Mapa de questões · 1º dia
Questão 41 — ENEM 2015Caderno azul · 1º Dia
Diante de ameaças surgidas com a engenharia genética de alimentos, vários grupos da sociedade civil conceberam o chamado “princípio da precaução”. O fundamento desse princípio é: quando uma tecnologia ou produto comporta alguma ameaça à saúde ou ao ambiente, ainda que não se possa avaliar a natureza precisa ou a magnitude do dano que venha a ser causado por eles, deve-se evitá-los ou deixá-los de quarentena para maiores estudos e avaliações antes de sua liberação.
O texto expõe uma tendência representativa do pensamento social contemporâneo, na qual o desenvolvimento de mecanismos de acautelamento ou administração de riscos tem como objetivo
Alternativas
Resolução
Ficha da Questão
- 📚 Matérias Necessárias: Sociologia → Ciência, tecnologia e sociedade de risco
- ⚡ Nível: Médio — a dificuldade não está em decorar um conceito, mas em não confundir "precaução" com "rejeição" da tecnologia ao interpretar o texto.
- 🎯 Tema/Habilidade: Princípio da precaução e gestão social do risco tecnológico; compreensão de mecanismos contemporâneos de regulação da ciência a partir da leitura crítica de um texto dissertativo.
- 🏆 Gabarito: C — revelado após resolução completa
Passo 1 — Leitura Estratégica do Comando
- Comando reformulado: "Qual é a finalidade social dos mecanismos de precaução e administração de riscos diante de novas tecnologias?"
- Palavras-chave decisivas: princípio da precaução, acautelamento, administração de riscos
- Armadilha típica: ler os verbos "evitá-los" e "quarentena" como sinônimos de proibição definitiva e marcar as alternativas que falam em "combater" ou "negar" a tecnologia (B e D).
- O que a resposta precisa demonstrar: que o candidato entende que o princípio da precaução não é recusa da ciência, mas um mecanismo de gestão coletiva e pública da incerteza sobre riscos.
Passo 2 — Mapa de Conceitos Essenciais
- Princípio da precaução: diretriz surgida em debates ambientais internacionais (consolidada, por exemplo, na Rio-92) que orienta cautela sempre que uma tecnologia apresenta risco potencial à saúde ou ao ambiente, mesmo sem certeza científica plena sobre a magnitude do dano.
- Sociedade de risco: conceito da sociologia contemporânea (associado a Ulrich Beck) segundo o qual a sociedade industrial avançada passou a produzir riscos "fabricados" — nucleares, genéticos, climáticos — que escapam ao cálculo tradicional de probabilidade e exigem novas formas de administração social.
- Esfera pública e deliberação: diante da incerteza científica, decisões técnicas deixam de ser assunto exclusivo de especialistas e passam a demandar debate aberto e participação da sociedade civil antes da liberação de uma tecnologia.
Passo 3 — Decodificação do Enunciado
- Evidência 1: "ainda que não se possa avaliar a natureza precisa ou a magnitude do dano" → mostra que o princípio atua justamente na zona de incerteza científica, e não na negação da ciência — a ciência segue sendo o instrumento usado para investigar o risco.
- Evidência 2: "deixá-los de quarentena para maiores estudos e avaliações antes de sua liberação" → "quarentena para estudos e avaliações" indica um processo temporário de investigação e deliberação, não uma proibição permanente ou um combate à tecnologia em si.
- Síntese: o texto descreve uma lógica de "pausa para discutir e avaliar", não de "não" categórico à ciência. Essa lógica de pausa deliberativa é o elo que conecta o princípio da precaução à ideia de diálogo público sobre os riscos tecnológicos.
Passo 4 — Resolução Completa (Passo a Passo)
Subpasso 4.1 — Identificar o núcleo do princípio da precaução
O enunciado define o mecanismo com clareza: diante de uma ameaça cuja extensão não é totalmente conhecida, a sociedade civil propõe evitar ou suspender temporariamente o uso da tecnologia até que estudos mais aprofundados sejam realizados. O verbo-chave é "avaliar" — o princípio não descarta a tecnologia de antemão, mas cria um intervalo de investigação e discussão coletiva antes de qualquer liberação.
