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Mapa de questões · 1º dia
HumanasHistóriaMédio

Questão 20ENEM 2015Caderno azul · 1º Dia

Bandeira do Brasil, és hoje a única. Hasteada a esta hora em todo o território nacional, única e só, não há lugar no coração do Brasil para outras flâmulas, outras bandeiras, outros símbolos. Os brasileiros se reuniram em torno do Brasil e decretaram desta vez com determinação de não consentir que a discórdia volte novamente a dividi-lo!

Discurso do Ministro da Justiça Francisco Campos na cerimônia da festa da bandeira, em novembro de 1937. Apud OLIVEN, G. R. A parte e o todo: a diversidade cultural do Brasil Nação. Petrópolis: Vozes, 1992.

O discurso proferido em uma celebração em que as bandeiras estaduais eram queimadas diante da bandeira nacional revela o pacto nacional proposto pelo Estado Novo, que se associa à

Alternativas

Resolução

Ficha da Questão

  • 📚 Matérias Necessárias: História → Era Vargas, especificamente o Estado Novo (1937-1945)
  • ⚡ Nível: Médio — o texto por si só é simples, mas exige do candidato distinguir "defesa da unidade nacional" (aparência do discurso) de "centralização autoritária" (conteúdo real do projeto político), evitando a armadilha de confundir regionalismo político com separatismo territorial.
  • 🎯 Tema/Habilidade: Autoritarismo e centralização política no Estado Novo; habilidade de ler uma fonte primária (discurso oficial) e associá-la ao processo histórico que ela expressa.
  • 🏆 Gabarito: C — revelado após resolução completa

Passo 1 — Leitura Estratégica do Comando

  • Comando reformulado: "A que projeto político do Estado Novo se associa o discurso proferido durante a queima simbólica das bandeiras estaduais?"
  • Palavras-chave decisivas: "única", "não há lugar... para outras... bandeiras", "não consentir que a discórdia volte a dividi-lo"
  • Armadilha típica: confundir a retórica de "unidade nacional" com defesa contra um separatismo real (movimentos que buscavam a secessão de estados) — não é isso que está em jogo no texto, e sim o combate ao pluralismo político regional (oligarquias, forças estaduais, autonomia dos governos locais).
  • O que a resposta precisa demonstrar: que o gesto de queimar as bandeiras estaduais diante da bandeira nacional é um ato performático de um regime que elimina a diversidade política regional em nome de um poder central único — ou seja, é uma prática autoritária, não uma resposta a uma ameaça separatista concreta.

Passo 2 — Mapa de Conceitos Essenciais

  • Estado Novo (1937-1945): ditadura instaurada por Getúlio Vargas em 10 de novembro de 1937, com a outorga da Constituição autoritária (apelidada de "Polaca"), fechamento do Congresso Nacional, extinção dos partidos políticos e forte censura via DIP (Departamento de Imprensa e Propaganda).
  • Interventoria e fim da autonomia estadual: os governadores eleitos foram substituídos por interventores nomeados diretamente por Vargas, encerrando a tradição de poder regional forte que vigorava desde a "política dos governadores" da Primeira República.
  • Nacionalização e culto aos símbolos únicos: o Estado Novo promoveu campanhas de "nacionalização", proibindo símbolos regionais e estrangeiros em espaços públicos, e construiu rituais cívicos (como a queima das bandeiras estaduais) para consolidar uma identidade nacional subordinada ao poder central.
  • Federalismo x centralismo: federalismo é a repartição de poder entre União e estados, com autonomia política regional (como no modelo dos EUA); o Estado Novo fez exatamente o oposto — centralizou o poder político no Executivo federal, esvaziando a autonomia estadual.

Passo 3 — Decodificação do Enunciado

  • Evidência 1: "és hoje a única [...] não há lugar no coração do Brasil para outras flâmulas, outras bandeiras, outros símbolos" → revela a eliminação deliberada da pluralidade de símbolos regionais em favor de um único símbolo nacional, imposto de cima para baixo.
  • Evidência 2: "decretaram [...] com determinação de não consentir que a discórdia volte a dividi-lo" → o verbo "decretar" indica imposição estatal, não consenso democrático; a "discórdia" a que o ministro se refere é justamente a diversidade política regional (as antigas oligarquias estaduais e seus símbolos), tratada como ameaça à ordem.
  • Síntese: o discurso e o ritual da queima das bandeiras estaduais são a encenação simbólica da centralização autoritária do Estado Novo — um regime que trata o regionalismo político como sinônimo de instabilidade e o combate por meio da força e da imposição de um símbolo único.

Passo 4 — Resolução Completa (Passo a Passo)

Subpasso 4.1 — Situar o discurso no tempo

O texto é de novembro de 1937, exatamente o mês do golpe que instaurou o Estado Novo. Vargas cancelou as eleições presidenciais previstas, outorgou uma nova Constituição sem plebiscito e concentrou poderes no Executivo. A "Festa da Bandeira" citada na fonte não é um evento espontâneo: é um ritual cívico organizado pelo próprio regime para consolidar sua narrativa de unidade nacional recém-imposta pela força.

