Mapa de questões · 1º dia
Questão 2 — ENEM 2015Caderno azul · 1º Dia
Dominar a luz implica tanto um avanço tecnológico quanto uma certa liberação dos ritmos cíclicos da natureza, com a passagem das estações e as alternâncias de dia e noite. Com a iluminação noturna, a escuridão vai cedendo lugar à claridade, e a percepção temporal começa a se pautar pela marcação do relógio. Se a luz invade a noite, perde sentido a separação tradicional entre trabalho e descanso – todas as partes do dia podem ser aproveitadas produtivamente.
SILVA FILHO. A. L. M. Fortaleza: imagens da cidade. Fortaleza: Museu do Ceará: Secult-CE. 2001 (adaptado).
Em relação ao mundo do trabalho, a transformação apontada no texto teve como consequência a
Alternativas
Resolução
Ficha da Questão
- 📚 Matérias Necessárias: Sociologia → Sociologia do Trabalho (tempo, tecnologia e relações de trabalho no capitalismo)
- ⚡ Nível: Médio — exige interpretação textual precisa aliada à mobilização de um conceito sociológico sobre o controle do tempo de trabalho.
- 🎯 Tema/Habilidade: Impactos da tecnologia (iluminação artificial) sobre a organização do tempo de trabalho no capitalismo industrial; competência de leitura crítica de texto e articulação com conceitos das ciências sociais.
- 🏆 Gabarito: E — revelado após resolução completa
Passo 1 — Leitura Estratégica do Comando
- Comando reformulado: "Qual foi a consequência, para o mundo do trabalho, da liberação temporal proporcionada pela iluminação artificial noturna?"
- Palavras-chave decisivas: "iluminação noturna", "perde sentido a separação... entre trabalho e descanso", "todas as partes do dia podem ser aproveitadas produtivamente"
- Armadilha típica: interpretar "aproveitadas produtivamente" como um benefício ao trabalhador (liberdade para escolher seu horário) em vez de reconhecer a intensificação da exploração do tempo de trabalho pelo sistema produtivo.
- O que a resposta precisa demonstrar: compreensão de que a diluição da fronteira natural entre dia e noite ampliou o tempo disponível para a produção, e não a autonomia individual do trabalhador sobre sua jornada.
Passo 2 — Mapa de Conceitos Essenciais
- Tempo natural x tempo do relógio: sociedades pré-industriais organizavam a vida pelos ciclos solares; a industrialização substitui esse ritmo pela medição mecânica e abstrata do tempo, tornando-o um recurso administrável e explorável.
- Iluminação artificial como tecnologia de controle social: a luz elétrica não é um avanço neutro — ao afastar a escuridão, remove o limite físico que antes separava horário de atividade e de descanso, viabilizando turnos noturnos.
- Extensão da jornada de trabalho: no capitalismo industrial, uma forma clássica de intensificar a exploração da força de trabalho é prolongar as horas trabalhadas. A iluminação artificial dá a base técnica para essa extensão.
- Disciplina do tempo (E. P. Thompson): o historiador descreveu como a passagem do "tempo orientado pela tarefa" para o "tempo do relógio" disciplinou os trabalhadores conforme a lógica da fábrica, não conforme suas necessidades de descanso.
Passo 3 — Decodificação do Enunciado
- Evidência 1: "a percepção temporal começa a se pautar pela marcação do relógio" → o tempo deixa de ser natural (ligado ao sol e às estações) e passa a ser abstrato e mensurável — condição técnica necessária para que o trabalho ocorra a qualquer hora.
- Evidência 2: "perde sentido a separação tradicional entre trabalho e descanso – todas as partes do dia podem ser aproveitadas produtivamente" → é a frase-chave da questão: o texto afirma, de forma explícita, que qualquer hora do dia ou da noite passa a poder ser usada para a produção, ou seja, o tempo disponível para o trabalho se expande.
- Síntese: o texto não menciona autonomia do trabalhador, qualidade da produção, mercado rural nem redução de esforço físico — trata exclusivamente da ampliação temporal da produção possibilitada pela luz artificial. A alternativa correta precisa espelhar exatamente essa ideia, sem acrescentar nem inventar conteúdo.
Passo 4 — Resolução Completa (Passo a Passo)
Subpasso 4.1 — Identificar o núcleo argumentativo do texto
O trecho de Silva Filho descreve um processo histórico concreto: a chegada da iluminação pública e, depois, elétrica nas cidades — fenômeno associado à Segunda Revolução Industrial — rompeu a dependência humana em relação à luz solar. Antes, a atividade produtiva ficava limitada às horas de sol; a noite era, por necessidade física, tempo de descanso. Com a luz artificial, essa barreira natural deixa de existir.