Subpasso 4.2 — Relacionar o mecanismo com a função social da administração de riscos
Grupos da sociedade civil, ao formularem esse princípio, reivindicam que decisões sobre tecnologias de impacto coletivo — como alimentos geneticamente modificados — não fiquem restritas a laboratórios, empresas ou órgãos reguladores fechados. Ao propor "quarentena para maiores estudos e avaliações", o texto sugere um processo público de escrutínio, em que a sociedade é chamada a acompanhar, questionar e participar das decisões sobre o que será ou não liberado — a própria essência de instituir diálogo público sobre mudanças tecnológicas e suas consequências.
Subpasso 4.3 — Verificação
Confrontando essa leitura com as cinco alternativas, apenas uma descreve com precisão esse objetivo: abrir espaço de debate coletivo sobre os efeitos da tecnologia antes de sua adoção definitiva — sem negar a ciência (elimina B), sem visar interesses econômicos (elimina A), sem combater a tecnologia por princípio (elimina D) e sem romper o equilíbrio entre riscos e benefícios, já que o objetivo é ponderar esse equilíbrio com mais informação (elimina E). A alternativa C é a única compatível com o raciocínio construído.
Passo 5 — Análise Crítica de Todas as Alternativas
A) priorizar os interesses econômicos em relação aos seres humanos e à natureza.
❌ Incorreta: o princípio nasce do movimento oposto — a sociedade civil o propõe para proteger saúde e ambiente diante de tecnologias movidas por interesses comerciais, não para favorecê-los.
B) negar a perspectiva científica e suas conquistas por causa de riscos ecológicos.
❌ Incorreta: o texto não propõe abandonar a ciência, mas usar mais ciência — "maiores estudos e avaliações" — antes da liberação do produto. É um uso mais cauteloso do método científico, não sua negação.
C) instituir o diálogo público sobre mudanças tecnológicas e suas consequências.
✅ Correta: a "quarentena para estudos e avaliações" cria um intervalo social e público de discussão sobre os riscos, retirando a decisão do círculo fechado de especialistas e empresas e abrindo-a ao debate coletivo antes da adoção da tecnologia.
D) combater a introdução de tecnologias para travar o curso das mudanças sociais.
❌ Incorreta: o objetivo não é impedir mudanças tecnológicas em si, mas condicioná-las a uma avaliação prévia de riscos; travar mudanças por princípio seria postura conservadora, não deliberativa, e não corresponde ao texto.
E) romper o equilíbrio entre benefícios e riscos do avanço tecnológico e científico.
❌ Incorreta: o princípio busca preservar ou reequilibrar essa relação diante de riscos incertos, não rompê-la; avaliar a magnitude do dano pressupõe manter um equilíbrio ponderado, não destruí-lo.
🏆 Gabarito: C — os mecanismos de acautelamento descritos no texto visam abrir um espaço público de discussão e avaliação sobre os riscos tecnológicos antes de sua liberação definitiva, e não rejeitar a ciência, privilegiar interesses econômicos ou bloquear mudanças sociais.
Passo 6 — Conclusão, Generalização e Dica de Prova
- Reafirmação do gabarito: a única alternativa que descreve corretamente o objetivo do princípio da precaução — abrir debate social sobre riscos tecnológicos antes de decisões definitivas — é a C; as demais atribuem ao princípio uma postura de rejeição, interesse econômico ou ruptura que o texto não sustenta.
- Padrão de cobrança: o ENEM traz com frequência textos de Sociologia sobre ciência, tecnologia e risco ("sociedade de risco", transgênicos, mudanças climáticas, energia nuclear), testando se o candidato distingue "gestão crítica e democrática do risco" de "negação cega da ciência" ou "aceitação cega do progresso".
- Generalização: em questões sobre regulação de tecnologia e sociedade civil, a resposta correta quase sempre valoriza participação, debate público e ponderação — raramente extremos como "proibir tudo" ou "liberar tudo sem crítica".
- Dica de eliminação rápida: descarte alternativas com verbos radicais como "negar", "combater" ou "romper" quando o texto-base fala em "avaliar", "estudar" ou "quarentena temporária" — sinal de que a banca busca uma resposta de equilíbrio e diálogo, não de confronto.
- Conexões: o tema dialoga com debates sobre transgênicos, mudanças climáticas e bioética, além do conceito sociológico de "sociedade de risco" e da relação entre ciência, poder e participação democrática.
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