Pular para o conteúdo
MemorizeMemorize
Mapa de questões · 1º dia
HumanasHistóriaMédio

Questão 6ENEM 2015Caderno azul · 1º Dia

A língua de que usam, por toda a costa, carece de três letras; convém a saber, não se acha nela F, nem L, nem R, coisa digna de espanto, porque assim não têm Fé, nem Lei, nem Rei, e dessa maneira vivem desordenadamente, sem terem além disto conta, nem peso, nem medida.

GÂNGAVO, P M. A primeira história do Brasil: história da província de Santa Cruz a que vulgarmente chamamos Brasil. Rio de Janeiro: Zahar, 2004 (adaptado)

A observação do cronista português Pero de Magalhães de Gândavo, em 1576, sobre a ausência das letras F, L e R na língua mencionada, demonstra a

Alternativas

Resolução

Ficha da Questão

  • 📚 Matérias Necessárias: História → Brasil Colonial (contato luso-indígena) e Antropologia → conceito de etnocentrismo
  • ⚡ Nível: Médio — exige articular um texto-fonte do século XVI com o conceito de etnocentrismo sem que a questão o nomeie explicitamente
  • 🎯 Tema/Habilidade: Contato cultural na colonização e etnocentrismo europeu — leitura crítica de fonte primária sobre a formação do Brasil
  • 🏆 Gabarito: D — revelado após resolução completa

Passo 1 — Leitura Estratégica do Comando

  • Comando reformulado: "O que a associação entre a ausência das letras F, L, R e a suposta ausência de Fé, Lei, Rei revela sobre o olhar do cronista português?"
  • Palavras-chave decisivas: três letras, Fé, nem Lei, nem Rei, desordenadamente
  • Armadilha típica: tratar a fala do cronista como descrição neutra e objetiva da sociedade indígena, aceitando como fato que os indígenas eram "simples" ou "desordenados" (alternativa A)
  • O que a resposta precisa demonstrar: que o texto é uma fonte carregada de julgamento de valor europeu — o cronista usa categorias da sua própria cultura (fé cristã, lei escrita, monarquia) como parâmetro universal e, por isso, não compreende a organização sociocultural indígena em seus próprios termos

Passo 2 — Mapa de Conceitos Essenciais

  • Etnocentrismo: tendência de avaliar outras culturas exclusivamente pelos critérios da própria cultura, tomando-a como referência de "normalidade" ou "civilização" e classificando o diferente como "falta" ou "atraso"
  • Crônica de colonização como fonte histórica: relatos como o de Gândavo não são retratos objetivos; expressam a cosmovisão, os interesses e os preconceitos de quem escreve, exigindo do historiador leitura crítica, e não leitura literal
  • Tríade Fé-Lei-Rei: síntese das instituições estruturantes do mundo português quinhentista (religião católica, direito escrito, monarquia); sua ausência entre os indígenas é lida pelo cronista como "carência", nunca como diferença organizacional legítima
  • Organização social indígena: sociedades ágrafas, estruturadas por parentesco, oralidade, lideranças e cosmologias próprias — possuíam ordem social segundo lógica distinta da europeia, algo que Gândavo não consegue enxergar nem valorizar

Passo 3 — Decodificação do Enunciado

  • Evidência 1: "carece de três letras... não se acha nela F, nem L, nem R" → o cronista parte de uma observação linguística (a fonética da língua indígena) para construir uma associação simbólica com o alfabeto português
  • Evidência 2: "não têm Fé, nem Lei, nem Rei, e dessa maneira vivem desordenadamente" → salto lógico do cronista: sem essas três instituições europeias, a sociedade indígena é automaticamente classificada como caótica, "sem conta, nem peso, nem medida"
  • Síntese: o texto não comprova nada sobre os indígenas em si — comprova o filtro cultural do observador português. Gândavo mede a sociedade indígena com a régua europeia e, por não encontrar equivalentes diretos, declara-a desordenada, evidenciando que ele não compreende (nem busca compreender) a lógica sociocultural própria daqueles povos

Passo 4 — Resolução Completa (Passo a Passo)

Subpasso 4.1 — Identificar o núcleo do julgamento do cronista

Gândavo constrói um argumento por associação simbólica: como as línguas indígenas não usam os fonemas F, L, R, ele conclui que os falantes carecem também do que essas letras "iniciam" em português — Fé, Lei, Rei. É um raciocínio etnocêntrico clássico: usa como critério de julgamento os próprios parâmetros culturais (religião católica, ordenamento jurídico escrito, monarquia) para avaliar uma sociedade organizada de modo completamente distinto, sem cogitar que ela possa ter ordem própria.

