Mapa de questões · 1º dia
Questão 11 — ENEM 2015Caderno azul · 1º Dia

Os calendários são fontes históricas importantes, na medida em que expressam a concepção de tempo das sociedades. Essas imagens compõem um calendário medieval (1460-1475) e cada uma delas representa um mês, de janeiro a dezembro.
Com base na análise do calendário, apreende-se uma concepção de tempo
Alternativas
Resolução
Ficha da Questão
- 📚 Matérias Necessárias: História → Idade Média (concepções de tempo e trabalho na sociedade feudal)
- ⚡ Nível: Médio — exige interpretar uma fonte iconográfica e descartar quatro conceitos históricos "parecidos, mas anacrônicos ou imprecisos"
- 🎯 Tema/Habilidade: Concepções de tempo nas sociedades pré-industriais; leitura de fontes imagéticas medievais (competência de análise de documentos históricos)
- 🏆 Gabarito: D — revelado após resolução completa
Passo 1 — Leitura Estratégica do Comando
- Comando reformulado: "Qual concepção de tempo está representada nas doze cenas do calendário medieval?"
- Palavras-chave decisivas: calendário medieval, cada uma representa um mês, concepção de tempo
- Armadilha típica: confundir "tempo cíclico" (A) com o simples fato de o calendário se repetir todo ano — a alternativa A não fala do ciclo do calendário em si, mas de um "mito arcaico do eterno retorno", conceito religioso específico que a imagem não ilustra
- O que a resposta precisa demonstrar: que o critério organizador das cenas é a natureza — as estações do ano — e não um mito, uma religião, um ideal estético ou uma lógica de controle de jornada de trabalho
Passo 2 — Mapa de Conceitos Essenciais
- "Trabalhos dos meses" (Labors of the Months): tradição iconográfica medieval, típica de livros de horas e manuscritos iluminados (como as Très Riches Heures du Duc de Berry), em que cada mês do ano é ilustrado por uma atividade agrícola ou rural típica daquela época do ano.
- Sociedade feudal e ritmo agrário: na Idade Média europeia, a vida econômica gira em torno da agricultura de subsistência; o calendário camponês não é medido por relógios mecânicos, mas pelo ciclo solar, pelas colheitas e pelas festas religiosas atreladas às estações.
- Tempo "natural" x tempo "mecânico": historiadores (como Jacques Le Goff) distinguem o "tempo da Igreja" e o "tempo do camponês" — ambos regulados por fenômenos naturais (sol, estações, safras) — do "tempo do mercador/relógio", que só se consolida mais tarde, com o comércio urbano e, depois, a industrialização.
Passo 3 — Decodificação do Enunciado
- Evidência 1 (texto): "cada uma delas representa um mês, de janeiro a dezembro" → confirma que a lógica de organização da imagem é o calendário anual, mês a mês.
- Evidência 2 (imagem): os doze painéis mostram, em sequência, cenas de semeadura, poda e cuidado da vinha, pastoreio de ovelhas, um nobre a cavalo, o corte de feno com foice, a colheita/debulha do trigo, novamente semeadura, lavagem de roupa em tina, pastoreio com cães e uma cena de caça → cada atividade retratada corresponde a uma tarefa rural própria de determinada época do ano (plantio no outono, poda no inverno, feno e colheita no verão, etc.).
- Síntese: o calendário não narra um mito de origem, não trata de salvação ou punição divina, nem mostra o trabalhador controlando seu próprio relógio — ele organiza o tempo a partir do que a terra e as estações exigem em cada momento do ano, isto é, uma concepção natural de tempo.
Passo 4 — Resolução Completa (Passo a Passo)
Subpasso 4.1 — Identificar o critério de organização das imagens
As doze cenas seguem estritamente a sequência de janeiro a dezembro, e cada uma ilustra uma tarefa agrícola ou pastoril específica: lançar sementes na terra, podar a vinha, cuidar do rebanho, colher feno, ceifar trigo, debulhar grãos, lavar roupas, caçar. Esse conjunto de atividades não é aleatório — ele reproduz o calendário agrícola europeu, no qual cada mês exige um trabalho diferente conforme o clima e o estágio da plantação.
Subpasso 4.2 — Relacionar a imagem ao conceito histórico de tempo
Na Europa medieval, sem relógios mecânicos disseminados nem calendário de trabalho assalariado por hora, o tempo social era medido pela repetição dos fenômenos naturais: o nascer e o pôr do sol, as chuvas, o frio, o calor, a germinação e a colheita. O calendário iluminado, ao associar cada mês a uma atividade produtiva ditada pela estação, materializa exatamente essa lógica: o trabalho humano se organiza em função do ritmo da natureza, não o contrário.
