Mapa de questões · 1º dia
Questão 39 — ENEM 2019Caderno azul · 1º Dia
Essa lua enlutada, esse desassossego
A convulsão de dentro, ilharga
Dentro da solidão, corpo morrendo
Tudo isso te devo. E eram tão vastas
As coisas planejadas, navios,
Muralhas de marfim, palavras largas
Consentimento sempre. E seria dezembro.
Um cavalo de Jade sob as águas
Dupla transparência, fio suspenso
Todas essas coisas na ponta dos teus dedos
E tudo se desfez no pórtico do tempo
Em lívido silêncio. Umas manhãs de vidro
Vento, a alma esvaziada, um sol que não vejo
Também isso te devo.
HILST, H. Júbilo, memória, noviciado da paixão. São Paulo: Cia. das Letras, 2018
No poema, o eu lírico faz um inventário de estados passados espelhados no presente. Nesse processo, aflora o
Alternativas
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Resolução
Ficha da Questão
- 📚 Matérias Necessárias: Literatura → Interpretação de poesia lírica contemporânea (tom, ironia e voz poética)
- ⚡ Nível: Difícil — exige captar um tom irônico sutil em linguagem hermética e simbólica de Hilda Hilst, sem pistas explícitas de sentimento no texto
- 🎯 Tema/Habilidade: Reconhecimento de recursos expressivos (tom e ironia) na construção de sentidos em texto poético
- 🏆 Gabarito: B — revelado após resolução completa
Passo 1 — Leitura Estratégica do Comando
- Comando reformulado: "Que atitude/sentimento emerge quando o eu lírico compara, no presente, aquilo que planejou e viveu no passado?"
- Palavras-chave decisivas: inventário de estados passados, espelhados no presente, aflora
- Armadilha típica: confundir a nostalgia comum a poemas sobre o passado com arrependimento ou tristeza pura, ignorando o tom irônico do refrão "te devo"
- O que a resposta precisa demonstrar: identificar o efeito de sentido — o tom emocional predominante — que resulta do confronto entre o que foi sonhado/vivido e o que restou, e não apenas descrever o conteúdo do poema
Passo 2 — Mapa de Conceitos Essenciais
- Eu lírico: voz que expressa a subjetividade dentro do poema; não se confunde com a autora empírica, Hilda Hilst.
- Tom/ironia poética: recurso em que o sentido pretendido diverge, total ou parcialmente, do sentido literal das palavras, produzindo distanciamento crítico ou emocional.
- Refrão (anáfora): repetição de um verso ou expressão — aqui, "Tudo isso te devo" / "Também isso te devo" — que funciona como fio condutor de sentido e reforça a ambiguidade entre gratidão e balanço de perdas.
- Desapego: postura de quem relata o passado sem se prender emocionalmente a ele, narrando sem drama excessivo, com distanciamento maduro.
Passo 3 — Decodificação do Enunciado
- Evidência 1: "E eram tão vastas / As coisas planejadas, navios, / Muralhas de marfim, palavras largas" → revela a grandiosidade quase utópica das expectativas e promessas do passado
- Evidência 2: "E tudo se desfez no pórtico do tempo / Em lívido silêncio" → mostra que essas expectativas se desfizeram, mas a reação é descrita com serenidade contemplativa, não com desespero
- Evidência 3: "Tudo isso te devo" / "Também isso te devo" → o verbo "dever" aplicado tanto às coisas grandiosas planejadas quanto ao vazio final ("alma esvaziada", "um sol que não vejo") cria um paradoxo: reconhecer "dívida" por algo que também doeu é um gesto irônico, não literal
- Síntese: o eu lírico relê o passado — sonhos grandiosos e o esvaziamento que veio depois — com uma voz que nem lamenta nem celebra ingenuamente; reconhece tudo, inclusive a dor, como parte formadora da experiência, e o faz por meio de um tom irônico e distanciado, típico de quem amadureceu.
Passo 4 — Resolução Completa (Passo a Passo)
Subpasso 4.1 — Identificar a estrutura do poema e o papel do refrão
O poema se organiza em dois blocos ligados pelo refrão "Tudo isso te devo" (verso 4) e sua variação final "Também isso te devo" (último verso). O primeiro bloco reúne dor e desassossego presentes ("lua enlutada", "convulsão", "corpo morrendo") somados a projetos e promessas grandiosas ("coisas planejadas, navios, muralhas de marfim"). Depois da ruptura marcada por "E tudo se desfez", o segundo bloco traz imagens de vazio e ausência ("alma esvaziada", "um sol que não vejo"). O fato de o eu lírico "dever" tanto o que foi grandioso quanto o que sobrou vazio é a chave interpretativa da questão.
