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Mapa de questões · 1º dia
HumanasFilosofiaMédio

Questão 17ENEM 2015Caderno azul · 1º Dia

Ora, em todas as coisas ordenadas a algum fim, é preciso haver algum dirigente, pelo qual se atinja diretamente o devido fim. Com efeito, um navio, que se move para diversos lados pelo impulso dos ventos contrários, não chegaria ao fim de destino, se por indústria do piloto não fosse dirigido ao porto; ora, tem o homem um fim, para o qual se ordenam toda a sua vida e ação. Acontece, porém, agirem os homens de modos diversos em vista do fim, o que a própria diversidade dos esforços e ações humanas comprova. Portanto, precisa o homem de um dirigente para o fim.

AQUINO, T. Do reino ou do governo dos homens: ao rei do Chipre. Escritos políticos de São Tomás de Aquino. Petrópolis: Vozes, 1995 (adaptado).

No trecho citado, Tomás de Aquino justifica a monarquia como o regime de governo capaz de

Alternativas

Resolução

Ficha da Questão

  • 📚 Matérias Necessárias: Filosofia → Filosofia Política Medieval (escolástica, teoria da autoridade e do bem comum)
  • ⚡ Nível: Médio — o texto não exige conhecimento prévio extenso sobre Tomás de Aquino, mas cobra leitura atenta de um argumento silogístico e de uma analogia, sem cair em associações automáticas (Aquino = religião).
  • 🎯 Tema/Habilidade: Justificativas filosóficas para as formas de governo na Idade Média — compreensão de teorias políticas e de suas relações com a organização do poder e da sociedade.
  • 🏆 Gabarito: C — revelado após a resolução completa

Passo 1 — Leitura Estratégica do Comando

  • Comando reformulado: "Segundo o argumento de Tomás de Aquino no trecho, para que serve a monarquia?"
  • Palavras-chave decisivas: dirigente, fim, diversidade de ações
  • Armadilha típica: lembrar que Tomás de Aquino é teólogo e, por associação automática, marcar uma alternativa sobre religião (A ou D) ou sobre a relação Igreja-Estado (E), temas que o TRECHO CITADO simplesmente não aborda.
  • O que a resposta precisa demonstrar: que a função do "dirigente" (rei) nasce da necessidade de conduzir a diversidade de ações e vontades humanas a um único destino compartilhado — e não de questões religiosas, de participação popular ou de separação de poderes.

Passo 2 — Mapa de Conceitos Essenciais

  • Escolástica política: corrente medieval que funde a filosofia de Aristóteles (razão natural, teleologia) com a teologia cristã, defendendo que o poder político é uma instituição natural e necessária à vida em sociedade, não apenas uma consequência do pecado.
  • Argumento teleológico: raciocínio que parte da ideia de que tudo o que existe se ordena a um fim (télos); onde há multiplicidade de agentes buscando um mesmo fim, é preciso uma força unificadora que os conduza a ele.
  • Analogia do piloto e do navio: recurso retórico clássico usado por Aquino para tornar visível seu argumento abstrato — assim como um navio à mercê de ventos contrários não chega a porto sem a mão de um piloto, uma sociedade cujos membros agem de modos diferentes não alcança seu fim comum sem um governante único.
  • Bem comum (bonum commune): para Tomás de Aquino, essa é a finalidade última de qualquer governo legítimo — não o benefício pessoal do governante, mas a ordenação harmônica de toda a comunidade rumo a um fim compartilhado, garantindo unidade e paz social.

Passo 3 — Decodificação do Enunciado

  • Evidência 1: "em todas as coisas ordenadas a algum fim, é preciso haver algum dirigente, pelo qual se atinja diretamente o devido fim" → premissa geral do silogismo: multiplicidade + finalidade comum = necessidade de um condutor único.
  • Evidência 2: "um navio, que se move para diversos lados pelo impulso dos ventos contrários, não chegaria ao fim de destino, se por indústria do piloto não fosse dirigido ao porto" → a analogia mostra que, sem direção centralizada, forças divergentes ("ventos contrários" = interesses individuais conflitantes) impedem o alcance de um destino comum.
  • Evidência 3: "Acontece, porém, agirem os homens de modos diversos em vista do fim [...]. Portanto, precisa o homem de um dirigente para o fim" → conclusão do argumento: como os homens agem de formas diferentes rumo aos seus objetivos, é necessário um governante que os reúna em torno de um único fim comum.
  • Síntese: o trecho não menciona religião, participação da sociedade civil nem a relação entre poder temporal e espiritual. Ele constrói, passo a passo, a ideia de que a monarquia se justifica pela necessidade lógica de uma autoridade central capaz de UNIR vontades e ações dispersas em direção ao bem comum.

Passo 4 — Resolução Completa (Passo a Passo)

Subpasso 4.1 — Reconstruir a estrutura do argumento (silogismo tomista)

O trecho de Aquino pode ser organizado como um raciocínio de três partes:

  • Premissa 1: tudo o que é ordenado a um fim precisa de um dirigente que conduza diretamente a esse fim.
  • Premissa 2: o homem tem um fim, ao qual se ordenam toda a sua vida e ação.
  • Premissa 3: os homens agem de modos diversos em relação a esse fim (a diversidade de esforços e ações humanas o comprova).
  • Conclusão: logo, o homem precisa de um dirigente para alcançar esse fim.