Subpasso 4.2 — Reconhecer o que o texto NÃO permite afirmar

O relato não é evidência de que os indígenas fossem de fato "simples" (alternativa A), nem descreve uma ação concreta de dominação política, como trabalho compulsório ou catequese (alternativa B), nem estabelece uma comparação técnica capaz de comprovar "superioridade" europeia (alternativa C) — é uma crença do cronista, não um fato demonstrado por evidências. Também não trata da dificuldade dos portugueses em aprender o idioma indígena (alternativa E); o texto fala das características da língua indígena e do julgamento moral sobre seus falantes, não da capacidade linguística portuguesa.

Subpasso 4.3 — Verificação

O verbo do comando é "demonstra". A única leitura sustentada pelo próprio texto é: o cronista, ao interpretar uma característica fonética como ausência de fé, lei e rei, revela que aplica categorias exclusivamente europeias a uma realidade sociocultural diferente, sem capacidade de compreendê-la em seus próprios termos — ou seja, incompreensão dos valores socioculturais indígenas pelos portugueses. Isso corresponde exatamente à alternativa D.

Passo 5 — Análise Crítica de Todas as Alternativas

A) simplicidade da organização social das tribos brasileiras.

❌ Incorreta: toma como fato objetivo aquilo que é apenas a interpretação do cronista. O texto não comprova simplicidade social indígena; comprova o julgamento distorcido do observador europeu, que não reconhece formas de organização diferentes das suas.

B) dominação portuguesa imposta aos índios no início da colonização.

❌ Incorreta: o trecho é um relato de observação e opinião sobre a língua, não descreve mecanismos concretos de dominação política ou econômica; dominação é processo de ação (conquista, trabalho, catequese), ausente neste excerto específico.

C) superioridade da sociedade europeia em relação à sociedade indígena.

❌ Incorreta: o texto expressa a crença do cronista em sua própria superioridade cultural, mas não a demonstra de fato — a alternativa trata como verdade objetiva algo que é apenas ponto de vista etnocêntrico do autor, não um dado comprovado.

D) incompreensão dos valores socioculturais indígenas pelos portugueses.

✅ Correta: o cronista interpreta uma diferença linguística como ausência de fé, lei e rei, avaliando os indígenas por parâmetros exclusivamente europeus. Isso expõe sua incapacidade — e a de sua cultura — de compreender a organização social e cultural indígena em seus próprios termos.

E) dificuldade experimentada pelos portugueses no aprendizado da língua nativa.

❌ Incorreta: o texto trata das características da língua indígena e do julgamento moral do cronista sobre seus falantes, não do processo de aprendizado do idioma pelos colonizadores portugueses.

🏆 Gabarito: D — o excerto evidencia que Gândavo julga a sociedade indígena a partir de categorias exclusivamente europeias (fé católica, lei escrita, monarquia), demonstrando incompreensão dos valores socioculturais próprios dos povos indígenas.

Passo 6 — Conclusão, Generalização e Dica de Prova

  • Reafirmação do gabarito: D é a única alternativa que descreve o que o texto de fato demonstra — um julgamento distorcido por incompreensão cultural — sem extrapolar para afirmações que o excerto não sustenta, como simplicidade, dominação, superioridade comprovada ou dificuldade linguística.
  • Padrão de cobrança: o ENEM recorrentemente usa crônicas e cartas de viajantes e colonizadores (Caminha, Gândavo, Staden, Léry) para testar a leitura crítica de fontes primárias e o reconhecimento do etnocentrismo europeu no contato com povos indígenas e africanos.
  • Generalização: sempre que um texto-fonte colonial "julgar" um povo por não ter algo tipicamente europeu (fé, lei, escrita, vestuário, moeda), a resposta correta tende a apontar para etnocentrismo ou incompreensão cultural, e não para uma verdade objetiva sobre o povo julgado.
  • Dica de eliminação rápida: descarte alternativas que tratam a opinião do cronista como fato comprovado (A, C) e as que introduzem elementos ausentes do texto, como ação política de dominação ou aprendizado de idioma (B, E); sobra a alternativa que fala em "incompreensão" ou "julgamento", quase sempre a correta nesse tipo de questão.
  • Conexões: a carta de Pero Vaz de Caminha sobre os indígenas; o conceito de relativismo cultural em Antropologia; o etnocentrismo europeu na expansão marítima e no processo de colonização da África e da América.

Comunidade Memorize · Grátis

Não perca nenhuma live, aula ou material.

Entre na comunidade do WhatsApp e receba os avisos de tudo que a equipe Memorize lança de graça — direto no seu celular.