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Mapa de questões · 1º dia
HumanasFilosofiaMédio

Questão 34ENEM 2015Caderno azul · 1º Dia

A filosofia grega parece começar com uma ideia absurda, com a proposição: a água é a origem e a matriz de todas as coisas. Será mesmo necessário deter-nos nela e levá-la a sério? Sim, e por três razões: em primeiro lugar, porque essa proposição enuncia algo sobre a origem das coisas; em segundo lugar, porque o faz sem imagem e fabulação; e, enfim, em terceiro lugar, porque nela, embora apenas em estado de crisálida, está contido o pensamento: Tudo é um.

O que, de acordo com Nietzsche, caracteriza o surgimento da filosofia entre os gregos?

Alternativas

Resolução

Ficha da Questão

  • 📚 Matérias Necessárias: Filosofia → Filosofia Antiga (pré-socráticos) e leitura de Nietzsche sobre o nascimento da filosofia grega
  • ⚡ Nível: Médio — exige distinguir, em texto denso, a forma racional do pensamento de Tales daquilo que apenas parece semelhante (metáfora, empirismo)
  • 🎯 Tema/Habilidade: A passagem do mito (mythos) para a razão (logos) como marco do surgimento da filosofia
  • 🏆 Gabarito: C — revelado após resolução completa

Passo 1 — Leitura Estratégica do Comando

  • Comando reformulado: "Segundo Nietzsche, o que torna o pensamento de Tales sobre a água filosófico, e não apenas mais um mito grego?"
  • Palavras-chave decisivas: sem imagem e fabulação, origem das coisas, Tudo é um
  • Armadilha típica: trocar o conteúdo da resposta de Tales (a água, elemento sensível) pela forma de pensamento elogiada por Nietzsche (busca racional pela causa). Isso puxa o candidato para alternativas que falam em "metáfora" ou "elementos empíricos", quando o texto valoriza justamente o oposto.
  • O que a resposta precisa demonstrar: que o nascimento da filosofia está na maneira racional — não fabulosa — de perguntar pela causa primeira de tudo o que existe.

Passo 2 — Mapa de Conceitos Essenciais

  • Mythos x Logos: o mito explica a origem do mundo por narrativas e deuses (Hesíodo); o logos explica por conceitos e causas justificáveis pela razão. A filosofia nasce nessa virada.
  • Arché (ἀρχή): o princípio, origem ou causa primeira de tudo. Tales, o "primeiro filósofo" ocidental, apontou a água como essa arché.
  • Nietzsche e "A Filosofia na Época Trágica dos Gregos": para Nietzsche, o que faz de Tales um filósofo não é o acerto da resposta (a água), e sim o tipo de pergunta: busca racional, sem imagens fabulosas, por um princípio único que explique a totalidade do real.
  • Panta hen ("Tudo é um"): intuição de que, sob a multiplicidade das coisas, há uma unidade originária — gérmen ainda embrionário ("em estado de crisálida") de pensamento racional e unificador.

Passo 3 — Decodificação do Enunciado

  • Evidência 1: "enuncia algo sobre a origem das coisas" → o objeto do pensamento é a causa primeira da totalidade do real, não um fenômeno isolado.
  • Evidência 2: "o faz sem imagem e fabulação" → rompe com a explicação mítica; nenhuma referência a deuses ou narrativas fantásticas.
  • Evidência 3: "está contido o pensamento: Tudo é um" → aponta um princípio único e racional que unifica toda a realidade, não uma simples descrição da água.
  • Síntese: as três razões convergem: a filosofia nasce quando "de onde vêm as coisas?" deixa de ser respondida por fábula e passa a ser respondida pela razão, na busca de uma causa primeira única.

Passo 4 — Resolução Completa (Passo a Passo)

Subpasso 4.1 — Identificar o objeto do texto

O trecho apresenta a proposição de Tales: "a água é a origem e a matriz de todas as coisas". Nietzsche pergunta se ela merece ser "levada a sério" como marco filosófico.

Subpasso 4.2 — Isolar os três motivos dados por Nietzsche

1) A proposição trata da origem das coisas. 2) É formulada sem imagem e fabulação, rompendo com o aparato mítico-religioso das cosmogonias gregas. 3) Contém, embrionariamente, o pensamento "Tudo é um" — a intuição racional de uma unidade por trás da diversidade.

Subpasso 4.3 — Verificação: cruzando com as alternativas

Somados, os três motivos apontam para a substituição da explicação mítica por uma investigação racional da causa primeira (arché) de tudo o que existe — exatamente o conteúdo da alternativa C. Nenhuma outra alternativa reúne simultaneamente origem, racionalidade e ausência de fábula.

Passo 5 — Análise Crítica de Todas as Alternativas

A) O impulso para transformar, mediante justificativas, os elementos sensíveis em verdades racionais.

❌ Incorreta: o texto não descreve um processo de "transformar" a água em verdade absoluta; o foco de Nietzsche está na forma racional da pergunta pela origem, não num processo de justificar sensações como verdades.

B) O desejo de explicar, usando metáforas, a origem dos seres e das coisas.

❌ Incorreta: contraria o texto, que afirma que Tales fala "sem imagem e fabulação". Metáfora e fábula caracterizam o mito, não a filosofia — é a alternativa mais tentadora, por tratar do mesmo tema (origem), mas inverte o critério que distingue filosofia de mitologia.

C) A necessidade de buscar, de forma racional, a causa primeira das coisas existentes.

✅ Correta: sintetiza os três motivos do texto — a proposição versa sobre a origem/causa primeira, é formulada racionalmente (sem imagem e fabulação) e projeta a unidade do real ("Tudo é um") como conclusão desse raciocínio.

D) A ambição de expor, de maneira metódica, as diferenças entre as coisas.

❌ Incorreta: o texto caminha para a unidade ("Tudo é um"), não para o mapeamento de diferenças; não há menção a método classificatório.

E) A tentativa de justificar, a partir de elementos empíricos, o que existe no real.

❌ Incorreta: embora a água seja um elemento sensível, Nietzsche não valoriza a proposição por seu conteúdo empírico, e sim pela forma racional da pergunta pela causa primeira — reduzir o texto a "justificação empírica" ignora os três motivos elencados.

🏆 Gabarito: C — só essa alternativa reúne a busca pela origem/causa primeira, o caráter racional (não fabuloso) dessa busca e a projeção de uma unidade explicativa do real, exatamente como Nietzsche descreve o gesto fundador de Tales.

Passo 6 — Conclusão, Generalização e Dica de Prova

  • Reafirmação do gabarito: só a alternativa C combina os três critérios do texto — origem, racionalidade e ausência de fabulação.
  • Padrão de cobrança: o ENEM recorrentemente cobra a distinção entre mito (mythos) e razão (logos) como marco do nascimento da filosofia grega, a partir de trechos de autores clássicos ou comentadores sobre os pré-socráticos.
  • Generalização: quando um texto contrasta "explicação mítica/fabulosa" com "explicação racional/conceitual", a alternativa correta valoriza o caráter racional e não-imagético do pensamento, mesmo que o conteúdo específico (a água de Tales) pareça ingênuo hoje.
  • Dica de eliminação rápida: elimine de cara qualquer alternativa com "metáfora", "fabulação" ou "imagem" como método (B) — o texto nega esse recurso. Elimine também alternativas sobre "diferenças" ou "classificação" (D), pois o texto caminha para a unidade.
  • Conexões: revise a passagem do mito ao logos em Anaximandro (ápeiron), Heráclito (lógos/devir) e Pitágoras (número) — todos ligados ao conceito de arché na filosofia da natureza (physis) grega.

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