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Mapa de questões · 1º dia
NaturezaBiologiaMédio

Questão 54ENEM 2015Caderno azul · 1º Dia

Um importante princípio da biologia, relacionado à transmissão de caracteres e à embriogênese humana, foi quebrado com a descoberta do microquimerismo fetal. Microquimerismo é o nome dado ao fenômeno biológico referente a uma pequena população de células ou DNA presente em um indivíduo, mas derivada de um organismo geneticamente distinto. Investigando-se a presença do cromossomo Y, foi revelado que diversos tecidos de mulheres continham células masculinas. A análise do histórico médico revelou uma correlação extremamente curiosa: apenas as mulheres que antes tiveram filhos homens apresentaram microquimerismo masculino. Essa correlação levou à interpretação de que existe uma troca natural entre células do feto e maternas durante a gravidez.

MUOTRI, A. Você não é só você: carregamos células maternas na maioria de nossos órgãos. Disponível em: http://g1.globo.com. Acesso em: 4 dez. 2012 (adaptado).

O princípio contestado com essa descoberta, relacionado ao desenvolvimento do corpo humano, é o de que

Alternativas

Resolução

Ficha da Questão

  • 📚 Matérias Necessárias: Biologia → Embriologia (formação do zigoto e mitose) e Genética (herança e origem celular)
  • ⚡ Nível: Médio — não exige cálculo, mas exige interpretar um texto de divulgação científica e conectá-lo a um conceito abstrato de embriogênese.
  • 🎯 Tema/Habilidade: Origem das células do corpo humano a partir de um único zigoto; interpretação de fenômenos biológicos relatados em textos jornalísticos/científicos.
  • 🏆 Gabarito: E — revelado após resolução completa

Passo 1 — Leitura Estratégica do Comando

  • Comando reformulado: "Qual princípio biológico sobre a origem das células do corpo humano é contrariado pela existência do microquimerismo fetal?"
  • Palavras-chave decisivas: microquimerismo, cromossomo Y em mulheres, organismo geneticamente distinto
  • Armadilha típica: o aluno lê "troca entre células do feto e maternas" e associa automaticamente ao DNA mitocondrial (que também é de herança materna), marcando a alternativa D por parecer "mais técnica" — mas o fenômeno descrito não tem relação com mitocôndrias.
  • O que a resposta precisa demonstrar: identificar que a presença de células com genoma diferente do da própria pessoa quebra a ideia de que o corpo inteiro vem de uma única célula-ovo.

Passo 2 — Mapa de Conceitos Essenciais

  • Zigoto e mitose: o zigoto é a célula-ovo formada pela fusão do espermatozoide com o óvulo. Por sucessivas divisões mitóticas, ele origina todas as células do corpo, que carregam, em tese, o mesmo genoma do zigoto original.
  • Microquimerismo: presença de uma pequena população de células (ou fragmentos de DNA) num organismo, mas provenientes de outro indivíduo geneticamente distinto — como uma "quimera" biológica em escala reduzida.
  • Cromossomo Y como marcador genético: só indivíduos do sexo masculino (XY) possuem cromossomo Y. Encontrá-lo em células de uma mulher (XX) é prova definitiva de que aquela célula não pertence ao genoma dela.
  • Tráfego materno-fetal: na gestação, uma pequena quantidade de células fetais atravessa a placenta e se instala em tecidos maternos (medula óssea, fígado, cérebro, pele), podendo persistir por décadas após o parto.

Passo 3 — Decodificação do Enunciado

  • Evidência 1: "diversos tecidos de mulheres continham células masculinas" → revela a presença de DNA/cromossomo Y em um corpo geneticamente feminino, ou seja, células de origem genética diferente da própria mulher.
  • Evidência 2: "apenas as mulheres que antes tiveram filhos homens apresentaram microquimerismo masculino" → fecha a cadeia causal: essas células vieram do feto masculino durante a gravidez, não são um artefato ou mutação da própria mulher.
  • Síntese: se uma mulher XX possui células XY circulando e fixadas em seus órgãos, nem toda célula do corpo dela pode ter se originado do seu próprio zigoto — há, literalmente, um segundo genoma (de outro zigoto, o do filho) presente em seus tecidos.

Passo 4 — Resolução Completa (Passo a Passo)

Subpasso 4.1 — Relembrando o princípio clássico da embriogênese

Na embriologia tradicional, um novo ser humano começa na fecundação: um espermatozoide fecunda um óvulo e forma o zigoto, uma única célula diploide (2n) que contém toda a informação genética do futuro indivíduo. O zigoto se divide por mitose repetidamente e, como a mitose gera células-filhas geneticamente idênticas à célula-mãe, todas as células somáticas de uma pessoa — pele, sangue, cérebro, fígado — deveriam compartilhar exatamente o mesmo genoma: o do zigoto que a originou. Esse é o princípio da unicidade genética (origem monoclonal) do organismo.