Subpasso 4.2 — Interpretar o efeito do verbo "dever" repetido
Literalmente, "dever" algo a alguém é reconhecer uma dívida por um bem recebido. Mas aqui o eu lírico "deve" também a dor, o silêncio e o vazio — o que subverte o sentido usual da palavra. Essa inversão é o recurso da ironia: dizer "te devo" para algo que, na verdade, doeu é uma forma madura de reconhecer a experiência vivida sem culpar o outro nem se vitimizar. Não há grito de revolta, súplica ou lamento explícito — há um balanço sereno, quase distanciado, entre ganhos e perdas.
Subpasso 4.3 — Verificação: relacionar com "amadurecimento" e "desapego"
O amadurecimento aparece porque o eu lírico consegue olhar para trás e nomear, sem drama, tanto os sonhos desfeitos quanto o vazio resultante — atitude típica de quem já processou a experiência, não de quem ainda sofre com ela em carne viva. O desapego aparece porque, mesmo relatando a perda ("tudo se desfez"), o tom permanece contido, quase contemplativo ("lívido silêncio", "manhãs de vidro"), sem apego às expectativas não realizadas. A combinação desses dois traços — reconhecimento irônico via "te devo" somado à serenidade diante da perda — aponta exatamente para a alternativa B.
Passo 5 — Análise Crítica de Todas as Alternativas
A) cuidado em apagar da memória os restos do amor.
❌ Incorreta: o poema faz o oposto de apagar — é um "inventário", isto é, um levantamento deliberado e detalhado das lembranças ("essa lua enlutada", "os navios", "o cavalo de Jade"). Não há nenhum verbo ou imagem de esquecimento; ao contrário, cada verso reafirma e nomeia o que foi vivido.
B) amadurecimento revestido de ironia e desapego.
✅ Correta: o refrão "te devo", aplicado tanto às promessas grandiosas quanto ao vazio final, revela uma leitura irônica da própria experiência — reconhecer "dívida" por aquilo que também doeu —, enquanto o tom sereno diante da dissolução ("tudo se desfez... em lívido silêncio") demonstra desapego, postura típica de quem amadureceu e consegue revisitar o passado sem revolta nem idealização.
C) mosaico de alegrias formado seletivamente.
❌ Incorreta: o poema não seleciona apenas lembranças felizes — mistura explicitamente dor ("desassossego", "corpo morrendo") e vazio ("alma esvaziada") a imagens de expectativa e beleza ("cavalo de Jade", "dupla transparência"). Não há seletividade voltada só para o que é positivo.
D) desejo reprimido convertido em delírio.
❌ Incorreta: não há indícios de repressão de desejo nem de linguagem delirante, desconexa ou alucinatória. O discurso, ao contrário, é lúcido e organizado em um inventário coerente, com sintaxe controlada, ainda que a imagética seja simbólica.
E) arrependimento dos erros cometidos.
❌ Incorreta: o poema não atribui culpa nem enumera "erros" — reconhece e, ironicamente, "agradece" tanto o que foi bom quanto o que doeu, sem juízo moral. Arrependimento implicaria desejar que o passado não tivesse acontecido; aqui o eu lírico o assume por inteiro, com distanciamento.
🏆 Gabarito: B — a repetição irônica de "te devo" para tudo o que viveu (sonhos e vazio), somada ao tom sereno diante da perda, comprova o amadurecimento revestido de ironia e desapego do eu lírico.
Passo 6 — Conclusão, Generalização e Dica de Prova
- Reafirmação do gabarito: só a alternativa B nomeia corretamente o efeito de sentido do refrão "te devo": reconhecimento irônico, não literal, de uma dívida que inclui tanto sonhos quanto vazio, associado a uma postura serena diante da perda.
- Padrão de cobrança: o ENEM recorrentemente traz poemas líricos de autores modernos e contemporâneos (Hilda Hilst, Adélia Prado, Manuel Bandeira, Carlos Drummond de Andrade) pedindo que o candidato identifique o tom ou a atitude do eu lírico diante de um tema — perda, amor, tempo — e não apenas o "assunto" do poema.
- Generalização: em questões de poesia, a resposta certa quase sempre está no como o eu lírico fala (tom, ironia, antítese, repetição), não apenas no que ele diz; releia sempre os versos-chave — aqui, o refrão — buscando contradições entre forma e conteúdo.
- Dica de eliminação rápida: descarte alternativas que atribuem ao eu lírico atitudes extremas e explícitas (revolta, delírio, culpa, apagamento) quando o texto usa vocabulário contido e sereno ("lívido silêncio", "manhãs de vidro") — esse contraste geralmente indica emoção madura, não passional ou dramática.
- Conexões: compare com outros poemas de balanço existencial, como textos confessionais de Carlos Drummond de Andrade, e revise a diferença entre tom nostálgico, tom irônico e tom melancólico em textos literários.
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