Pular para o conteúdo
MemorizeMemorize
Mapa de questões · 1º dia
HumanasHistóriaMédio

Questão 14ENEM 2015Caderno azul · 1º Dia

Em sociedade de origens tão nitidamente personalistas como a nossa, é compreensível que os simples vínculos de pessoa a pessoa, independentes e até exclusivos de qualquer tendência para a cooperação autêntica entre os indivíduos, tenham sido quase sempre os mais decisivos. As agregações e relações pessoais, embora por vezes precárias, e, de outro lado, as lutas entre facções, entre famílias, entre regionalismos, faziam dela um todo incoerente e amorfo. O peculiar da vida brasileira parece ter sido por essa época, uma acentuação singularmente enérgica do afetivo, do irracional, do passional e uma estagnação ou antes uma atrofia correspondente das qualidades ordenadoras, disciplinadoras, racionalizadoras.

HOLANDA, S. B. Raízes do Brasil. São Paulo: Cia das Letras, 1995.

Um traço formador da vida pública brasileira expressa-se, segundo a análise do historiador, na

Alternativas

Resolução

Ficha da Questão

  • 📚 Matérias Necessárias: História → Formação social e política do Brasil (Sérgio Buarque de Holanda, "Raízes do Brasil")
  • ⚡ Nível: Médio — exige articular um texto historiográfico denso a um conceito abstrato (personalismo × interesse público) sem apoio de dados externos.
  • 🎯 Tema/Habilidade: Patrimonialismo e personalismo na formação da vida pública brasileira (Competência de Área 3 de Ciências Humanas — compreender processos históricos de constituição das instituições no Brasil).
  • 🏆 Gabarito: B — revelado após resolução completa

Passo 1 — Leitura Estratégica do Comando

  • Comando reformulado: "Segundo Sérgio Buarque de Holanda, qual traço marca a formação da esfera pública brasileira?"
  • Palavras-chave decisivas: personalistas, vínculos de pessoa a pessoa, atrofia das qualidades ordenadoras
  • Armadilha típica: confundir "traço formador" com aquilo que o Brasil deveria ter tido (instituições sólidas, normas rígidas) e não com o que o texto efetivamente descreve como marca histórica real.
  • O que a resposta precisa demonstrar: capacidade de identificar que o autor descreve uma sociedade em que laços pessoais e afetivos se sobrepõem às regras impessoais — ou seja, o privado invade o público.

Passo 2 — Mapa de Conceitos Essenciais

  • Personalismo: tendência a organizar as relações sociais, econômicas e políticas com base em vínculos pessoais (amizade, parentesco, lealdade individual) em vez de normas impessoais e universais.
  • Patrimonialismo: herança da administração ibérica em que o gestor público trata a coisa pública como extensão de seu patrimônio privado, distribuindo cargos e favores por critérios pessoais, não técnicos.
  • "Homem cordial": conceito-chave de Sérgio Buarque de Holanda (desenvolvido em capítulo posterior de "Raízes do Brasil") que descreve o brasileiro como alguém guiado pela emoção e pela intimidade nas relações, inclusive nas institucionais — o oposto da frieza racional-burocrática exigida pelo Estado moderno.
  • Racionalização weberiana (contraponto): para Max Weber, referência teórica de Sérgio Buarque, a modernidade político-administrativa se assenta em regras impessoais, mérito e separação entre esfera pública e privada — exatamente o que o trecho diz estar "atrofiado" no Brasil.

Passo 3 — Decodificação do Enunciado

  • Evidência 1: "vínculos de pessoa a pessoa, independentes e até exclusivos de qualquer tendência para a cooperação autêntica" → revela que as relações sociais se organizam por lealdades individuais, não por projetos coletivos ou institucionais.
  • Evidência 2: "as lutas entre facções, entre famílias, entre regionalismos, faziam dela um todo incoerente e amorfo" → mostra que grupos privados (famílias, facções) disputam espaço que deveria ser ocupado por instituições públicas coesas.
  • Evidência 3: "acentuação singularmente enérgica do afetivo, do irracional, do passional e uma... atrofia... das qualidades ordenadoras, disciplinadoras, racionalizadoras" → é a síntese do autor: o afeto pessoal prevalece sobre a racionalidade impessoal que sustentaria um Estado forte e organizado.
  • Síntese: as três evidências convergem para uma mesma ideia — no Brasil descrito por Sérgio Buarque, os interesses e afetos privados (de pessoas, famílias, facções) se impõem sobre o interesse coletivo e sobre a lógica racional-legal das instituições públicas.

Passo 4 — Resolução Completa (Passo a Passo)

Subpasso 4.1 — Identificar o argumento central do autor

Sérgio Buarque de Holanda descreve a formação da vida pública brasileira como marcada por "origens tão nitidamente personalistas". Isso significa que, historicamente, o critério que organizou a sociedade brasileira não foi o vínculo impessoal (leis, cargos, funções), mas o vínculo pessoal (família, amizade, favor, lealdade a um chefe ou patrão). Esse é o núcleo do que ficará conhecido, em capítulos seguintes da obra, como o mito do "homem cordial".

