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Mapa de questões · 1º dia
HumanasSociologiaMédio

Questão 43ENEM 2015Caderno azul · 1º Dia

Só num sentido muito restrito, o indivíduo cria com seus próprios recursos o modo de falar e de pensar que lhe são atribuídos. Fala o idioma de seu grupo; pensa à maneira de seu grupo. Encontra a sua disposição apenas determinadas palavras e significados. Estas não só determinam, em grau considerável, as vias de acesso mental ao mundo circundante, mas também mostram, ao mesmo tempo, sob que ângulo e em que contexto de atividade os objetos foram até agora perceptíveis ao grupo ou ao indivíduo.

Ilustrando uma proposição básica da sociologia do conhecimento, o argumento de Karl Mannheim defende que o(a)

Alternativas

Resolução

Ficha da Questão

  • 📚 Matérias Necessárias: Sociologia → Sociologia do Conhecimento
  • ⚡ Nível: Médio — exige interpretação filosófica de um texto abstrato e a associação a um conceito sociológico específico, sem citação literal do termo técnico.
  • 🎯 Tema/Habilidade: Condicionamento social do conhecimento (Karl Mannheim) — competência de leitura e articulação de textos filosóficos/sociológicos.
  • 🏆 Gabarito: A — revelado após resolução completa

Passo 1 — Leitura Estratégica do Comando

  • Comando reformulado: "Qual proposição da sociologia do conhecimento o trecho de Mannheim está ilustrando?"
  • Palavras-chave decisivas: idioma de seu grupo, palavras e significados à disposição, vias de acesso mental ao mundo
  • Armadilha típica: confundir "condicionamento social" com "manipulação" ou "submissão forçada" — o texto fala de estrutura simbólica herdada, não de coerção ou controle deliberado do grupo sobre o indivíduo.
  • O que a resposta precisa demonstrar: que o pensamento individual é moldado por categorias linguísticas e culturais coletivas, não por manipulação, nem por educação formal, nem por multilinguismo.

Passo 2 — Mapa de Conceitos Essenciais

  • Sociologia do Conhecimento: ramo da sociologia (desenvolvido por Karl Mannheim, Max Scheler e outros) que investiga como as condições sociais, históricas e culturais de um grupo moldam a produção e os limites do conhecimento humano.
  • Karl Mannheim (1893-1947): sociólogo húngaro-alemão, autor de Ideologia e Utopia, para quem todo pensamento é "existencialmente vinculado" (seinsverbunden) — ou seja, situado numa posição social que fornece as categorias com as quais o indivíduo interpreta a realidade.
  • Linguagem como estrutura social do pensamento: a língua não é uma ferramenta neutra criada pelo indivíduo; é um sistema de significados já dado pelo grupo, que delimita o que pode ser pensado e percebido — ideia próxima (mas não idêntica) à hipótese de Sapir-Whorf, aqui aplicada à sociologia.
  • Determinismo social relativo: Mannheim não nega a capacidade crítica do indivíduo, mas afirma que o ponto de partida do pensamento — o "ângulo" e o "contexto de atividade" — é sempre herdado socialmente antes de qualquer elaboração pessoal.

Passo 3 — Decodificação do Enunciado

  • Evidência 1: "Fala o idioma de seu grupo; pensa à maneira de seu grupo." → revela que a linguagem e o próprio modo de raciocinar não são invenções individuais, mas heranças coletivas transmitidas pelo grupo social.
  • Evidência 2: "Encontra a sua disposição apenas determinadas palavras e significados." → mostra que o repertório simbólico disponível ao indivíduo é limitado e pré-definido, funcionando como uma espécie de "moldura" que antecede e condiciona qualquer reflexão pessoal.
  • Evidência 3: "mostram [...] sob que ângulo e em que contexto de atividade os objetos foram até agora perceptíveis ao grupo" → reforça que até a percepção dos objetos do mundo é filtrada por uma perspectiva historicamente construída pelo grupo, não por uma razão pura e universal do indivíduo isolado.
  • Síntese: as três evidências convergem para a mesma ideia central: o conhecimento que cada pessoa tem da realidade não nasce de um "eu" autônomo e desvinculado, mas é sempre condicionado pelas estruturas sociais (linguagem, cultura, posição de grupo) nas quais esse indivíduo está inserido.

Passo 4 — Resolução Completa (Passo a Passo)

Subpasso 4.1 — Identificar o núcleo filosófico do trecho

O texto começa afirmando que "só num sentido muito restrito" o indivíduo cria sozinho seu modo de falar e pensar. Essa ressalva já indica a tese central: a autonomia individual do pensamento é limitada, porque a linguagem e os significados disponíveis vêm prontos do grupo social. Isso é a base da sociologia do conhecimento de Mannheim — o conhecimento não é produzido no vácuo por uma consciência isolada, mas construído a partir de categorias sociais pré-existentes.

