Mapa de questões · 1º dia
Questão 10 — ENEM 2015Caderno azul · 1º Dia
Iniciou-se em 1903 a introdução de obras de arte com representações de bandeirantes no acervo do Museu Paulista, mediante a aquisição de uma tela que homenageava o sertanista que comandara a destruição do Quilombo de Palmares. Essa aquisição, viabilizada por verba estadual, foi simultânea à emergência de uma interpretação histórica que apontava o fenômeno do sertanismo paulista como o elo decisivo entre a trajetória territorial do Brasil e de São Paulo, concepção essa que se consolidaria entre os historiadores ligados ao Instituto Histórico e Geográfico de São Paulo ao longo das três primeiras décadas do século XX.
MARINS, P. c. G. Nas matas com pose de reis: a representação de bandeirantes e a tradição da retratística monárquica européia. Revista do LEB, n. 44, tev. 2007.
A prática governamental descrita no texto, com a escolha dos temas das obras, tinha como propósito a construção de uma memória que
Alternativas
Resolução
Ficha da Questão
- 📚 Matérias Necessárias: História → República Velha (1889-1930) e usos políticos da memória histórica
- ⚡ Nível: Médio — exige articular o contexto político da Primeira República com a interpretação de um texto historiográfico específico
- 🎯 Tema/Habilidade: Construção de memória e identidade regional a serviço de projetos políticos; habilidade de reconhecer intencionalidades por trás de práticas culturais e artísticas patrocinadas pelo Estado
- 🏆 Gabarito: A — revelado após resolução completa
Passo 1 — Leitura Estratégica do Comando
- Comando reformulado: "Qual era o objetivo político por trás da escolha das obras de arte sobre bandeirantes exibidas no Museu Paulista?"
- Palavras-chave decisivas: verba estadual, sertanismo paulista, elo decisivo, Instituto Histórico e Geográfico de São Paulo
- Armadilha típica: ler a homenagem ao destruidor do Quilombo de Palmares como "resgate" da população negra ou indígena (B e E), quando a obra celebra exatamente o oposto — a repressão dessas populações.
- O que a resposta precisa demonstrar: entender que a escolha temática das obras era instrumento consciente de legitimação do protagonismo político de São Paulo no pacto federativo da Primeira República.
Passo 2 — Mapa de Conceitos Essenciais
- República Velha (1889-1930): federalismo oligárquico marcado pela "política do café com leite", em que São Paulo e Minas Gerais, sustentados pela economia cafeeira, revezavam-se na presidência e dominavam a política nacional.
- Mito bandeirante: construção historiográfica do início do século XX que transformou os bandeirantes paulistas — na origem caçadores de índios e destruidores de quilombos — em heróis fundadores, "desbravadores" do território que se tornaria o Brasil.
- Museu Paulista e IHGSP: o museu, sobretudo sob Afonso de Taunay (a partir de 1917), vira santuário iconográfico do bandeirantismo; o Instituto Histórico e Geográfico de São Paulo dá sustentação acadêmica a essa narrativa, ligando a formação territorial do país à ação paulista.
- Usos políticos do passado: governos e elites selecionam e monumentalizam episódios históricos — em museus, monumentos e obras de arte — para legitimar, no presente, posições de poder e hierarquias regionais.
Passo 3 — Decodificação do Enunciado
- Evidência 1: "aquisição, viabilizada por verba estadual" → não é gosto artístico privado, mas política deliberada do governo paulista, com investimento público direcionado.
- Evidência 2: "sertanista que comandara a destruição do Quilombo de Palmares" → a obra homenageia um agente de conquista e repressão (provavelmente Domingos Jorge Velho, líder da expedição que destruiu Palmares em 1694), reforçando o bandeirante como herói civilizador, não opressor.
- Evidência 3: "sertanismo paulista como o elo decisivo entre a trajetória territorial do Brasil e de São Paulo" → a tese em construção faz de São Paulo o verdadeiro artífice do território nacional, unindo a história do estado à do país.
- Síntese: investimento estatal + herói regional escolhido a dedo + tese historiográfica que amarra o destino de São Paulo ao do Brasil formam, juntas, um projeto de memória que justifica por que o estado deveria liderar politicamente a nação.
Passo 4 — Resolução Completa (Passo a Passo)
Subpasso 4.1 — Contextualizando a Primeira República
Após 1889, o país se organiza como federação de estados com ampla autonomia. O poder político real concentra-se nos estados de economia mais forte, sobretudo São Paulo, impulsionado pelo café. Essa hegemonia (expressa no "café com leite") precisava, além do lastro econômico, de uma justificativa histórica que a tornasse "natural" e merecida.