Subpasso 4.2 — Traduzir o conceito histórico em termos da alternativa correta

Se os vínculos pessoais comandam a vida social, então quem ocupa o espaço público (cargos, decisões, disputas políticas) o faz movido por interesses privados — os da própria pessoa, de sua família ou de sua facção — e não por um projeto coletivo, racional e impessoal de organização do Estado. É exatamente essa inversão — o privado ocupando o lugar que deveria ser do público — que o texto chama de "atrofia das qualidades ordenadoras, disciplinadoras, racionalizadoras". Logo, o traço formador descrito é a prevalência dos interesses privados sobre os interesses coletivos/públicos.

Subpasso 4.3 — Verificação

Voltando ao texto: em nenhum momento Sérgio Buarque afirma que havia normas jurídicas rígidas, organização institucional sólida, burocracia legítima ou estabilidade política — pelo contrário, ele fala em "todo incoerente e amorfo" e em "atrofia" das qualidades racionalizadoras. Isso confirma, por eliminação e por afirmação direta do texto, que a única alternativa compatível com a análise é a que aponta o predomínio do privado sobre o público — alternativa B.

Passo 5 — Análise Crítica de Todas as Alternativas

A) rigidez das normas jurídicas.

❌ Incorreta: o texto descreve exatamente o oposto — uma sociedade em que os vínculos pessoais se sobrepõem às normas, tornando o conjunto social "incoerente e amorfo". Não há qualquer menção a rigidez normativa; há, sim, fragilidade das regras impessoais diante da força dos laços pessoais.

B) prevalência dos interesses privados.

✅ Correta: é a síntese direta do trecho. Vínculos "de pessoa a pessoa", disputas "entre facções, entre famílias" e a "acentuação... do afetivo, do irracional, do passional" traduzem uma vida pública dominada por interesses privados (pessoais, familiares, faccionais), em detrimento de uma lógica coletiva, racional e impessoal — o cerne do personalismo e do patrimonialismo discutidos por Sérgio Buarque de Holanda.

C) solidez da organização institucional.

❌ Incorreta: o autor afirma justamente a "atrofia" das qualidades "ordenadoras, disciplinadoras, racionalizadoras" — o contrário de solidez institucional. As instituições, no texto, aparecem fragilizadas frente ao poder dos laços pessoais.

D) legitimidade das ações burocráticas.

❌ Incorreta: a burocracia racional-legal (no sentido weberiano) pressupõe impessoalidade e mérito, características que o texto nega existirem como traço dominante da formação brasileira. O que prevalece, segundo o autor, é o critério pessoal, não o burocrático-legal.

E) estabilidade das estruturas políticas.

❌ Incorreta: o texto descreve "lutas entre facções, entre famílias, entre regionalismos" que tornam a sociedade "um todo incoerente e amorfo" — isso é a antítese de estabilidade política; é, na verdade, um retrato de instabilidade e fragmentação decorrente do personalismo.

🏆 Gabarito: B — o texto de Sérgio Buarque de Holanda descreve uma formação social brasileira em que os laços pessoais, familiares e faccionais predominam sobre a organização racional e impessoal do Estado, configurando a prevalência dos interesses privados sobre os públicos.

Passo 6 — Conclusão, Generalização e Dica de Prova

  • Reafirmação do gabarito: apenas a alternativa B traduz corretamente o argumento do autor; todas as demais (A, C, D, E) descrevem características de um Estado racional-legal consolidado, que é justamente o que o texto afirma estar ausente ou "atrofiado" na formação brasileira.
  • Padrão de cobrança: o ENEM recorrentemente usa trechos de "Raízes do Brasil" para testar a compreensão dos conceitos de personalismo, patrimonialismo e "homem cordial" como chaves de leitura da política e da sociedade brasileiras, quase sempre pedindo que o aluno reconheça a tensão entre público e privado.
  • Generalização: em questões de interpretação de texto historiográfico sobre formação do Brasil, a resposta correta costuma ser a que reforça o diagnóstico do autor (mesmo que crítico ou negativo), nunca a que descreve um cenário idealizado de ordem, legalidade ou estabilidade que o próprio texto contesta.
  • Dica de eliminação rápida: sempre que o texto-base usar palavras como "atrofia", "incoerente", "amorfo" ou "precário" para descrever instituições, elimine de cara qualquer alternativa que fale em "solidez", "rigidez", "legitimidade" ou "estabilidade" — elas contradizem o tom crítico do trecho.
  • Conexões: o conceito de "homem cordial" (também de Sérgio Buarque de Holanda) e o de "patrimonialismo" (Raymundo Faoro, em "Os Donos do Poder") são temas irmãos, frequentemente cobrados em conjunto nas questões de formação política brasileira do ENEM.

Comunidade Memorize · Grátis

Não perca nenhuma live, aula ou material.

Entre na comunidade do WhatsApp e receba os avisos de tudo que a equipe Memorize lança de graça — direto no seu celular.