Mapa de questões · 1º dia
Questão 7 — ENEM 2019Caderno azul · 1º Dia
Um amor desse
Era 24 horas lado a lado
Um radar na pele, aquele sentimento alucinado
Coração batia acelerado
Bastava um olhar pra eu entender
Que era hora de me entregar pra você
Palavras não faziam falta mais
Ah, só de lembrar do seu perfume
Que arrepio, que calafrio
Que o meu corpo sente
Nem que eu queira, eu te apago da minha mente
Ah, esse amor
Deixou marcas no meu corpo
Ah, esse amor
Só de pensar eu grito, eu quase morro
AZEVEDO, N. LEÃO, W. QUADROS, R. Coração pede socorro. Rio de Janeiro, Som Livre, 2018 (fragmento)
Essa letra de canção foi composta especialmente para uma campanha de combate à violência contra as mulheres, buscando conscientizá-las acerca do limite entre relacionamento amoroso e relacionamento abusivo. Para tanto, a estratégia empregada na letra é a
Alternativas
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Resolução
Ficha da Questão
- 📚 Matérias Necessárias: Português → Interpretação de texto / Ambiguidade e figuras de linguagem em letra de canção
- ⚡ Nível: Médio — a resposta certa exige perceber uma ambiguidade construída ao longo de toda a letra, e não apenas localizar uma frase isolada
- 🎯 Tema/Habilidade: Recursos expressivos e efeitos de sentido em texto poético-musical, aplicado a uma campanha social (Competência de Área 1/8 — Linguagens)
- 🏆 Gabarito: C — revelado após resolução completa
Passo 1 — Leitura Estratégica do Comando
- Comando reformulado: "Qual recurso a letra da música usa para alertar mulheres sobre o limite entre amor e relacionamento abusivo?"
- Palavras-chave decisivas: campanha de combate à violência, limite entre relacionamento amoroso e relacionamento abusivo, estratégia empregada na letra
- Armadilha típica: ler a letra apenas na chave romântica (como uma música de amor "normal") e não perceber que os mesmos versos, lidos com atenção, descrevem controle, vigilância e agressão física — isso leva o candidato a escolher alternativas que descrevem "efeitos" da violência (submissão, pedido de socorro, denúncia, naturalização) em vez do recurso textual usado.
- O que a resposta precisa demonstrar: identificar o mecanismo linguístico (não o tema) que a letra explora para produzir a reflexão pretendida pela campanha.
Passo 2 — Mapa de Conceitos Essenciais
- Duplo sentido (ambiguidade): quando uma mesma expressão comporta duas leituras plausíveis e o contexto (ou o objetivo do texto) revela uma segunda camada de significado, geralmente crítica ou irônica, escondida sob a leitura mais óbvia.
- Linguagem conotativa em letra de música: imagens como "radar na pele", "arrepio", "marcas no corpo" pertencem tradicionalmente ao vocabulário da paixão intensa, mas também são exatamente as palavras usadas para descrever ciúme possessivo, vigilância e agressão — a canção explora essa coincidência lexical de propósito.
- Função apelativa/conativa da linguagem: por ser peça de campanha, o texto não apenas expressa um sentimento, mas busca provocar no leitor/ouvinte (a mulher em situação de relacionamento abusivo) o reconhecimento de um padrão em sua própria vida — daí a estratégia de "confundir" para depois fazer o interlocutor perceber a diferença sozinho.
- Contexto de produção: letra composta especialmente para uma campanha (não é uma canção de amor comum reaproveitada) — isso é pista de que há intencionalidade discursiva por trás de cada verso.
Passo 3 — Decodificação do Enunciado
- Evidência 1: "Era 24 horas lado a lado / Um radar na pele" → soa como intimidade e cumplicidade, mas descreve vigilância constante e monitoramento — controle disfarçado de proximidade.
- Evidência 2: "Bastava um olhar pra eu entender / Que era hora de me entregar pra você" e "Palavras não faziam falta mais" → parece cumplicidade silenciosa de casal apaixonado, mas descreve anulação da própria vontade e ausência de diálogo — obediência automática, traço típico de relação de dominação.
- Evidência 3: "Esse amor deixou marcas no meu corpo" / "eu grito, eu quase morro" → o vocabulário de "amor" é usado ao lado de marcas no corpo, grito e risco de morte, elementos que, lidos sem o filtro romântico, descrevem agressão física, não paixão.
- Síntese: a letra é construída para que cada verso funcione em dois planos simultâneos — o da canção de amor apaixonado e o do relato de um relacionamento controlador e violento. É exatamente esse jogo de duplo sentido que faz o ouvinte, ao perceber a segunda leitura, entender que "sentir aquilo tudo" não é sinônimo de ser amada.
