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Mapa de questões · 1º dia
HumanasSociologiaMédio

Questão 40ENEM 2015Caderno azul · 1º Dia

A crescente intelectualização e racionalização não indicam um conhecimento maior e geral das condições sob as quais vivemos. Significa a crença em que, se quiséssemos, poderíamos ter esse conhecimento a qualquer momento. Não há forças misteriosas incalculáveis; podemos dominar todas as coisas pelo cálculo.

Tal como apresentada no texto, a proposição de Max Weber a respeito do processo de desencantamento do mundo evidencia o(a)

Alternativas

Resolução

Ficha da Questão

  • 📚 Matérias Necessárias: Sociologia → Teoria da ação social e da racionalização em Max Weber
  • ⚡ Nível: Médio — o texto é curto, mas abstrato, e exige distinguir conceitos sociológicos próximos (racionalização, desencantamento, emancipação) que aparecem quase sinônimos nas alternativas
  • 🎯 Tema/Habilidade: Desencantamento do mundo (Entzauberung der Welt) em Max Weber; competência de leitura interpretativa de texto teórico das Ciências Humanas
  • 🏆 Gabarito: D — revelado após resolução completa

Passo 1 — Leitura Estratégica do Comando

  • Comando reformulado: "O que a ideia de desencantamento do mundo, descrita no trecho de Weber, revela sobre a sociedade moderna?"
  • Palavras-chave decisivas: intelectualização e racionalização, forças misteriosas incalculáveis, dominar pelo cálculo
  • Armadilha típica: interpretar o texto como uma celebração do progresso técnico (alternativa A) ou da emancipação humana (alternativa C), quando na verdade Weber está descrevendo, de forma quase neutra e até cética, uma mudança de mentalidade coletiva — não um ganho automático de liberdade ou conhecimento efetivo
  • O que a resposta precisa demonstrar: compreensão de que o "desencantamento" é o processo pelo qual a sociedade moderna abandona explicações mágicas, religiosas e tradicionais em favor da crença na calculabilidade racional de tudo o que existe

Passo 2 — Mapa de Conceitos Essenciais

  • Desencantamento do mundo (Entzauberung): conceito cunhado por Max Weber para descrever o esvaziamento progressivo da dimensão mágico-religiosa da vida social, substituída pela convicção de que todos os fenômenos podem, em princípio, ser explicados e controlados por meio do conhecimento racional e do cálculo.
  • Racionalização: processo histórico de longa duração no qual a ação social deixa de se orientar por costumes, rituais e crenças herdadas (tradição) e passa a se pautar por cálculo de meios e fins, eficiência e previsibilidade — presente na ciência, na burocracia e na economia capitalista modernas.
  • Ação tradicional x ação racional: na tipologia weberiana da ação social, a ação tradicional se apoia em hábitos e crenças transmitidos pelos costumes; a ação racional (com relação a fins) se apoia em cálculo consciente. O desencantamento marca justamente a substituição progressiva da primeira pela segunda como padrão dominante da vida moderna.
  • Modernidade como ruptura com a tradição: para a sociologia clássica (Weber, mas também Durkheim e Marx, cada um a seu modo), a modernidade se define, entre outros traços, pelo enfraquecimento da autoridade da tradição e das explicações não racionais do mundo.

Passo 3 — Decodificação do Enunciado

  • Evidência 1: "Não há forças misteriosas incalculáveis" → o texto nega explicitamente a existência de explicações mágicas, sobrenaturais ou místicas para os fenômenos — exatamente o tipo de crença associada às visões tradicionais e religiosas de mundo.
  • Evidência 2: "podemos dominar todas as coisas pelo cálculo" → afirma a crença moderna de que o controle racional-técnico substitui a antiga confiança em forças transcendentes, destinos ou desígnios divinos.
  • Evidência 3: "crença em que, se quiséssemos, poderíamos ter esse conhecimento a qualquer momento" → ponto central e sutil do texto: Weber não diz que o conhecimento efetivo aumentou, mas que aumentou a crença na sua disponibilidade calculável. Essa mudança de mentalidade — não um ganho de saber em si — é o que caracteriza a passagem da tradição para a modernidade.
  • Síntese: o trecho descreve a transição de uma cosmovisão fundada em crenças tradicionais, misteriosas e não questionáveis para uma cosmovisão baseada na calculabilidade racional. Esse movimento de afastamento da tradição, e não um progresso material, uma emancipação garantida ou o fim de uma religião específica, é o núcleo do conceito de desencantamento do mundo.

Passo 4 — Resolução Completa (Passo a Passo)

Subpasso 4.1 — Identificar o conceito weberiano em jogo

O enunciado já nomeia o conceito: "processo de desencantamento do mundo". A tarefa não é adivinhar a teoria, mas entender o que essa teoria evidencia a partir do trecho citado. O texto de Weber afirma que a intelectualização/racionalização crescente não significa que as pessoas de fato saibam mais sobre as condições em que vivem, mas sim que passaram a acreditar que poderiam saber, a qualquer momento, porque não existem mais "forças misteriosas incalculáveis" — tudo, em princípio, pode ser calculado.

