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Questão 24ENEM 2019Caderno azul · 1º Dia

Blues da piedade

Vamos pedir piedade
Senhor, piedade
Pra essa gente careta e covarde 
Vamos pedir piedade
Senhor, piedade
Lhes dê grandeza e um pouco de coragem

CAZUZA. Cazuza: o poeta não morreu. Rio de Janeiro: Universal Music, 2000 (fragmento)

Todo gênero apresenta elementos constitutivos que coincidem seu uso em sociedade. A letra da canção identifica-se com o gênero ladainha, essencialmente, pela utilização da sequência textual:

Alternativas

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Resolução

Ficha da Questão

  • 📚 Matérias Necessárias: Português → Gêneros textuais, sequências textuais e tipologia textual
  • ⚡ Nível: Médio — exige reconhecer, dentro de um texto poético (canção), a marca linguística que define uma sequência textual específica, e não apenas identificar o gênero "ladainha" pelo tema.
  • 🎯 Tema/Habilidade: Sequências textuais (narrativa, descritiva, expositiva, argumentativa e injuntiva) e sua relação com o gênero ladainha — competência de leitura que articula forma linguística e função social do texto.
  • 🏆 Gabarito: C — revelado após resolução completa

Passo 1 — Leitura Estratégica do Comando

  • Comando reformulado: "Qual sequência textual explica por que a letra da canção se identifica com o gênero ladainha?"
  • Palavras-chave decisivas: ladainha, sequência textual, utilização
  • Armadilha típica: confundir o conteúdo da letra (um pedido, uma súplica) com uma sequência argumentativa, por parecer que o eu lírico está "convencendo" alguém — ou confundir com narrativa, pela presença de verbos, sem perceber que não há uma cadeia de ações no tempo.
  • O que a resposta precisa demonstrar: que o candidato reconhece a estrutura verbal e enunciativa característica da injunção — convocação direta do interlocutor para agir/participar — e associa isso à função ritualística e coletiva da ladainha.

Passo 2 — Mapa de Conceitos Essenciais

  • Gênero textual x sequência (tipo) textual: o gênero é a forma social e historicamente reconhecida do texto (carta, receita, ladainha, notícia); a sequência textual é o modo de organização linguística predominante dentro desse texto (narrar, descrever, expor, argumentar, injuncionar). Um mesmo gênero pode combinar sequências, mas costuma ter uma dominante.
  • Ladainha: gênero de origem religiosa — uma oração de súplica, geralmente conduzida em esquema de chamada e resposta entre um solista e a comunidade, marcada por invocações repetidas ("Senhor, piedade") e pedidos diretos a uma entidade superior.
  • Sequência injuntiva: organiza-se por comandos, pedidos, ordens ou convites à ação, normalmente com verbos no imperativo, no infinitivo com valor de comando, ou em construções exortativas como "vamos + verbo". É a sequência típica de receitas, manuais, orações e ladainhas, pois seu objetivo é levar o interlocutor a fazer algo (aqui, participar do pedido, repetir a súplica).
  • Diferença crucial com a argumentativa: a argumentativa constrói razões, dados e encadeamentos lógicos para convencer alguém de um ponto de vista; a injuntiva não argumenta — ela convoca, ordena ou suplica uma ação imediata, sem justificar com argumentos.

Passo 3 — Decodificação do Enunciado

  • Evidência 1: "Vamos pedir piedade" → o verbo "vamos" em construção exortativa (primeira pessoa do plural) convida o interlocutor a agir junto com o eu lírico — não descreve, não narra, comanda uma ação conjunta.
  • Evidência 2: "Senhor, piedade" / "Lhes dê grandeza" → o vocativo "Senhor" e o verbo "dê" (imperativo/subjuntivo com valor de pedido direto) reproduzem a estrutura de súplica típica da ladainha: uma invocação seguida de um pedido explícito, dirigido a um interlocutor que deve responder ou conceder algo.
  • Síntese: a repetição de fórmulas de chamada ("Vamos pedir…", "Senhor, piedade") e de pedidos diretos ("dê grandeza") mostra que o texto não descreve, não narra e não argumenta — ele convoca o interlocutor (divino e, por extensão, a comunidade que canta/reza) a participar do ato de pedir. Essa é a marca da sequência injuntiva.

Passo 4 — Resolução Completa (Passo a Passo)

Subpasso 4.1 — Mapear os verbos e construções da letra

Observe os verbos e formas verbais destacados no fragmento: "Vamos pedir" (exortativo, 1ª pessoa do plural, convite à ação coletiva), "piedade" (substantivo repetido como refrão de súplica), "Lhes dê" (imperativo/subjuntivo com força de pedido direto ao "Senhor"). Não há verbos que encadeiem fatos em sequência temporal (o que caracterizaria narração), nem enumeração de qualidades de um objeto ou pessoa (descrição), nem teses sustentadas por argumentos (argumentação), nem uma explicação neutra de um tema (exposição).

