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Mapa de questões · 1º dia
HumanasSociologiaMédio

Questão 35ENEM 2015Caderno azul · 1º Dia

Quanto ao “choque de civilizações”, é bom lembrar a carta de uma menina americana de sete anos cujo pai era piloto na Guerra do Afeganistão: ela escreveu que — embora amasse muito seu pai — estava pronta a deixá-lo morrer, a sacrificá-lo por seu país. Quando o presidente Bush citou suas palavras, elas foram entendidas como manifestação “normal” de patriotismo americano; vamos conduzir uma experiência mental simples e imaginar uma menina árabe maometana pateticamente lendo para as câmeras as mesmas palavras a respeito do pai que lutava pelo Talibã — não é necessário pensar muito sobre qual teria sido a nossa reação.

A situação imaginária proposta pelo autor explicita o desafio cultual do(a)

Alternativas

Resolução

Ficha da Questão

  • 📚 Matérias Necessárias: Sociologia → Conceitos de Alteridade, Etnocentrismo e Relativismo Cultural
  • ⚡ Nível: Médio — exige decodificar uma metáfora sociológica sofisticada (o experimento mental da inversão de papéis) e associá-la a um conceito abstrato entre alternativas semelhantes
  • 🎯 Tema/Habilidade: Alteridade cultural nas relações internacionais e no debate do "choque de civilizações" — compreensão de processos identitários e conflitos culturais
  • 🏆 Gabarito: B — revelado após resolução completa

Passo 1 — Leitura Estratégica do Comando

  • Comando reformulado: "Que conceito sociológico o experimento mental proposto pelo autor coloca em xeque ao trocar apenas a identidade cultural das meninas?"
  • Palavras-chave decisivas: experiência mental, as mesmas palavras, qual teria sido a nossa reação
  • Armadilha típica: prender-se ao vocabulário de guerra ("Afeganistão", "Talibã", "país") e marcar alternativas institucionais como diplomacia ou autodeterminação, ignorando que o cerne é a assimetria de julgamento moral entre "nós" e "eles"
  • O que a resposta precisa demonstrar: identificar que a inversão especular expõe a dificuldade de reconhecer no outro (o estrangeiro, o inimigo religioso/cultural) a mesma humanidade que reconhecemos em nós mesmos

Passo 2 — Mapa de Conceitos Essenciais

  • Alteridade: capacidade de se colocar no lugar do outro, reconhecendo sua cultura, seus valores e sua subjetividade como legítimos, mesmo sendo diferentes dos próprios — é o oposto de julgar o outro apenas pelas próprias lentes.
  • Etnocentrismo: tendência de tomar a própria cultura como parâmetro universal e superior, julgando as demais como inferiores, exóticas ou ameaçadoras a partir desse referencial.
  • Relativismo cultural: princípio segundo o qual práticas e crenças de um povo devem ser compreendidas dentro do seu próprio contexto histórico e cultural, e não avaliadas por critérios externos.
  • "Choque de civilizações": expressão de Samuel Huntington para conflitos globais entendidos como confrontos entre blocos civilizacionais fixos; o texto usa o rótulo de forma crítica, sugerindo que o verdadeiro "choque" é de perspectiva, não de blocos monolíticos.

Passo 3 — Decodificação do Enunciado

  • Evidência 1: "estava pronta a deixá-lo morrer, a sacrificá-lo por seu país" → vindo de uma menina americana, o discurso de sacrifício patriótico é lido como comovente e "normal", como o próprio Bush o tratou.
  • Evidência 2: "imaginar uma menina árabe maometana... a respeito do pai que lutava pelo Talibã — não é necessário pensar muito sobre qual teria sido a nossa reação" → a mesma frase, vinda do "outro lado", provocaria estranhamento ou repulsa, não enaltecimento.
  • Síntese: o autor mantém fixas todas as variáveis (idade, afeto, conteúdo da fala) e altera só a identidade cultural/religiosa das personagens, isolando essa variável como responsável pela mudança de reação — o julgamento não depende do conteúdo moral do discurso, mas de quem o profere.

Passo 4 — Resolução Completa (Passo a Passo)

Subpasso 4.1 — Identificar a estrutura do argumento (comparação especular)

O texto constrói um espelho entre duas situações: uma menina de sete anos, filha de um combatente, disposta a sacrificar o pai pela pátria. A primeira é americana, com pai lutando a favor dos EUA; a segunda é árabe muçulmana, com pai lutando pelo Talibã. Tudo o mais permanece idêntico — idade, afeto, disposição ao sacrifício, até as palavras usadas. Essa simetria é o instrumento argumentativo central: um "experimento mental" clássico, usado para testar se um princípio moral se sustenta quando aplicado igualmente aos dois lados de um conflito.

