Mapa de questões · 1º dia
Questão 5 — ENEM 2015Caderno azul · 1º Dia
A casa de Deus, que acreditam una, está, portanto, dividida em três: uns oram, outros combatem, outros, enfim, trabalham. Essas três partes que coexistem não suportam ser separadas; os serviços prestados por uma são a condição das obras das outras duas; cada uma por sua vez encarrega-se de aliviar o conjunto… Assim a lei pode triunfar e o mundo gozar da paz.
ALDALBERON DE LAON, In: SPINOSA, F. Antologia de textos históricos medievais. Lisboa: Sá da Costa, 1981.
A ideologia apresentada por Aldalberon de Laon foi produzida durante a Idade Média. Um objetivo de tal ideologia e um processo que a ela se opôs estão indicados, respectivamente, em:
Alternativas
Resolução
Ficha da Questão
- 📚 Matérias Necessárias: História → Idade Média europeia, feudalismo e ideologia da sociedade estamental
- ⚡ Nível: Médio — exige relacionar um texto historiográfico (fonte primária) a processos históricos amplos, sem apoio de datas ou nomes explícitos no comando
- 🎯 Tema/Habilidade: A ideologia dos "três ordens" (oratores, bellatores, laboratores) como justificativa da hierarquia feudal — competência de leitura crítica de fontes históricas
- 🏆 Gabarito: A — revelado após resolução completa
Passo 1 — Leitura Estratégica do Comando
- Comando reformulado: "Qual era o objetivo da ideologia de Adalbéron de Laon e qual processo histórico se opôs a ela?"
- Palavras-chave decisivas: ideologia, objetivo, processo que se opôs
- Armadilha típica: confundir a divisão em três ordens (clero, nobreza, trabalhadores) com uma simples descrição social neutra, sem perceber que o texto é uma justificativa política da desigualdade — e, do outro lado, associar a oposição a esse sistema a eventos de outros períodos (Revolução Francesa, Reforma) que não são a resposta mais direta e contemporânea ao feudalismo
- O que a resposta precisa demonstrar: compreensão de que a fala do bispo Adalbéron é um discurso de legitimação da ordem feudal estamental, e reconhecimento de que a principal contestação prática a essa ordem, ainda dentro da Idade Média, veio de baixo — das revoltas camponesas contra a exploração senhorial
Passo 2 — Mapa de Conceitos Essenciais
- Sociedade estamental (ou de ordens): modelo social medieval em que o indivíduo nasce e permanece vinculado a um grupo (estamento) definido por função e prestígio — não por riqueza —, com direitos e deveres próprios e mobilidade praticamente inexistente entre eles.
- Teoria dos três ordens (oratores, bellatores, laboratores): formulação ideológica difundida por clérigos como Adalbéron de Laon (bispo de Laon, início do século XI) e Gérard de Cambrai, segundo a qual a sociedade seria "naturalmente" dividida entre os que rezam (clero), os que combatem (nobreza guerreira) e os que trabalham (camponeses), cada um cumprindo uma função indispensável ao equilíbrio do todo.
- Função ideológica da doutrina: ao apresentar essa divisão como desejo de Deus e condição da "paz" e da "lei", o discurso naturaliza a servidão camponesa e a exploração do trabalho pelos dois estamentos privilegiados (clero e nobreza), blindando a hierarquia contra questionamentos — é, portanto, um instrumento de dominação estamental.
- Revoltas camponesas medievais: movimentos como a Jacquerie (França, 1358) e a Revolta dos Camponeses Ingleses (1381) explodiram justamente contra os fundamentos que essa ideologia buscava sustentar — a exploração senhorial, a tributação excessiva e a rigidez da hierarquia —, revelando a fratura entre o discurso de harmonia social e a realidade vivida pelos laboratores.
Passo 3 — Decodificação do Enunciado
- Evidência 1: "A casa de Deus, que acreditam una, está, portanto, dividida em três: uns oram, outros combatem, outros, enfim, trabalham." → revela a estrutura da doutrina dos três estados, apresentada como vontade divina — ou seja, como algo natural e imutável, não como uma construção social e política.
- Evidência 2: "Essas três partes que coexistem não suportam ser separadas; os serviços prestados por uma são a condição das obras das outras duas" → mostra o argumento de interdependência: cada estamento "precisa" dos outros, o que serve para justificar que os trabalhadores (laboratores) devem sustentar economicamente o clero e a nobreza sem contestação, apresentando a exploração como cooperação.
- Evidência 3: "Assim a lei pode triunfar e o mundo gozar da paz." → conclui o texto associando a manutenção dessa hierarquia à ordem e à paz social — quem rompe com ela seria, por extensão, responsável pela desordem, o que desqualifica antecipadamente qualquer contestação.
- Síntese: o texto de Adalbéron de Laon é um manifesto ideológico que converte uma relação de exploração econômica e política (clero e nobreza vivendo do trabalho camponês) em uma ordem sagrada e harmônica. Logo, seu objetivo é justificar/legitimar a dominação estamental. E como toda ideologia de dominação gera resistência, o processo histórico que melhor se contrapõe a ela, dentro do próprio período medieval, são as revoltas camponesas contra a exploração senhorial — o grupo social que a doutrina tentava manter conformado.
Passo 4 — Resolução Completa (Passo a Passo)
Subpasso 4.1 — Identificar o tipo de fonte e seu autor
Adalbéron de Laon foi um bispo franco do início do século XI, período de consolidação do feudalismo na Europa ocidental. Textos como esse não são relatos neutros: são discursos produzidos por membros do próprio estamento privilegiado (o clero) para explicar e defender a ordem social vigente. Isso já indica que a "ideologia" citada no comando da questão tem função política, não apenas descritiva.