Subpasso 4.2 — Traduzir a mudança tecnológica em consequência social
O período final do texto é decisivo: "perde sentido a separação tradicional entre trabalho e descanso – todas as partes do dia podem ser aproveitadas produtivamente." Em termos do mundo do trabalho, isso significa que o período em que a produção pode ocorrer deixa de estar restrito às horas de luz natural e passa a abranger também a noite. Não se trata de o trabalhador ganhar liberdade para escolher quando trabalhar — isso exigiria falar em autonomia ou jornada flexível decidida pelo empregado, o que o texto não afirma. Trata-se de o sistema produtivo passar a poder demandar trabalho em qualquer horário, inclusive de madrugada, abrindo caminho para turnos noturnos e jornadas mais longas.
Subpasso 4.3 — Verificação
Confrontando essa síntese com as cinco alternativas, apenas a opção "ampliação do período disponível para a jornada de trabalho" reproduz fielmente a ideia de que "todas as partes do dia podem ser aproveitadas produtivamente". As demais introduzem elementos — qualidade do produto, mercado rural, autonomia do trabalhador, esforço físico com máquinas — ausentes do texto-base. O resultado converge para a alternativa E.
Passo 5 — Análise Crítica de Todas as Alternativas
A) melhoria da qualidade da produção industrial.
❌ Incorreta: o texto trata de disponibilidade temporal — quando se pode trabalhar —, não de qualidade do que é produzido. Não há qualquer menção a padrões de qualidade, eficiência técnica ou aperfeiçoamento do produto final.
B) redução da oferta de emprego nas zonas rurais.
❌ Incorreta: o texto não aborda o campo, o êxodo rural nem o mercado de trabalho agrícola. Essa alternativa tenta vincular o tema a outro processo histórico (a própria migração campo-cidade), mas essa relação não está sustentada pelo texto apresentado.
C) permissão ao trabalhador para controlar seus próprios horários.
❌ Incorreta: é a armadilha central da questão. "Todas as partes do dia podem ser aproveitadas produtivamente" não significa que o trabalhador passou a decidir quando trabalhar; significa que o empregador e o sistema produtivo passaram a poder exigir trabalho a qualquer hora. A iniciativa e o controle sobre o uso do tempo permanecem do lado de quem organiza a produção, não do lado de quem vende sua força de trabalho.
D) diminuição das exigências de esforço no trabalho com máquinas.
❌ Incorreta: o texto fala de luz e de percepção temporal, não de mecanização, automação ou redução de esforço físico. Confundir "iluminação artificial" com "maquinário que poupa esforço" é um erro de leitura que ignora o assunto central do trecho.
E) ampliação do período disponível para a jornada de trabalho.
✅ Correta: é a transcrição direta, em linguagem de "mundo do trabalho", da frase-chave do texto — se toda parte do dia, incluindo a noite antes reservada ao descanso, pode ser usada produtivamente, o tempo disponível para o trabalho se expande. Essa é exatamente a lógica histórica de intensificação da exploração da força de trabalho pela via da extensão da jornada, viabilizada pela tecnologia da iluminação artificial.
🏆 Gabarito: E — o texto afirma que a luz artificial eliminou o limite natural entre trabalho e descanso, permitindo que "todas as partes do dia" fossem usadas produtivamente; isso equivale, no mundo do trabalho, a uma ampliação do período disponível para a jornada de trabalho.
Passo 6 — Conclusão, Generalização e Dica de Prova
- Reafirmação do gabarito: apenas a alternativa E reproduz, sem acrescentar nem inventar informação, a ideia central do texto: mais horas do dia — e da noite — tornam-se tempo produtivo disponível para o trabalho.
- Padrão de cobrança: o ENEM recorrentemente relaciona avanços tecnológicos (energia elétrica, máquinas, meios de comunicação) a transformações nas relações e no tempo de trabalho, cobrando do candidato a capacidade de extrair a consequência social explicitamente indicada pelo texto, sem recorrer a conhecimentos externos que ele não sustenta.
- Generalização: em questões de interpretação de texto nas Ciências Humanas, a alternativa correta costuma ser aquela que "traduz" a frase-síntese do texto para o vocabulário da pergunta, sem adicionar juízos de valor — positivos ou negativos — que o texto original não expressou.
- Dica de eliminação rápida: risque de imediato qualquer alternativa que mencione elemento ausente do texto (qualidade do produto, zona rural, máquinas/esforço físico) — sobra a disputa apenas entre "controle do horário pelo trabalhador" e "ampliação da jornada"; escolha sempre a que descreve o efeito estrutural sobre o sistema produtivo, e não uma suposta conquista individual do trabalhador.
- Conexões: relaciona-se com a Revolução Industrial e a divisão do trabalho (Taylorismo e Fordismo) e com a discussão sociológica sobre a "disciplina do tempo" no capitalismo (E. P. Thompson), temas recorrentes em Sociologia e História no ENEM.
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