Mapa de questões · 1º dia
Questão 28 — ENEM 2015Caderno azul · 1º Dia
O que implica o sistema da pólis é uma extraordinária preeminência da palavra sobre todos os outros instrumentos do poder. A palavra constitui o debate contraditório, a discussão, a argumentação e a polêmica. Torna-se a regra do jogo intelectual, assim como do jogo político.
VERNANT, J. P. As origens do pensamento grego. Rio de Janeiro: Bertrand, 1992 (adaptado).
Na configuração política da democracia grega, em especial a ateniense, a ágora tinha por função
Alternativas
Resolução
Ficha da Questão
- 📚 Matérias Necessárias: História → Antiguidade Clássica: pólis grega e democracia ateniense
- ⚡ Nível: Fácil — o texto de apoio já entrega a chave de leitura (a palavra como instrumento político) e basta associá-la à função da ágora
- 🎯 Tema/Habilidade: Estrutura política da pólis grega e o papel da ágora como espaço de deliberação coletiva (Competência de área 5 / Habilidade 19 da matriz do ENEM: analisar processos de constituição de sujeitos, direitos e cidadania)
- 🏆 Gabarito: C — revelado após resolução completa
Passo 1 — Leitura Estratégica do Comando
- Comando reformulado: "Qual era a função da ágora na organização política da democracia grega, sobretudo em Atenas?"
- Palavras-chave decisivas: ágora, corpo de cidadãos, deliberar
- Armadilha típica: confundir a democracia direta grega com sistemas representativos modernos, imaginando que a ágora era um espaço onde "representantes eleitos" ou "magistrados" falavam para uma plateia passiva, quando na verdade o cidadão participava diretamente das decisões.
- O que a resposta precisa demonstrar: entendimento de que a ágora era o espaço físico e simbólico de exercício direto da cidadania, onde os próprios cidadãos — e não intermediários — discutiam e decidiam os rumos da pólis pela palavra.
Passo 2 — Mapa de Conceitos Essenciais
- Pólis: unidade política, social e territorial da Grécia Antiga, organizada em torno de uma cidade-Estado autônoma; a vida pública nela se organiza a partir do espaço coletivo, não da vontade de um único governante.
- Ágora: praça pública central das cidades gregas, originalmente espaço de mercado, que se converteu no principal local de reunião política, onde os cidadãos se encontravam para discutir, votar e deliberar sobre os assuntos da comunidade.
- Isegoria e isonomia: princípios da democracia ateniense que garantiam a todo cidadão o direito igual à palavra (isegoria) e a igualdade perante a lei (isonomia); é essa igualdade de fala que torna a ágora funcional como espaço deliberativo.
- Cidadania restrita: é fundamental lembrar que "corpo de cidadãos" em Atenas excluía mulheres, estrangeiros (metecos) e escravos — a democracia era direta, mas não universal.
Passo 3 — Decodificação do Enunciado
- Evidência 1: "extraordinária preeminência da palavra sobre todos os outros instrumentos do poder" → Vernant indica que, na pólis, o poder não se impõe pela força bruta ou por decreto de um soberano, mas pela capacidade de persuadir publicamente.
- Evidência 2: "A palavra constitui o debate contraditório, a discussão, a argumentação e a polêmica" → isso descreve exatamente a dinâmica que ocorria na ágora: um espaço de confronto de ideias entre cidadãos, não de recepção passiva de ordens.
- Evidência 3: "Torna-se a regra do jogo intelectual, assim como do jogo político" → a palavra pública é o mecanismo legítimo de decisão coletiva, o que aponta diretamente para um local físico onde esse "jogo político" acontecia: a ágora.
- Síntese: o texto de Vernant descreve o fundamento da política grega — a palavra como poder — e a pergunta pede o correspondente espacial/institucional desse fundamento: o lugar onde a palavra se exercia coletivamente para decidir os destinos da pólis.
Passo 4 — Resolução Completa (Passo a Passo)
Subpasso 4.1 — Relacionar o texto-base ao conceito de democracia direta
Vernant descreve a centralidade da palavra (o logos) na vida política grega: decisões não eram tomadas por um rei que falava sozinho, mas construídas por meio de debate público entre iguais. Isso é a essência da democracia direta ateniense, sistema em que o cidadão não delega poder a representantes — ele mesmo participa, fala e vota nas assembleias.