Passo 4 — Resolução Completa (Passo a Passo)
Subpasso 4.1 — Identificar a que nível de análise a pergunta se refere
A pergunta não pede "qual é o tema da música" (isso seria óbvio: violência contra a mulher), mas sim "qual é a estratégia" — ou seja, o recurso textual/discursivo usado para tratar desse tema. É preciso, portanto, buscar uma alternativa que descreva um mecanismo de construção de sentido, não apenas um efeito ou uma consequência da violência.
Subpasso 4.2 — Testar a hipótese do duplo sentido verso a verso
Percorrendo a letra, cada imagem admite as duas leituras: "radar na pele" (cuidado vs. vigilância), "sentimento alucinado" (paixão vs. obsessão), "bastava um olhar para entender" (sintonia vs. submissão ao olhar do outro), "palavras não faziam falta" (cumplicidade vs. silenciamento), "marcas no corpo" (metáfora do amor vs. lesão física real), "eu grito, eu quase morro" (hipérbole amorosa vs. relato de agressão e risco de feminicídio). Esse padrão se repete sistematicamente — não é um verso isolado, é a espinha dorsal da letra.
Subpasso 4.3 — Verificação
Como o padrão de ambiguidade aparece do início ao fim da canção e é isso que gera o efeito pedagógico da campanha (fazer a ouvinte reconhecer sinais de abuso onde antes via apenas "amor intenso"), a alternativa que nomeia esse mecanismo — "exploração de situação de duplo sentido que mostra que atos de dominação e violência não configuram amor" — é a única que descreve corretamente a estratégia da letra, confirmando o gabarito.
Passo 5 — Análise Crítica de Todas as Alternativas
A) revelação da submissão da mulher à situação de violência, que muitas vezes a leva à morte.
❌ Incorreta: a letra não revela explicitamente uma submissão nem afirma que a violência "leva à morte" — "eu quase morro" é hipérbole ambígua, não uma declaração literal de feminicídio. Essa alternativa descreve um possível desfecho social do tema, não o recurso textual empregado na canção.
B) ênfase na necessidade de se ouvirem os apelos da mulher agredida, que continuamente pede socorro.
❌ Incorreta: embora o título da canção seja "Coração pede socorro", a letra transcrita no fragmento não contém um apelo explícito de socorro nem defende que se "ouçam os apelos" — ela constrói ambiguidade, não um chamado direto de ajuda. Confunde o título da obra com o conteúdo estratégico do fragmento.
C) exploração de situação de duplo sentido que mostra que atos de dominação e violência não configuram amor.
✅ Correta: é exatamente essa a estratégia comprovada pela decodificação — versos que soam românticos revelam, numa segunda leitura, comportamentos de controle e agressão, levando a ouvinte a concluir que aquilo que sentia como "amor" era, na verdade, dominação e violência.
D) divulgação da importância de denunciar a violência doméstica, que atinge um grande número de mulheres no país.
❌ Incorreta: a letra não menciona denúncia, dados estatísticos ou orientação sobre canais de ajuda; ela trabalha no nível da linguagem poética e da ambiguidade, não da informação/campanha de denúncia formal.
E) naturalização de situações opressivas, que fazem parte da vida de mulheres que vivem em uma sociedade patriarcal.
❌ Incorreta: é o oposto do efeito pretendido — a canção busca desnaturalizar (fazer estranhar) o que antes parecia normal, e não reforçar a naturalização da opressão. Uma campanha de combate à violência jamais teria como estratégia naturalizar o problema que quer combater.
🏆 Gabarito: C — a letra usa sistematicamente o duplo sentido, fazendo com que imagens típicas de paixão (vigilância, marcas, gritos) revelem, numa segunda leitura, sinais de controle e violência, mostrando que isso não é amor.
Passo 6 — Conclusão, Generalização e Dica de Prova
- Reafirmação do gabarito: só a alternativa C nomeia o recurso textual (duplo sentido) e conecta corretamente seu efeito (desmascarar violência disfarçada de amor); as demais descrevem temas ou consequências sociais que não estão no fragmento.
- Padrão de cobrança: o ENEM frequentemente traz letras de música, poemas ou textos publicitários de campanhas sociais e pergunta pela estratégia discursiva/linguística, não pelo tema geral — é um padrão recorrente nas competências de Linguagens.
- Generalização: sempre que o comando perguntar "qual a estratégia/recurso empregado", procure o mecanismo de construção de sentido (ambiguidade, ironia, metáfora, intertextualidade) e não confunda com o assunto do texto ou com um possível efeito social dele.
- Dica de eliminação rápida: descarte de cara alternativas que trazem dados, estatísticas ou pedidos explícitos ("denunciar", "grande número de mulheres", "pede socorro") quando o fragmento apresentado é puramente poético/metafórico — texto literário raramente "informa" ou "convoca" de forma direta, ele sugere por meio de imagens.
- Conexões: compare com questões sobre duplo sentido em publicidade e sobre funções da linguagem (poética x conativa) — ambos os temas são recorrentes no eixo de Linguagens do ENEM.
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