Subpasso 4.2 — Relacionar a estrutura linguística ao gênero ladainha

A ladainha, como gênero de oração litânica, existe justamente para convocar — o fiel que reza chama a divindade e, ao mesmo tempo, convida a comunidade a repetir o pedido em coro. Essa dupla convocação (ao "Senhor" e ao grupo que canta) só se realiza linguisticamente por meio de comandos, pedidos e convites à ação: a sequência injuntiva. Cazuza usa exatamente essa estrutura — "vamos pedir", "dê" — para replicar, na canção, a forma da prece tradicional, ainda que o conteúdo seja uma crítica social ("essa gente careta e covarde").

Subpasso 4.3 — Verificação

Cheque cada candidata contra o texto: não há cadeia de eventos (elimina narrativa); não há enumeração de traços de um personagem ou cenário (elimina descritiva); não há explicação neutra de um tema (elimina expositiva); não há construção de argumentos lógicos para persuadir (elimina argumentativa). Sobra apenas a sequência que comanda e convoca à participação: a injuntiva. O resultado confirma a alternativa C.

Passo 5 — Análise Crítica de Todas as Alternativas

A) expositiva, por discorrer sobre um dado tema.

❌ Incorreta: a sequência expositiva apresenta informações ou explica um tema de forma relativamente neutra e informativa. A canção não expõe nem explica nada — ela invoca e pede, sem qualquer intenção de informar ou esclarecer um assunto.

B) narrativa, por apresentar uma cadeia de ações.

❌ Incorreta: a narrativa organiza-se por uma sucessão de eventos ligados no tempo, com personagens que vivem uma história. No fragmento não há enredo, não há progressão temporal de fatos — apenas um pedido repetido, sem desenvolvimento narrativo.

C) injuntiva, por chamar o interlocutor à participação.

✅ Correta: os verbos exortativos ("vamos pedir") e imperativos/de pedido direto ("dê") convocam o interlocutor — o "Senhor" invocado e, por extensão, quem canta/ouve — a agir e a participar do rito de súplica, exatamente como faz a ladainha tradicional.

D) descritiva, por enumerar características de um personagem.

❌ Incorreta: a sequência descritiva enumera qualidades, traços físicos ou psicológicos de algo ou alguém. A letra não descreve o "Senhor" nem detalha características de "essa gente careta e covarde" além de um adjetivo de julgamento — não há enumeração descritiva estruturante do texto.

E) argumentativa, por incitar o leitor a uma tomada de atitude.

❌ Incorreta: embora a canção tenha uma dimensão crítica, a sequência argumentativa exige a construção de razões e evidências que sustentem uma tese, buscando convencer por meio de encadeamento lógico. A letra não argumenta: ela suplica e convoca diretamente, sem apresentar justificativas racionais para o pedido — por isso é injunção, não argumentação.

🏆 Gabarito: C — a canção reproduz a estrutura da ladainha por meio de comandos e convites diretos à ação ("vamos pedir", "dê"), marca linguística própria da sequência injuntiva, que convoca o interlocutor a participar do pedido/oração.

Passo 6 — Conclusão, Generalização e Dica de Prova

  • Reafirmação do gabarito: só a sequência injuntiva explica a presença de verbos exortativos e imperativos que convocam o "Senhor" e o coro de fiéis a agir junto — é essa convocação direta que aproxima a canção do gênero ladainha.
  • Padrão de cobrança: o ENEM frequentemente cruza gênero textual (carta, receita, oração, manual, cordel) com a sequência textual predominante, pedindo que o candidato identifique a marca linguística (verbo no imperativo, conectivo de causa, cadeia temporal, adjetivação) que justifica a classificação.
  • Generalização: sempre que o texto usar verbos no imperativo, infinitivo com valor de comando ou construções do tipo "vamos + verbo" para convocar o leitor/ouvinte a fazer algo, a sequência é injuntiva — independentemente de o gênero ser receita, manual, oração, propaganda ou canção.
  • Dica de eliminação rápida: procure primeiro os verbos predominantes: se contam uma história no tempo, é narrativa; se enumeram traços, é descritiva; se explicam um tema sem convocar ação, é expositiva; se constroem argumentos com dados/razões, é argumentativa; se mandam, pedem ou convocam a agir, é injuntiva — no fragmento, os verbos mandam e pedem, então a resposta salta para C.
  • Conexões: compare com questões sobre gêneros instrucionais (bulas, receitas, manuais) e sobre a linguagem da propaganda, que também costumam explorar a sequência injuntiva; revise também os textos religiosos (orações, sermões) como fonte recorrente desse tipo de cobrança no ENEM.

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