Subpasso 4.2 — Interpretando a descoberta do microquimerismo fetal

O texto relata que pesquisadores encontraram células com cromossomo Y em tecidos de mulheres adultas. Como o cromossomo Y não existe no genoma de nenhuma célula legitimamente originada do zigoto XX dessas mulheres, essas células só podem ter uma origem: vieram de outro organismo. A correlação estatística apresentada — só mulheres que tiveram filhos homens apresentam esse achado — confirma que a fonte é o próprio feto: durante a gestação, células fetais migram pela placenta e se instalam de forma duradoura em órgãos maternos.

Subpasso 4.3 — Verificação: qual princípio foi quebrado

Logo, o corpo dessa mulher deixa de ser composto exclusivamente por descendentes mitóticos do seu próprio zigoto: uma fração de suas células é geneticamente idêntica à do filho, ou seja, deriva de um zigoto diferente. O princípio quebrado é a ideia de que "as nossas células corporais provêm de um único zigoto". Confrontando essa conclusão com as cinco alternativas, apenas uma enuncia esse princípio de forma direta e correta.

Passo 5 — Análise Crítica de Todas as Alternativas

A) o fenótipo das nossas células pode mudar por influência do meio ambiente.

❌ Incorreta: descreveria plasticidade fenotípica ou regulação epigenética (genes que se expressam de modo diferente conforme estímulos ambientais), fenômeno que não tem relação com a presença de células de outro indivíduo. O texto não fala em mudança de expressão gênica, e sim na existência física de células estranhas ao corpo.

B) a dominância genética determina a expressão de alguns genes.

❌ Incorreta: dominância é um conceito da genética mendeliana, que trata da relação entre alelos de um mesmo gene dentro do mesmo genoma. O microquimerismo não envolve alelos dominantes ou recessivos — envolve a coexistência de dois genomas inteiros (mãe e filho) em um só corpo.

C) as mutações genéticas introduzem variabilidade no genoma.

❌ Incorreta: mutação é uma alteração espontânea ou induzida no próprio DNA de uma célula, criando variação dentro do genoma daquele indivíduo. As células masculinas encontradas nas mulheres não são mutações de células femininas — são células de um organismo geneticamente distinto (o filho) desde a origem, sem erro de replicação envolvido.

D) as mitocôndrias e o seu DNA provêm do gameta materno.

❌ Incorreta: é a alternativa "isca". É verdade que, na fecundação, quase todas as mitocôndrias do zigoto vêm do óvulo (herança mitocondrial materna), pois o espermatozoide contribui basicamente com material nuclear. Mas esse princípio é verdadeiro e não é questionado pelo texto — o microquimerismo trata de células inteiras (com núcleo e cromossomo Y) migrando do feto para a mãe, não da origem materna das mitocôndrias.

E) as nossas células corporais provêm de um único zigoto.

✅ Correta: é exatamente o princípio contestado. A visão clássica afirma que todas as células de um indivíduo se originam, por mitoses sucessivas, de um único zigoto, compartilhando o mesmo genoma. A descoberta de células com cromossomo Y em mulheres (geneticamente XX) prova que uma pequena fração das células do corpo pode vir de outro zigoto — o do filho —, invalidando a ideia de origem celular exclusivamente única.

🏆 Gabarito: E — o microquimerismo fetal demonstra que nem todas as células do corpo humano derivam de um único zigoto, já que células de um organismo geneticamente distinto (o feto) podem migrar e permanecer nos tecidos maternos.

Passo 6 — Conclusão, Generalização e Dica de Prova

  • Reafirmação do gabarito: a letra E é a única alternativa que enuncia o dogma da "origem zigótica única" do corpo — precisamente o que a presença de células XY em um corpo XX invalida.
  • Padrão de cobrança: o ENEM frequentemente traz biologia por meio de reportagens ou textos de divulgação científica, exigindo que o estudante extraia o conceito central por trás do fenômeno relatado, em vez de decorar terminologia.
  • Generalização: quando uma questão apresentar "uma descoberta que quebra um dogma científico", identifique primeiro o dogma clássico envolvido (aqui: um corpo = um zigoto = um genoma) e busque a alternativa que o descreve com exatidão.
  • Dica de eliminação rápida: descarte alternativas de genética mendeliana isolada (dominância, mutação) que não tratam de origem celular compartilhada; entre as restantes, desconfie da opção biologicamente verdadeira mas fora de contexto (aqui, a herança mitocondrial) — ela costuma ser a armadilha mais sofisticada da questão.
  • Conexões: transplantes de órgãos e rejeição imunológica (reconhecimento de "próprio" versus "não-próprio" pelo sistema imune) e o conceito de quimeras biológicas na natureza.

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