Subpasso 4.2 — Relacionar a inversão ao conceito sociológico correspondente

Se a reação do leitor muda radicalmente diante do mesmo enunciado moral — comoção no primeiro caso, reprovação no segundo —, o problema não está no discurso em si, mas na capacidade (ou incapacidade) de quem julga em reconhecer no outro os mesmos sentimentos e legitimidade que reconhece em si mesmo. Essa capacidade de descentrar-se do próprio ponto de vista é exatamente o que a Sociologia chama de alteridade. O "choque de civilizações" do enunciado não é primariamente um choque de exércitos: é um choque de perspectivas, um fracasso em exercer a alteridade diante de quem pertence ao grupo identificado como inimigo cultural ou religioso.

Subpasso 4.3 — Verificação por eliminação

Confrontando essa conclusão com as alternativas, nenhuma trata de negociação entre Estados (diplomacia), instituições eleitorais (democracia), avanço técnico-econômico (progresso) ou soberania política (autodeterminação) — nenhum desses temas está em jogo no trecho. A única alternativa que nomeia com precisão o mecanismo revelado pelo experimento mental — a dificuldade de reconhecer o outro em seus próprios termos — é "exercício da alteridade", confirmando a alternativa B.

Passo 5 — Análise Crítica de Todas as Alternativas

A) prática da diplomacia.

❌ Incorreta: diplomacia diz respeito à negociação institucional entre governos. O texto não menciona tratados ou canais oficiais de negociação — trata da percepção moral subjetiva de quem ouve o discurso.

B) exercício da alteridade.

✅ Correta: o experimento mental expõe a dificuldade de se colocar no lugar do outro e de lhe atribuir os mesmos valores e legitimidade moral que atribuímos a nós mesmos. É esse exercício — reconhecer o outro como sujeito equivalente, não como ameaça abstrata — que o texto mostra falhar quando o "outro" pertence a uma cultura tida como inimiga.

C) expansão da democracia.

❌ Incorreta: o texto não discute regimes políticos nem instituições eleitorais. A menção ao Talibã serve apenas para caracterizar o "lado oposto" do conflito, não para debater forma de governo.

D) universalização do progresso.

❌ Incorreta: "progresso" remete a desenvolvimento técnico, científico ou econômico. O trecho trata de percepção identitária e moral diante do outro, tema distinto de avanço material.

E) conquista da autodeterminação.

❌ Incorreta: autodeterminação refere-se ao direito de um povo decidir soberanamente seu destino político. O texto discute a assimetria no julgamento moral aplicado a "nós" e a "eles", não independência ou soberania territorial.

🏆 Gabarito: B — A inversão especular proposta pelo autor (mesma idade, mesmo afeto, mesmas palavras, mudando só a identidade cultural e religiosa) evidencia que o verdadeiro desafio do "choque de civilizações" é a dificuldade de exercer a alteridade: reconhecer no outro a mesma humanidade que reconhecemos em nós mesmos.

Passo 6 — Conclusão, Generalização e Dica de Prova

  • Reafirmação do gabarito: apenas "exercício da alteridade" nomeia com precisão o mecanismo revelado pelo texto — a capacidade, frustrada no exemplo, de julgar o outro pelos mesmos critérios com que julgamos a nós mesmos, sem duplo padrão moral.
  • Padrão de cobrança: o ENEM traz trechos de autores contemporâneos (aqui, Slavoj Žižek) ou situações jornalísticas envolvendo conflitos étnico-religiosos para cobrar o trio etnocentrismo × relativismo cultural × alteridade, pedindo que o aluno reconheça o conceito ilustrado por uma situação concreta.
  • Generalização: sempre que um texto contrastar "nós" e "eles" com reações morais opostas ao mesmo comportamento, a resposta tende a girar em torno da presença ou ausência de alteridade.
  • Dica de eliminação rápida: elimine primeiro alternativas institucionais e concretas (diplomacia, democracia, autodeterminação, progresso) quando o texto-base for subjetivo e moral, sem menção a negociações, eleições ou soberania — sobra o conceito abstrato de percepção do outro.
  • Conexões: etnocentrismo e relativismo cultural (Franz Boas), a tese do "choque de civilizações" de Samuel Huntington e o conceito de "Orientalismo" de Edward Said.

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