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Mapa de questões · 1º dia
LinguagensLiteraturaDifícil

Questão 28ENEM 2019Caderno azul · 1º Dia

Os subúrbios do Rio de Janeiro foram a primeira coisa a aparecer no mundo, antes mesmo dos vulcões e dos cachalotes, antes de Portugal invadir, antes do Getúlio Vargas mandar construir casas populares. O bairro do Queím, onde nasci e cresci, é um deles. Aconchegado entre o Engenho Novo e Andaraí, foi feito daquela argila primordial, que se aglutinou em diversos formatos: cães soltos, moscas e morros, uma estação de trem, amendoeiras e barracos e sobrados, botecos e arsenais de guerra, armarinhos e bancas de jogo do bicho e um terreno enorme reservado para o cemitério. Mas tudo ainda estava vazio: faltava gente.

Não demorou. As ruas juntaram tanta poeira que o homem não teve escolha a não ser passar a existir para varrê-las. À tardinha, sentar na varanda das casas e reclamar da pobreza, falar mal dos outros e olhar para as calçadas encardidas de sol, os ônibus da volta do trabalho sujando tudo de novo.

HERINGER, V. O amor dos homens avulsos. São Paulo: Cia. das Letras, 2016.

Traçando a gênese simbólica de sua cidade, o narrador imprime ao texto um sentido estético fundamentado na

Alternativas

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Resolução

Ficha da Questão

  • 📚 Matérias Necessárias: Literatura → leitura de prosa contemporânea e efeitos de sentido
  • ⚡ Nível: Difícil — a alternativa certa se distingue das erradas por nuances lexicais finas
  • 🎯 Tema/Habilidade: Construção do sentido estético em narrativa memorialista; reconhecimento de recursos expressivos (ironia, exagero, caricatura)
  • 🏆 Gabarito: B — revelado após a resolução completa

Passo 1 — Leitura Estratégica do Comando

  • Comando reformulado: "Que efeito estético o narrador usa para contar, de forma quase mítica, o nascimento do seu bairro?"
  • Palavras-chave decisivas: gênese simbólica, sentido estético, fundamentado na
  • Armadilha típica: achar que a longa enumeração de elementos do bairro (cães, moscas, botecos, jogo do bicho) indica "diversidade de tipos humanos" (D), ou supor que citar Portugal e Getúlio Vargas valoriza "fatos históricos" (C).
  • O que a resposta precisa demonstrar: que o candidato percebeu o tom irônico e exagerado com que o narrador descreve a origem do subúrbio, destacando o que há de sujo, pobre e decadente na paisagem — não a riqueza humana, nem a história, nem a mera excentricidade.

Passo 2 — Mapa de Conceitos Essenciais

  • Caricatura literária: recurso que exagera e deforma traços de uma realidade para produzir efeito crítico ou irônico, evidenciando defeitos em vez de qualidades.
  • Paródia do relato de criação: o narrador imita a estrutura de um mito fundador — "antes mesmo dos vulcões [...] antes de Portugal invadir" — para narrar a origem trivial do bairro, gerando contraste irônico entre forma solene e conteúdo mesquinho.
  • Léxico de deterioração: palavras ligadas à sujeira e ao desgaste ("poeira", "encardidas de sol", "sujando tudo de novo") formam a verdadeira assinatura estética do trecho.

Passo 3 — Decodificação do Enunciado

  • Evidência 1: "argila primordial, que se aglutinou [...] cães soltos, moscas e morros [...] botecos [...] bancas de jogo do bicho" → mistura rebaixada: ao lado do vocabulário grandioso do mito da criação, o narrador enfileira moscas, botecos e jogo do bicho no mesmo plano, produzindo um retrato exagerado e grotesco do lugar.
  • Evidência 2: "o homem não teve escolha a não ser passar a existir para varrê-las [as ruas]" → o ser humano surge no mundo com função ridícula — varrer poeira —, reforçando o exagero cômico sobre a insignificância da vida ali, não sua diversidade ou urgência.
  • Evidência 3: "reclamar da pobreza, falar mal dos outros [...] calçadas encardidas de sol, os ônibus [...] sujando tudo de novo" → repetição insistente de imagens de sujeira e mesquinhez, sem menção a fatos históricos relevantes ou necessidades urgentes.
  • Síntese: as três evidências convergem: o narrador não celebra riqueza humana nem história — constrói, com humor ácido, uma imagem caricata e deformada de uma paisagem marcada pela sujeira e pelo desgaste.

