radicalmente sua função original — de objetos utilitários para elementos representativos de uma cabeça de touro.

Passo 6 — Conclusão, Generalização e Dica de Prova

  • Reafirmação do gabarito: só a alternativa D descreve corretamente o mecanismo observado na imagem — a troca de função de objetos cotidianos ao serem combinados de nova forma, sem qualquer transformação física da matéria.
  • Padrão de cobrança: o ENEM recorrentemente traz obras de vanguarda (Duchamp, Picasso, Tarsila, arte contemporânea) pedindo que o aluno identifique o procedimento ou o conceito estético por trás da obra, e não apenas dados biográficos ou estilísticos decorados.
  • Generalização: sempre que uma questão de Artes mostrar uma obra feita de objetos do cotidiano (ready-made/assemblage), a resposta correta tende a girar em torno da ressignificação/deslocamento de função e sentido, não em torno de transformação material, durabilidade ou complexidade formal.
  • Dica de eliminação rápida: leia a imagem antes das alternativas e pergunte "os materiais mudaram fisicamente ou só de função/sentido?". Se a resposta for "só de função/sentido", já é possível eliminar de cara alternativas que falem em reciclagem, fundição ou durabilidade (A e C) e partir para as que tratam de composição/representação (B, D, E).
  • Conexões: compare com a Fonte (mictório) de Marcel Duchamp, marco inicial do ready-made, e com outras montagens (assemblages) que usam sucata industrial — ambos exploram a mesma lógica de deslocar objetos de seu contexto original para gerar significado artístico.

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