Subpasso 4.2 — O papel do Museu Paulista e do IHGSP na fabricação dessa memória
Nesse cenário, o governo estadual financia, a partir de 1903, a aquisição de telas que enaltecem os bandeirantes, enquanto historiadores do IHGSP consolidam, nas três primeiras décadas do século XX, a tese de que o sertanismo paulista foi o "elo decisivo" na formação territorial do Brasil. Constrói-se a ideia de que o território brasileiro existe, em boa parte, graças à expansão paulista colonial — logo, São Paulo teria crédito histórico especial sobre a própria existência do país.
Subpasso 4.3 — Verificação
Cruzando essa lógica com as alternativas, só uma descreve corretamente o propósito: usar a memória histórica para afirmar que um estado específico ocupava lugar central e insubstituível na política nacional. As demais invertem o sentido do episódio (como se valorizasse resistência escrava ou presença indígena) ou generalizam demais o propósito (reduzindo-o a "arte regional" ou "memória do povo").
Passo 5 — Análise Crítica de Todas as Alternativas
A) afirmava a centralidade de um estado na política do país.
✅ Correta: a escolha das obras, financiada pelo governo estadual e amparada pela tese do IHGSP, construía uma memória segundo a qual São Paulo teria sido o artífice do território brasileiro — narrativa que legitimava simbolicamente a hegemonia política paulista durante a República Velha.
B) resgatava a importância da resistência escrava na história brasileira.
❌ Incorreta: a tela homenageava justamente quem destruiu o Quilombo de Palmares, símbolo maior da resistência escrava no Brasil colonial. A obra celebra a repressão a esse movimento, não sua importância histórica — é o oposto do que a alternativa afirma.
C) evidenciava a importância da produção artística no contexto regional.
❌ Incorreta: reduz o episódio a uma questão estética ou de fomento às artes, ignorando que a escolha temática (bandeirantes, sertanismo, conquista territorial) era funcional a um projeto político-ideológico específico, e não um fim em si mesma.
D) valorizava a saga histórica do povo na afirmação de uma memória social.
❌ Incorreta: trata-se de um distrator sedutor por generalizar demais. Não se exaltava "o povo" brasileiro em sentido amplo e popular, mas uma elite regional específica (a elite paulista e seus antepassados bandeirantes), com finalidade de projeção política de um estado, não de construção de identidade nacional-popular inclusiva.
E) destacava a presença do indígena no desbravamento do território colonial.
❌ Incorreta: os bandeirantes, historicamente, foram agentes de caça e escravização de indígenas, não seus representantes ou aliados. O mito bandeirante glorifica o conquistador paulista, invisibilizando — e não destacando — os povos indígenas subjugados nesse processo.
🏆 Gabarito: A — a prática governamental descrita construía uma memória histórica que vinculava a formação do território brasileiro à ação paulista, legitimando a centralidade política de São Paulo na Primeira República.
Passo 6 — Conclusão, Generalização e Dica de Prova
- Reafirmação do gabarito: só a alternativa A capta o mecanismo completo — financiamento estatal + tese historiográfica + iconografia heroica, convergindo para justificar o protagonismo político de um estado na federação.
- Padrão de cobrança: o ENEM recorrentemente cobra os "usos políticos do passado" — como museus, monumentos e obras de arte são mobilizados por governos para legitimar posições de poder no presente (mitos fundadores, "invenção de tradições", no sentido de Eric Hobsbawm).
- Generalização: diante de uma ação estatal de patrocínio cultural (museu, monumento, celebração), pergunte-se "que grupo se beneficia politicamente da narrativa construída aqui?" — a resposta certa quase sempre gira em torno de legitimação de poder, não de "valorização da arte" em abstrato.
- Dica de eliminação rápida: descarte alternativas que contradizem fato explícito do texto (B e E, que atribuem ao episódio valorização de grupos reprimidos pelos bandeirantes) e desconfie de termos vagos demais, como "o povo" (D) ou "produção artística" isolada (C).
- Conexões: o tema dialoga com a "política do café com leite" e o federalismo oligárquico da Primeira República, além da "invenção das tradições", aplicável a outras memórias regionais (mito do gaúcho no RS, do sertanejo no Nordeste).
Comunidade Memorize · Grátis
Não perca nenhuma live, aula ou material.
Entre na comunidade do WhatsApp e receba os avisos de tudo que a equipe Memorize lança de graça — direto no seu celular.