Passo 4 — Resolução Completa (Passo a Passo)

Subpasso 4.1 — Reconhecer o registro estético dominante

O primeiro parágrafo assume tom de relato de criação, mas o conteúdo narrado é banal e sórdido: cães soltos, moscas, botecos, jogo do bicho. Esse descompasso entre forma solene e conteúdo trivial é a marca da caricatura — exagero usado para ironizar, não para engrandecer.

Subpasso 4.2 — Rastrear o campo lexical predominante

Isolando substantivos e adjetivos que qualificam o bairro e seus moradores, aparece um padrão nítido: "poeira", "pobreza", "encardidas de sol", "sujando tudo de novo". Não há vocabulário de urgência (E), valorização histórica (C) nem multiplicidade de perfis humanos (D) — há insistência em sujeira e decadência.

Subpasso 4.3 — Verificação

Comparando esse levantamento com as cinco alternativas, só a opção que une "caricata" (o exagero do Subpasso 4.1) a "traços deteriorados" (o léxico do Subpasso 4.2) descreve com precisão o efeito estético do texto — exatamente o que a alternativa B enuncia.

Passo 5 — Análise Crítica de Todas as Alternativas

A) excentricidade dos bairros cariocas de sua infância.

Incorreta: "excentricidade" sugere algo estranho ou extravagante. O narrador não mostra o bairro como bizarro ou singular — exagera propositalmente seus traços de decadência e sujeira, efeito distinto de mera excentricidade.

B) perspectiva caricata da paisagem de traços deteriorados.

Correta: o texto narra a origem do bairro em tom de mito de criação, mas povoado por elementos triviais e degradados (poeira, botecos, jogo do bicho, calçadas encardidas, ônibus sujando as ruas). Esse exagero irônico que ressalta o desgaste físico e social é precisamente uma "perspectiva caricata de traços deteriorados".

C) importância dos fatos relacionados à história dos subúrbios.

Incorreta: os fatos históricos citados (invasão portuguesa, casas populares de Getúlio Vargas) aparecem só como marcos temporais que o bairro antecede — "antes de Portugal invadir, antes do Getúlio Vargas mandar construir" —, o que diminui a importância desses fatos diante da origem "primordial" do lugar, em vez de reforçá-la.

D) diversidade dos tipos humanos identificados por seus hábitos.

Incorreta: o texto trata "o homem" de forma genérica e coletiva, repetindo as mesmas ações — varrer, sentar, reclamar, falar mal — sem descrever uma variedade de tipos humanos. A enumeração inicial (cães, moscas, morros, botecos) refere-se à paisagem, não a pessoas.

E) experiência do cotidiano marcado pelas necessidades e urgências.

Incorreta: as ações descritas (sentar na varanda, reclamar, falar mal dos outros) são rotineiras e contemplativas, sem marca de urgência ou carência premente. O tom é de estagnação e repetição, não de pressa.

🏆 Gabarito: B — o narrador constrói a gênese do bairro com exagero irônico, entrelaçando o tom solene de um mito de criação a detalhes triviais e decadentes (poeira, sujeira, pobreza), o que configura uma perspectiva caricata de uma paisagem de traços deteriorados.

Passo 6 — Conclusão, Generalização e Dica de Prova

  • Reafirmação do gabarito: só a alternativa B nomeia corretamente o recurso estilístico (caricatura/exagero irônico) e o conteúdo temático (decadência, sujeira) que dominam o trecho; as demais confundem menções pontuais do texto com o efeito estético geral.
  • Padrão de cobrança: o ENEM recorrentemente traz excertos de prosa contemporânea brasileira pedindo o "efeito de sentido" ou o "sentido estético" construído pelo narrador — não o assunto literal do texto, mas o como ele é contado.
  • Generalização: nesse tipo de questão, a resposta certa nomeia o procedimento narrativo (ironia, caricatura, hipérbole, contraste) associado ao campo semântico predominante no texto; as erradas pinçam um detalhe isolado e o generalizam de forma equivocada.
  • Dica de eliminação rápida: sempre que uma alternativa citar "fatos históricos" ou "diversidade humana" como centro do texto, confira se esses elementos aparecem apenas de passagem — se sim, é distrator. Priorize a alternativa que resume o tom geral do trecho.
  • Conexões: compare com questões sobre humor e ironia em crônicas e com análises de "efeito de sentido" em textos que também contrastam forma solene e conteúdo trivial.

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