Subpasso 4.2 — Determinar o objetivo da ideologia
Ao afirmar que a divisão em oratores, bellatores e laboratores é obra de Deus e condição da paz, o texto naturaliza uma hierarquia em que apenas um grupo (os trabalhadores) sustenta materialmente os outros dois, sem retribuição equivalente. Isso caracteriza exatamente a definição de dominação estamental: uma estrutura de desigualdade jurídica e social justificada por um discurso que a apresenta como ordem natural e sagrada, e não como escolha política. Esse é o "objetivo" pedido na primeira parte da alternativa correta.
Subpasso 4.3 — Verificação: identificar o processo de oposição
A segunda parte da questão pede um processo histórico que se opôs a essa ideologia. Como a doutrina buscava manter os camponeses conformados com a exploração, o processo mais direto de contestação são as revoltas camponesas — movimentos que, ao longo da Baixa Idade Média (com auge em episódios como a Jacquerie francesa de 1358), questionaram na prática a legitimidade da hierarquia senhorial, exigindo redução de tributos, fim de obrigações servis e maior autonomia. Note que centralização monárquica, revoluções burguesas, unificação monetária e Reforma Católica são processos históricos reais, mas nenhum deles nasce como resposta direta e imediata a essa ideologia estamental do século XI — eles pertencem a outros contextos (formação dos Estados nacionais, transição ao capitalismo, economia comercial e crise religiosa do século XVI, respectivamente).
Passo 5 — Análise Crítica de Todas as Alternativas
A) Justificar a dominação estamental / revoltas camponestas.
✅ Correta: o texto de Adalbéron de Laon tem exatamente essa função — legitimar, como vontade divina, a divisão da sociedade em ordens desiguais (clero, nobreza, camponesado), o que configura dominação estamental. E o processo histórico que mais diretamente se opôs a essa ordem, ainda no período medieval, foram as revoltas camponesas contra a exploração senhorial que essa ideologia buscava normalizar.
B) Subverter a hierarquia social / centralização monárquica.
❌ Incorreta: o texto faz o oposto de "subverter" a hierarquia — ele a reafirma e a sacraliza como condição da paz e da lei. Além disso, a centralização monárquica não é, em si, um processo de oposição a essa ideologia estamental: os reis medievais frequentemente se apoiavam na mesma lógica de ordens (inclusive contando com o clero como aliado) para consolidar seu poder.
C) Impedir a igualdade jurídica / revoluções burguesas.
❌ Incorreta: embora a sociedade estamental de fato impedisse a igualdade jurídica (privilégios distintos para cada ordem), esse não é o "objetivo" declarado do texto — o discurso de Adalbéron se apresenta como busca de harmonia e paz, não como projeto deliberado de impedir direitos iguais. E as revoluções burguesas são um processo muito posterior (séculos XVII-XVIII), ligado à ascensão do capitalismo e à derrubada do Antigo Regime, não uma reação imediata à teologia feudal do século XI.
D) Controlar a exploração econômica / unificação monetária.
❌ Incorreta: o texto não busca "controlar" a exploração econômica — ele a justifica e a naturaliza como cooperação necessária entre as ordens. A unificação monetária, por sua vez, é um processo ligado à centralização dos Estados modernos e ao desenvolvimento do comércio, sem relação direta de oposição a essa ideologia estamental específica.
E) Questionar a ordem divina / Reforma Católica.
❌ Incorreta: o texto não questiona a ordem divina — pelo contrário, invoca-a como fundamento da hierarquia social ("a casa de Deus... dividida em três"). A Reforma Católica (Contrarreforma), além de ser um movimento do século XVI voltado à resposta da Igreja ao protestantismo, não tem como alvo a estrutura estamental medieval descrita no texto.
🏆 Gabarito: A — a ideologia dos três estados justificava a dominação estamental ao apresentá-la como vontade divina, e foi justamente esse arranjo de exploração que as revoltas camponesas medievais contestaram na prática.
Passo 6 — Conclusão, Generalização e Dica de Prova
- Reafirmação do gabarito: apenas a alternativa A combina corretamente um objetivo compatível com o teor do texto (legitimar a hierarquia desigual, e não subvertê-la, questioná-la ou simplesmente "controlar" a economia) com um processo de oposição contemporâneo e coerente ao contexto medieval (revoltas camponesas, e não processos de outros séculos).
- Padrão de cobrança: o ENEM recorrentemente traz fontes primárias medievais (crônicas, sermões, textos de clérigos) para testar se o estudante entende sua função ideológica — isto é, se percebe que quem escreve também defende interesses de seu próprio grupo social.
- Generalização: sempre que uma questão de História apresentar um discurso produzido por uma elite (religiosa, política, econômica) descrevendo a sociedade como "harmoniosa" ou "natural", desconfie: quase sempre se trata de legitimação de uma hierarquia de poder, e a resposta correta tende a associar esse discurso a mecanismos de dominação e a movimentos populares de resistência como contraponto histórico.
- Dica de eliminação rápida: elimine de cara qualquer alternativa cujo segundo termo pertença a um período muito distante do contexto do texto (revoluções burguesas, séculos XVII-XVIII; Reforma Católica, século XVI) — a fonte é do século XI, então o processo de oposição mais coerente tende a ser um fenômeno também medieval, como as revoltas camponesas.
- Conexões: compare esse tema com "servidão e relações de trabalho no feudalismo" e com "crise do século XIV" (peste negra, fome e revoltas camponesas na Europa), assuntos frequentemente cobrados juntos em questões de História Medieval no ENEM.
Comunidade Memorize · Grátis
Não perca nenhuma live, aula ou material.
Entre na comunidade do WhatsApp e receba os avisos de tudo que a equipe Memorize lança de graça — direto no seu celular.