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Mapa de questões · 1º dia
HumanasFilosofiaFácil

Questão 26ENEM 2015Caderno azul · 1º Dia

A natureza fez os homens tão iguais, quanto às faculdades do corpo e do espírito, que, embora por vezes se encontre um homem manifestamente mais forte de corpo, ou de espírito mais vivo do que outro, mesmo assim, quando se considera tudo isto em conjunto, a diferença entre um e outro homem não é suficientemente considerável para que um deles possa com base nela reclamar algum benefício a que outro não possa igualmente aspirar.

Para Hobbes, antes da constituição da sociedade civil, quando dois homens desejavam o mesmo objeto, eles

Alternativas

Resolução

Ficha da Questão

  • 📚 Matérias Necessárias: Filosofia → Filosofia Política Moderna (Contratualismo de Thomas Hobbes)
  • ⚡ Nível: Fácil — a questão pede apenas o reconhecimento direto do conceito central de Hobbes (estado de natureza como guerra de todos contra todos), sem exigir articulação com outros autores.
  • 🎯 Tema/Habilidade: Estado de natureza hobbesiano e origem do conflito humano — competência de leitura filosófica e reconhecimento de fundamentos das relações de poder (H10/C4 do ENEM).
  • 🏆 Gabarito: A — revelado após resolução completa

Passo 1 — Leitura Estratégica do Comando

  • Comando reformulado: "Segundo Hobbes, o que acontecia quando dois homens, no estado de natureza (antes da sociedade civil), desejavam o mesmo objeto?"
  • Palavras-chave decisivas: antes da sociedade civil, mesmo objeto, igualdade de faculdades
  • Armadilha típica: o candidato lembra vagamente que Hobbes fala em "instituições" e associa a cena a mediadores (clérigos, anciãos, governantes) — mas esses mediadores só existem depois que o Estado (o Leviatã) é criado. Antes dele não existe autoridade nenhuma para arbitrar disputas.
  • O que a resposta precisa demonstrar: compreensão de que, no estado de natureza hobbesiano, a ausência de um poder comum transforma a igualdade natural em fonte de rivalidade e conflito direto entre os indivíduos.

Passo 2 — Mapa de Conceitos Essenciais

  • Estado de natureza: condição hipotética anterior à sociedade civil, sem governo, lei ou autoridade capaz de impor regras aos indivíduos.
  • Igualdade natural (em Hobbes): todos os homens são suficientemente parecidos em força e inteligência para que ninguém se imponha de forma definitiva sobre o outro — essa igualdade gera insegurança mútua, não harmonia.
  • Guerra de todos contra todos (bellum omnium contra omnes): consequência da igualdade natural somada à escassez de bens: quando dois homens querem a mesma coisa e não podem tê-la ambos, tornam-se inimigos e buscam se destruir ou subjugar mutuamente.
  • Contrato social e Leviatã: só depois de perceber os perigos dessa guerra constante os homens decidem transferir seus direitos naturais a um soberano absoluto, criando a sociedade civil e, com ela, leis e autoridades capazes de arbitrar conflitos.

Passo 3 — Decodificação do Enunciado

  • Evidência 1: "A natureza fez os homens tão iguais, quanto às faculdades do corpo e do espírito [...] a diferença [...] não é suficientemente considerável para que um deles possa [...] reclamar algum benefício a que outro não possa igualmente aspirar." → Hobbes estabelece a premissa da igualdade natural: ninguém é tão superior ao outro a ponto de vencer uma disputa com facilidade ou de ter direito reconhecido sobre algo que o outro também deseja.
  • Evidência 2: "Para Hobbes, antes da constituição da sociedade civil..." → o enunciado marca explicitamente que a cena descrita ocorre no estado de natureza, período em que não existe nenhuma instância de mediação — nem Igreja, nem tradição, nem Estado.
  • Síntese: se todos são iguais em capacidade e não há nenhuma autoridade externa para decidir quem tem direito a um bem escasso, a lógica hobbesiana é implacável: a disputa só pode ser resolvida pela força, isto é, pelo conflito direto entre os dois homens.

Passo 4 — Resolução Completa (Passo a Passo)

Subpasso 4.1 — Reconstituir o raciocínio de Hobbes a partir da igualdade natural

Hobbes parte de uma constatação empírica: fisicamente e intelectualmente, os seres humanos não diferem tanto assim entre si — mesmo o mais fraco pode matar o mais forte por astúcia, aliança ou traição. Essa igualdade não gera paz, gera o oposto: como todos têm chances semelhantes de conseguir o que desejam, todos se tornam concorrentes em potencial por qualquer bem escasso (comida, terra, prestígio, segurança).