Subpasso 4.2 — Relacionar a crença na calculabilidade com a ruptura com a tradição

Antes da racionalização moderna, explicações sobre o mundo (doenças, colheitas, fenômenos naturais, destino humano) recorriam a forças mágicas, espíritos, desígnios divinos e costumes transmitidos — ou seja, a crenças tradicionais que não exigiam nem admitiam cálculo racional. Ao afirmar que "não há forças misteriosas incalculáveis", o texto descreve precisamente o abandono dessas explicações tradicionais em favor de uma mentalidade que confia no domínio racional-científico da realidade. Esse abandono da tradição em nome do cálculo é, para Weber, o traço definidor da sociedade moderna ocidental — daí "desencantamento": o mundo perde o "encanto" (o mistério, o sagrado, o inexplicável) porque a mentalidade moderna já não precisa mais recorrer a ele.

Subpasso 4.3 — Verificação contra as alternativas

Comparando essa síntese com as cinco alternativas, apenas uma expressa exatamente esse movimento — afastar-se de crenças tradicionais como característica de uma nova época (a modernidade) — sem extrapolar para temas que o texto não afirma, como industrialismo, capitalismo, emancipação garantida ou fim do monoteísmo. Essa constatação confirma a alternativa D como a única coerente com o trecho.

Passo 5 — Análise Crítica de Todas as Alternativas

A) progresso civilizatório como decorrência da expansão do industrialismo.

❌ Incorreta: o texto não menciona industrialismo nem trata a racionalização como sinônimo de "progresso civilizatório". Pelo contrário, Weber é cauteloso ao afirmar que o aumento da racionalização não corresponde a um conhecimento maior e efetivo das condições de vida — ele fala em crença na calculabilidade, não em avanço material comprovado. Associar o trecho ao industrialismo é uma inferência que extrapola o conteúdo do texto.

B) extinção do pensamento mítico como um desdobramento do capitalismo.

❌ Incorreta: embora Weber, em outras obras, relacione racionalização e capitalismo, o trecho apresentado não cita o capitalismo como causa do desencantamento, e tampouco afirma a "extinção" total do pensamento mítico — apenas descreve a crença de que tudo pode, em princípio, ser calculado. Atribuir esse processo ao capitalismo é acrescentar uma causalidade que o texto não estabelece.

C) emancipação como consequência do processo de racionalização da vida.

❌ Incorreta: o texto não apresenta a racionalização como libertação ou emancipação. Weber é justamente ambíguo (e em outros escritos, crítico) quanto aos efeitos desse processo, associando-o também à burocratização e ao que chamaria de "jaula de ferro" da racionalidade. O trecho descreve uma mudança de crença, não uma conquista de liberdade.

D) afastamento de crenças tradicionais como uma característica da modernidade.

✅ Correta: o texto mostra exatamente isso — a negação de "forças misteriosas incalculáveis" e a crença na possibilidade de dominar tudo pelo cálculo representam o abandono de explicações mágicas, religiosas e tradicionais em favor de uma mentalidade racional-calculável, que Weber identifica como marca distintiva da sociedade moderna ocidental.

E) fim do monoteísmo como condição para a consolidação da ciência.

❌ Incorreta: o texto não trata de religião monoteísta especificamente, nem estabelece uma relação de causa e condição entre o fim de uma religião e a consolidação da ciência. O desencantamento do mundo é um processo mais amplo, que envolve o afastamento de qualquer explicação mágica ou tradicional, não apenas religiões monoteístas.

🏆 Gabarito: D — o trecho de Weber evidencia que a racionalização moderna se define pela crença na calculabilidade de todas as coisas, o que implica o afastamento progressivo de explicações e crenças tradicionais — traço definidor da modernidade.

Passo 6 — Conclusão, Generalização e Dica de Prova

  • Reafirmação do gabarito: a alternativa D é a única que descreve com precisão o que o texto realmente afirma: a substituição de crenças tradicionais e misteriosas pela crença na calculabilidade racional, sem acrescentar causas (industrialismo, capitalismo, fim de uma religião) ou consequências (emancipação) que o trecho não menciona.
  • Padrão de cobrança: o ENEM recorrentemente cobra trechos de autores clássicos da sociologia (Weber, Durkheim, Marx) pedindo que o estudante identifique o conceito central evidenciado no texto, sem que seja necessário memorizar a obra completa — a leitura atenta do trecho já fornece todas as pistas.
  • Generalização: em questões de teoria sociológica, a alternativa correta costuma ser a que parafraseia mais literalmente as ideias do trecho, enquanto os distratores adicionam causas, consequências ou juízos de valor que o texto não sustenta.
  • Dica de eliminação rápida: elimine alternativas que introduzem elementos ausentes do texto (industrialismo em A, capitalismo em B, monoteísmo em E) — se a palavra-chave da alternativa não aparece nem é logicamente implicada pelo trecho, ela é armadilha. Depois, desconfie de alternativas com juízo de valor positivo forte (como "emancipação" em C) quando o autor mantém tom descritivo e cauteloso.
  • Conexões: o tema dialoga com "burocracia e dominação racional-legal" (também de Weber) e com o debate sobre "razão instrumental" na Escola de Frankfurt, que retoma criticamente a ideia de um mundo dominado pelo cálculo técnico.

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