Subpasso 4.2 — Identificar a função concreta da ágora
A ágora era, na prática, o palco desse "jogo político" descrito no texto. Ali se reuniam os cidadãos atenienses (homens livres, maiores de idade, filhos de pai e mãe atenienses) para debater leis, julgar questões públicas, decidir sobre guerra e paz, e deliberar coletivamente sobre os rumos da comunidade — o que incluía também a Eclésia (assembleia popular), que muitas vezes se reunia na própria ágora ou em locais a ela associados, como a Pnyx. A palavra era o instrumento; a ágora, o espaço onde ela operava politicamente.
Subpasso 4.3 — Verificação contra as alternativas
Buscamos, entre as cinco opções, aquela que descreve a ágora como espaço de reunião do corpo cívico para deliberação direta e coletiva — sem intermediários (reis, magistrados que "expõem" decisões, exércitos ou representantes eleitos). Apenas a alternativa que fala em "corpo de cidadãos" se reunindo para "deliberar" capta com precisão tanto o texto de Vernant (poder pela palavra, debate contraditório) quanto o conceito histórico de democracia direta ateniense.
Passo 5 — Análise Crítica de Todas as Alternativas
A) agregar os cidadãos em torno de reis que governavam em prol da cidade.
❌ Incorreta: remete a um modelo monárquico, típico da Grécia arcaica (período homérico) ou de outras civilizações antigas, e não à pólis democrática ateniense descrita no texto. Vernant enfatiza justamente a superação do poder centralizado em uma figura única pelo poder da palavra compartilhada.
B) permitir aos homens livres o acesso às decisões do Estado expostas por seus magistrados.
❌ Incorreta: sugere uma relação passiva, de recepção de decisões já tomadas por magistrados — um modelo mais próximo de regimes representativos ou burocráticos. Contradiz o texto, que fala em "debate contraditório" e "discussão", ou seja, participação ativa, não mera exposição de decisões alheias.
C) constituir o lugar onde o corpo de cidadãos se reunia para deliberar sobre as questões da comunidade.
✅ Correta: expressa com exatidão a democracia direta ateniense. A ágora era o espaço público onde os cidadãos, em igualdade de condições (isegoria), debatiam e decidiam coletivamente os assuntos da pólis pela força da argumentação — exatamente o "jogo político" fundado na palavra que Vernant descreve.
D) reunir os exércitos para decidir em assembleias fechadas os rumos a serem tomados em caso de guerra.
❌ Incorreta: restringe indevidamente a função da ágora a assuntos militares e a um público fechado (exércitos), quando na verdade ela era um espaço aberto de deliberação sobre toda a vida da comunidade, não apenas questões de guerra.
E) congregar a comunidade para eleger representantes com direito a pronunciar-se em assembleias.
❌ Incorreta: descreve uma lógica de democracia representativa (eleição de porta-vozes), estranha ao modelo ateniense clássico, no qual o próprio cidadão exercia diretamente a palavra e o voto, sem eleger alguém para falar em seu lugar.
🏆 Gabarito: C — a ágora era o espaço físico e político onde o corpo de cidadãos atenienses se reunia para debater e deliberar diretamente sobre os rumos da pólis, materializando o princípio, descrito por Vernant, de que a palavra era o principal instrumento de poder na Grécia clássica.
Passo 6 — Conclusão, Generalização e Dica de Prova
- Reafirmação do gabarito: a alternativa C é a única que descreve corretamente a democracia direta grega — cidadãos deliberando diretamente, sem intermediários, sobre os assuntos da própria comunidade.
- Padrão de cobrança: o ENEM recorrentemente usa trechos de historiadores clássicos (Vernant, Finley, Moses) sobre a pólis grega para testar se o aluno distingue democracia direta (Atenas) de sistemas representativos modernos ou de monarquias antigas.
- Generalização: sempre que a questão envolver "democracia ateniense", desconfie de alternativas que mencionem representantes eleitos, magistrados que decidem sozinhos ou reis — esses são anacronismos ou desvios conceituais comuns nas provas.
- Dica de eliminação rápida: elimine de cara qualquer opção com "reis" (característica de monarquia, não de democracia) e qualquer opção com "eleger representantes" (característica de democracia representativa moderna, não da pólis grega); sobra quase sempre a alternativa que fala em participação direta do cidadão.
- Conexões: aprofunde com os conceitos de isonomia e isegoria, e compare a democracia ateniense com a república romana e com as democracias representativas contemporâneas — tema clássico de comparação histórica no ENEM.
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