Subpasso 4.2 — Aplicar a lógica ao caso de dois homens que desejam o mesmo objeto

No estado de natureza não existe propriedade reconhecida, lei positiva nem poder comum que arbitre "de quem é o quê". Se dois homens iguais em capacidade desejam o mesmo objeto e ele não pode ser dividido, cada um tenta obtê-lo pelos próprios meios. Como nenhum reconhece autoridade superior ao outro, e cada um julga seu desejo legítimo, o resultado inevitável é que "se tornam inimigos" e buscam "se destruir ou subjugar" — em suma, entram em conflito direto.

Subpasso 4.3 — Verificação

Esse raciocínio é o núcleo do capítulo XIII do Leviatã, onde Hobbes descreve o estado de natureza como "guerra de todos contra todos" (bellum omnium contra omnes) e resume a condição humana nesse estágio como uma vida "solitária, pobre, sórdida, embrutecida e curta". A saída racional para esse impasse é o pacto que funda o Estado — mas isso é posterior ao cenário descrito na questão. Logo, a alternativa que descreve corretamente o comportamento dos dois homens antes da sociedade civil é a que menciona conflito, confirmando a letra A.

Passo 5 — Análise Crítica de Todas as Alternativas

A) entravam em conflito.

✅ Correta: é exatamente a consequência lógica que Hobbes extrai da igualdade natural somada à ausência de poder comum — sem árbitro externo e sem lei, a disputa por um mesmo objeto só se resolve pela força, gerando o conflito que caracteriza o estado de natureza.

B) recorriam aos clérigos.

❌ Incorreta: pressupõe a existência de uma instituição religiosa organizada com autoridade reconhecida por ambas as partes — algo que só pode existir dentro de uma sociedade já constituída, com hierarquias e normas compartilhadas. No estado de natureza hobbesiano não há Igreja com poder de arbitragem, pois nenhuma instituição social ainda foi formada.

C) consultavam os anciãos.

❌ Incorreta: comete o mesmo erro conceitual da alternativa B — trata os anciãos como uma autoridade moral reconhecida coletivamente, o que exige uma organização social prévia baseada em costume e tradição compartilhados. Hobbes descreve o estado de natureza justamente como o momento anterior a qualquer estrutura social desse tipo.

D) apelavam aos governantes.

❌ Incorreta: é a inversão cronológica mais tentadora do texto, pois "governantes" remete diretamente ao Leviatã — mas o soberano só passa a existir depois do contrato social, que é a solução que os homens criam justamente para escapar da guerra de todos contra todos. Antes da sociedade civil não há governante algum a quem apelar.

E) exerciam a solidariedade.

❌ Incorreta: contraria frontalmente a tese de Hobbes, que é célebre exatamente por rejeitar qualquer visão idealizada de bondade natural (como a de Rousseau, mais tarde). Para Hobbes, a igualdade de faculdades não aproxima os homens em cooperação espontânea — ao contrário, alimenta a desconfiança mútua e o confronto.

🏆 Gabarito: A — no estado de natureza hobbesiano, a igualdade natural entre os homens, combinada à ausência de qualquer poder comum, transforma o desejo compartilhado por um mesmo objeto em conflito direto entre os indivíduos.

Passo 6 — Conclusão, Generalização e Dica de Prova

  • Reafirmação do gabarito: a letra A é a única alternativa compatível com a premissa do próprio texto: sem instituições, sem lei e sem autoridade reconhecida, a disputa por bens escassos só pode ser resolvida pela força entre os próprios indivíduos.
  • Padrão de cobrança: o ENEM recorrentemente cobra o contraste entre os contratualistas (Hobbes, Locke e Rousseau) a partir de trechos originais ou paráfrases do Leviatã, do Segundo Tratado sobre o Governo e do Contrato Social — sempre testando se o candidato reconhece a visão específica de cada autor sobre o estado de natureza e a origem do Estado.
  • Generalização: toda vez que uma questão descrever uma situação "antes da sociedade civil" ou "no estado de natureza" atribuída a Hobbes, a resposta correta tende a envolver conflito, guerra, medo ou insegurança — nunca cooperação espontânea, mediação institucional ou autoridade reconhecida.
  • Dica de eliminação rápida: basta perguntar "essa opção pressupõe alguma instituição (Igreja, tradição, governo)?" — se a resposta for sim, a alternativa está automaticamente eliminada, pois instituições só existem depois da sociedade civil ser formada. Isso elimina B, C e D de imediato, restando apenas a escolha entre conflito (A) e solidariedade (E), que se resolve lembrando que Hobbes é o filósofo do pessimismo antropológico, não do otimismo.
  • Conexões: compare com Rousseau, para quem o homem no estado de natureza é o "bom selvagem" pacífico corrompido pela sociedade, e com Locke, para quem o estado de natureza já contém uma lei natural mínima que preserva certa ordem — contrastes fundamentais para diferenciar os três grandes contratualistas em provas de Filosofia Política.

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