Subpasso 4.3 — Verificação
Comparando essa conclusão com as cinco alternativas, apenas a opção D nomeia diretamente esse critério — "natural" — e o associa corretamente à causa observada na imagem: "trabalho realizado de acordo com as estações do ano". As demais alternativas descrevem conceitos que não aparecem nas cenas (mito, religião, controle de horas, estética romântica), confirmando que a resposta correta é a D.
Passo 5 — Análise Crítica de Todas as Alternativas
A) cíclica, marcada pelo mito arcaico do eterno retorno.
❌ Incorreta: o "eterno retorno" é um conceito da história das religiões (associado a Mircea Eliade) que descreve rituais de regeneração cósmica ligados a mitos de criação, em que o tempo é "anulado" e recomeçado simbolicamente. As cenas do calendário não retratam nenhum ritual mítico ou cosmogônico — mostram trabalho concreto e produtivo. O calendário até é cíclico no sentido de se repetir todo ano, mas essa não é a categoria explicativa correta para o que a imagem evidencia.
B) humanista, identificada pelo controle das horas de atividade por parte do trabalhador.
❌ Incorreta: "controle das horas de trabalho pelo próprio trabalhador" é uma noção ligada à disciplina do tempo mecânico e ao mundo do trabalho urbano/assalariado, consolidada muito depois, com o relógio público e, sobretudo, com a industrialização. No calendário medieval, é a natureza — e não o camponês — quem dita quando cada tarefa deve ser feita; não há autonomia do trabalhador sobre seu próprio tempo.
C) escatológica, associada a uma visão religiosa sobre o trabalho.
❌ Incorreta: escatologia trata das doutrinas religiosas sobre o fim dos tempos, o juízo final e o destino último da alma. Nenhuma das doze cenas remete a salvação, condenação ou julgamento divino — todas mostram atividades produtivas cotidianas (plantio, poda, colheita, pastoreio), sem qualquer referência ao destino final do homem.
D) natural, expressa pelo trabalho realizado de acordo com as estações do ano.
✅ Correta: é exatamente isso que a sequência de doze cenas demonstra — cada mês corresponde a uma tarefa agrícola determinada pelo clima e pelo calendário da terra (semear, podar, colher feno, ceifar, debulhar). O tempo medieval retratado é regulado pelos ciclos da natureza, e o trabalho humano se adapta a esse ritmo.
E) romântica, definida por uma visão bucólica da sociedade.
❌ Incorreta: o Romantismo é um movimento estético e intelectual dos séculos XVIII-XIX que idealiza a natureza e o campo de forma nostálgica e contemplativa — anacrônico para uma obra do século XV. Além disso, as cenas não retratam um campo idealizado e pacífico como cenário estético, mas o esforço físico real do trabalho camponês, associado à necessidade de sobrevivência, não a uma fruição bucólica.
🏆 Gabarito: D — as doze cenas do calendário associam cada mês a um trabalho agrícola específico, evidenciando que a sociedade medieval organizava o tempo a partir do ritmo natural das estações, e não por mito, religião, controle horário ou idealização estética.
Passo 6 — Conclusão, Generalização e Dica de Prova
- Reafirmação do gabarito: só a alternativa D descreve com precisão conceitual o que a imagem mostra: um calendário organizado pelas estações, com o trabalho humano subordinado ao ciclo natural — daí "natural" ser a única categoria compatível com as doze cenas de lavoura e pastoreio.
- Padrão de cobrança: o ENEM recorrentemente usa fontes iconográficas medievais (afrescos, iluminuras, calendários de livros de horas) para testar se o estudante reconhece que a Idade Média tinha lógicas de tempo e trabalho diferentes das da sociedade industrial — sem cair no anacronismo de aplicar conceitos modernos (jornada de trabalho, relógio, individualismo) ao período feudal.
- Generalização: em questões de fonte imagética histórica, a resposta certa costuma ser a que descreve o que está de fato representado na cena, evitando categorias abstratas (mito, religião, estética) que soam eruditas mas não têm correspondência direta com os elementos visuais apresentados.
- Dica de eliminação rápida: primeiro descarte tudo que é cronologicamente incompatível com o século XV — "humanista" com controle do relógio e "romântica" já soam de outras épocas (Renascimento tardio e séculos XVIII-XIX). Depois, elimine o que exige elementos que a imagem não mostra: rituais míticos (A) e cenas de salvação/julgamento (C). Sobra a alternativa que só descreve trabalho rural ligado às estações — a D.
- Conexões: tema dialoga com "estrutura da sociedade feudal" (senhores, servos, Igreja) e com "diferentes concepções de tempo na história" (tempo cíclico das sociedades agrárias x tempo linear-cristão x tempo mecânico da modernidade), assuntos recorrentes em História no ENEM.
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