Note que a conclusão não fala em "controlar a fé" nem em "dividir poderes" — fala estritamente em conduzir a humanidade, apesar de suas diferenças, a um destino compartilhado.

Subpasso 4.2 — Interpretar a função da analogia navio/piloto

A imagem do navio é a chave interpretativa da questão: um barco sozinho, empurrado por "ventos contrários", se dispersa e nunca chega ao porto. O piloto não é um tirano que suprime a tripulação — é a figura que ORGANIZA e UNIFICA o movimento do navio em uma única direção útil. Transportando a metáfora para a política, o "porto" representa o fim comum da sociedade, os "ventos contrários" representam a diversidade natural de interesses e ações dos indivíduos, e o "piloto" representa o monarca. A monarquia, portanto, é justificada não pela força ou pela repressão, mas pela sua capacidade de unificação em vista de um objetivo compartilhado.

Subpasso 4.3 — Verificação: conectar a conclusão à pergunta da questão

A pergunta pede o que a monarquia é capaz de fazer, segundo Aquino. Juntando as evidências dos Passos 3 e 4.1-4.2, a resposta correta deve conter necessariamente duas ideias: (1) UNIÃO de uma sociedade diversa e (2) orientação para um FIM COMUM/compartilhado. Rastreando as cinco alternativas, apenas uma reproduz fielmente essas duas ideias sem introduzir elementos ausentes do texto (religião, sociedade civil, poderes temporal/espiritual) — confirmando que a resposta é a alternativa C.

Passo 5 — Análise Crítica de Todas as Alternativas

A) refrear os movimentos religiosos contestatórios.

❌ Incorreta: o trecho citado não menciona religião, fé, heresias ou movimentos contestatórios de qualquer natureza. É uma armadilha construída sobre a biografia de Aquino (teólogo dominicano), mas o argumento apresentado é estritamente político-teleológico, baseado na analogia do piloto, sem qualquer referência ao campo religioso.

B) promover a atuação da sociedade civil na vida política.

❌ Incorreta: o argumento vai exatamente na direção oposta. É a diversidade de ações dos indivíduos ("agirem os homens de modos diversos") que gera a necessidade de um dirigente único — o texto não propõe ampliar a participação popular, mas concentrar a condução em uma autoridade central capaz de harmonizar essa diversidade.

C) unir a sociedade tendo em vista a realização do bem comum.

✅ Correta: é a síntese exata da conclusão do silogismo apresentado. Assim como o piloto une os esforços da tripulação e conduz o navio ao porto apesar dos ventos contrários, o monarca une a multiplicidade de ações e vontades humanas divergentes em direção a um único fim compartilhado — o bem comum, finalidade última de todo governo legítimo na filosofia política tomista.

D) reformar a religião por meio do retorno à tradição helenística.

❌ Incorreta: embora Tomás de Aquino dialogue intensamente com a filosofia grega (sobretudo Aristóteles) para construir seus argumentos racionais, o trecho não trata de reforma religiosa nem de "retorno" a tradições helenísticas — essa alternativa mistura elementos de contexto histórico-filosófico que não aparecem no texto citado.

E) dissociar a relação política entre os poderes temporal e espiritual.

❌ Incorreta: a distinção entre poder temporal (do Estado) e poder espiritual (da Igreja) é, de fato, um debate típico da Idade Média — mas não é o assunto do trecho apresentado, que trata exclusivamente da necessidade lógica e teleológica de um único dirigente para conduzir a sociedade a seu fim comum, sem qualquer menção à relação entre Igreja e Estado.

🏆 Gabarito: C — o argumento de Tomás de Aquino conclui que a monarquia se justifica pela capacidade do dirigente único de unir a diversidade de ações humanas em direção a um fim compartilhado, isto é, o bem comum da sociedade.

Passo 6 — Conclusão, Generalização e Dica de Prova

  • Reafirmação do gabarito: a alternativa C é a única que reproduz com fidelidade a conclusão do silogismo apresentado no trecho: o dirigente (monarca) existe para reunir a multiplicidade de vontades e ações humanas divergentes em torno de um único fim comum.
  • Padrão de cobrança: o ENEM cobra recorrentemente textos-fonte de filósofos políticos (Aristóteles, Maquiavel, Hobbes, Locke, Rousseau, Tomás de Aquino) pedindo que o estudante identifique a tese central por meio da leitura atenta do próprio argumento, sem exigir memorização de obras inteiras ou de biografias detalhadas.
  • Generalização: em questões de filosofia política baseadas em trechos originais, a alternativa correta é quase sempre uma paráfrase fiel da conclusão do argumento apresentado no texto — desconfie de alternativas que introduzem temas biograficamente associados ao autor, mas ausentes do trecho citado.
  • Dica de eliminação rápida: elimine de imediato as alternativas que mencionam elementos que NÃO aparecem no texto (religião em A e D; sociedade civil em B; poderes temporal e espiritual em E); restará apenas a alternativa que fala em "unir" e "fim comum", compatível com a analogia do piloto e do navio.
  • Conexões: compare com Aristóteles, para quem o homem é um "animal político" e o Estado existe para o "bem viver" da comunidade, e com os contratualistas modernos (Hobbes e Rousseau), que também discutem a necessidade de uma autoridade unificadora — mas partindo de fundamentos distintos: a teleologia teocêntrica de Aquino versus o contrato social racional dos modernos.

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