Subpasso 4.2 — Interpretar o ato da queima das bandeiras

Queimar publicamente as bandeiras dos estados diante da bandeira nacional é um gesto com forte carga simbólica: significa apagar visual e ritualmente qualquer identidade política regional que pudesse competir com o poder central. Isso é coerente com as medidas concretas do Estado Novo — fim dos governos estaduais eleitos, nomeação de interventores federais, extinção dos partidos regionais e estaduais que sustentavam as oligarquias locais (como o Partido Republicano Paulista, o Partido Republicano Mineiro etc.).

Subpasso 4.3 — Verificação

Ao comparar a interpretação (regime autoritário eliminando a diversidade política regional em nome de uma unidade imposta) com as cinco alternativas, apenas a opção C descreve exatamente esse mecanismo: "adoção de práticas políticas autoritárias, considerando a contenção dos interesses regionais dispersivos". As demais alternativas ou invertem o sentido histórico (como a B, sobre federalismo) ou introduzem elementos que não constam nem se sustentam no texto (como A, D e E). O resultado confirma a coerência interna da resposta C com o contexto do Estado Novo.

Passo 5 — Análise Crítica de Todas as Alternativas

A) supressão das diferenças socioeconômicas entre as regiões do Brasil, priorizando as regiões estaduais carentes.

❌ Incorreta: o discurso trata de símbolos políticos e unidade nacional, não de política de redistribuição econômica entre regiões. O Estado Novo não teve como marca central "priorizar regiões carentes"; a queima das bandeiras é um ato político-simbólico, não uma medida de equalização socioeconômica.

B) orientação do regime quanto ao reforço do federalismo, espelhando-se na experiência política norte-americana.

❌ Incorreta: é o oposto do que ocorreu. O federalismo pressupõe autonomia política dos estados, e foi exatamente essa autonomia que o Estado Novo aboliu ao substituir governadores eleitos por interventores nomeados por Vargas. O regime caminhou para o centralismo, não para o modelo federalista descentralizado dos Estados Unidos.

C) adoção de práticas políticas autoritárias, considerando a contenção dos interesses regionais dispersivos.

✅ Correta: o discurso e o ritual da queima das bandeiras expressam justamente a lógica autoritária do Estado Novo — impor um símbolo único e "decretar" o fim da discórdia (isto é, da pluralidade política regional) para conter as antigas forças oligárquicas e regionais que, na visão do regime, ameaçavam a centralização do poder.

D) propagação de uma cultura política avessa aos ritos cívicos, cultivados pela cultura regional brasileira.

❌ Incorreta: contradiz o próprio texto-base. A cena descrita — uma cerimônia oficial, com discurso ministerial e hasteamento solene da bandeira — é, ela mesma, um rito cívico, organizado e estimulado pelo Estado Novo para forjar o nacionalismo oficial. O regime não era "avesso" a ritos cívicos; ao contrário, os utilizava intensamente como instrumento de propaganda.

E) defesa da unidade do território nacional, ameaçado por movimentos separatistas contrários à política varguista.

❌ Incorreta: é a armadilha mais sedutora da questão. O texto não menciona nenhum movimento separatista real (que buscasse a secessão de um estado do território nacional); o que está em jogo é o combate à diversidade política regional (oligarquias, símbolos estaduais, autonomia local), e não uma resposta a uma ameaça concreta de fragmentação territorial.

🏆 Gabarito: C — o discurso e o ritual de queima das bandeiras estaduais materializam a centralização autoritária do Estado Novo, que eliminou a autonomia política dos estados e tratou o regionalismo como "discórdia" a ser contida por decreto.

Passo 6 — Conclusão, Generalização e Dica de Prova

  • Reafirmação do gabarito: apenas a alternativa C capta o sentido histórico do Estado Novo como regime autoritário que centralizou o poder e sufocou os interesses políticos regionais — coerente com o vocabulário do próprio discurso ("única", "decretaram", "não consentir").
  • Padrão de cobrança: o ENEM recorrentemente usa fontes primárias (discursos, cartazes, charges) da Era Vargas para testar se o aluno distingue a retórica oficial do regime (unidade, ordem, nação) da prática política real (centralização, censura, repressão às oposições e ao pluralismo regional).
  • Generalização: sempre que um discurso de regime autoritário falar em "unidade" e "fim da discórdia", desconfie — em geral isso é justificativa retórica para a eliminação do pluralismo político (partidos, autonomias regionais, oposições), não uma resposta a uma ameaça externa real.
  • Dica de eliminação rápida: elimine de cara qualquer alternativa que associe o Estado Novo a "reforço do federalismo" (B) ou a "aversão aos ritos cívicos" (D) — são inversões diretas do que o regime fez na prática; depois, desconfie de alternativas que introduzam atores ou motivações (separatismo, questões socioeconômicas regionais) ausentes do texto-fonte, como A e E.
  • Conexões: relacione este tema à Constituição de 1937 ("Polaca"), ao DIP e à propaganda estadonovista, e à substituição dos governadores eleitos por interventores — todos exemplos do mesmo movimento de centralização política estudado nesta questão.

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