Subpasso 4.2 — Relacionar o exemplo da linguagem à tese geral sobre o conhecimento

A linguagem funciona no texto como exemplo concreto de um fenômeno mais amplo: assim como as palavras que usamos já vêm carregadas de significados definidos pelo grupo, também as demais formas de conhecimento (crenças, valores, interpretações do mundo) são herdadas e moldadas socialmente. O trecho generaliza isso ao dizer que essas palavras e significados "determinam [...] as vias de acesso mental ao mundo circundante" — ou seja, a própria forma de conhecer a realidade é socialmente construída, não um produto puro da razão individual.

Subpasso 4.3 — Verificação

Comparando essa síntese com as alternativas, apenas a opção que fala em "conhecimento condicionado socialmente" capta exatamente essa tese: o indivíduo pensa e conhece o mundo a partir de categorias fornecidas pelo grupo ao qual pertence. Isso corresponde à alternativa A, confirmando-a como resposta.

Passo 5 — Análise Crítica de Todas as Alternativas

A) conhecimento sobre a realidade é condicionado socialmente.

✅ Correta: sintetiza com precisão a tese de Mannheim — o indivíduo pensa e percebe o mundo por meio de categorias (linguagem, significados, ângulos de percepção) fornecidas pelo grupo social, o que significa que o conhecimento não é puramente individual, mas socialmente condicionado.

B) submissão ao grupo manipula o conhecimento do mundo.

❌ Incorreta: o texto não fala em "submissão" nem em "manipulação", termos que sugerem coerção deliberada ou intenção de controle. Mannheim descreve um processo estrutural e inconsciente de herança cultural, não uma imposição forçada ou manipulação intencional do grupo sobre o indivíduo.

C) divergência é um privilégio de indivíduos excepcionais.

❌ Incorreta: o trecho não trata de exceções ou de indivíduos que escapam ao condicionamento social; ao contrário, afirma que "só num sentido muito restrito" há criação individual, generalizando o condicionamento social a todos, sem mencionar privilégios de gênios ou indivíduos excepcionais.

D) educação formal determina o conhecimento do idioma.

❌ Incorreta: o texto fala em "grupo" de forma ampla (cultural, social), não especificamente em instituições de ensino formal; a aquisição da linguagem e dos significados descrita por Mannheim ocorre por meio da vivência social geral, não exclusivamente pela escolarização.

E) domínio das línguas universaliza o conhecimento.

❌ Incorreta: o argumento é o oposto — quanto mais o pensamento está preso ao idioma e aos significados de um grupo específico, mais particular (e não universal) é o acesso ao conhecimento; o texto não menciona multilinguismo nem sugere que falar várias línguas universalize a compreensão do mundo.

🏆 Gabarito: A — o trecho de Mannheim ilustra, através do exemplo da linguagem herdada do grupo, a tese central da sociologia do conhecimento de que toda apreensão da realidade é mediada e condicionada por estruturas sociais, e não produzida de forma autônoma pelo indivíduo isolado.

Passo 6 — Conclusão, Generalização e Dica de Prova

  • Reafirmação do gabarito: apenas a alternativa A expressa, sem distorção, a ideia de que o conhecimento humano é moldado por fatores sociais (grupo, linguagem, cultura) — exatamente o que o texto de Mannheim demonstra ao usar a linguagem como exemplo.
  • Padrão de cobrança: o ENEM recorrentemente traz trechos de autores clássicos da sociologia e da filosofia (Mannheim, Durkheim, Marx, Weber, Bourdieu) pedindo que o estudante identifique a tese central por trás de um exemplo concreto, sem citar o conceito técnico diretamente no enunciado.
  • Generalização: em questões de sociologia do conhecimento, desconfie de alternativas que introduzem ideias de manipulação, coerção ou privilégio individual — normalmente esses termos radicalizam ou distorcem uma tese que, no texto original, é sobre condicionamento estrutural e não intencional.
  • Dica de eliminação rápida: elimine de cara qualquer alternativa com verbos fortes de imposição ("manipula", "determina" ligado a uma única instituição) ou que fale de exceção/privilégio individual — a sociologia do conhecimento trata do condicionamento coletivo geral, não de casos particulares ou de controle deliberado.
  • Conexões: relacione com a hipótese de Sapir-Whorf (linguagem molda o pensamento) e com o conceito de habitus de Pierre Bourdieu, que também trata de disposições socialmente incorporadas que orientam a percepção e a ação do indivíduo.

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