Mapa de questões · 1º dia
Questão 80 — ENEM 2016 PPL
Os indivíduos de uma população de uma pequena cidade, fundada por uma família de europeus, são, frequentemente, frutos de casamentos consanguíneos. Grande parte dos grupos familiares dessa localidade apresenta membros acometidos por uma doença rara, identificada por fraqueza muscular progressiva, com início aos 30 anos de idade. Em famílias com presença dessa doença, quando os pais são saudáveis, somente os filhos do sexo masculino podem ser afetados. Mas em famílias cujo pai é acometido pela doença e a mãe é portadora do gene, 50% da descendência, independentemente do sexo, é afetada.
Considerando as características populacionais, o sexo e a proporção dos indivíduos afetados, qual é o tipo de herança da doença descrita no texto?
Alternativas
Resolução
Ficha da Questão
- 📚 Matérias Necessárias: Biologia → Genética (padrões de herança e herança ligada ao sexo)
- ⚡ Nível: Médio — exige montar mentalmente dois cruzamentos a partir de texto (sem heredograma desenhado) e testar cinco padrões de herança
- 🎯 Tema/Habilidade: Herança ligada ao cromossomo X; reconhecimento de padrões de transmissão genética a partir de dados populacionais
- 🏆 Gabarito: A — revelado após a resolução completa
Passo 1 — Leitura Estratégica do Comando
- Comando reformulado: "A partir de dois cruzamentos descritos em palavras, identifique se a doença é dominante ou recessiva e se está em autossomo, X ou Y."
- Palavras-chave decisivas: pais saudáveis, somente filhos do sexo masculino, mãe portadora, 50% independentemente do sexo
- Armadilha típica: fixar-se na consanguinidade e na raridade da doença e marcar "recessiva autossômica" no automático, ignorando que a restrição por sexo é a pista decisiva.
- O que a resposta precisa demonstrar: capacidade de montar os genótipos dos dois casais e verificar qual dos cinco padrões reproduz as proporções e a distribuição por sexo relatadas.
Passo 2 — Mapa de Conceitos Essenciais
- Herança ligada ao X: genes na região do X sem par no Y. Mulheres (XX) só manifestam condição recessiva com dois alelos mutantes; homens (XY), hemizigotos, manifestam com apenas um, pois não têm segundo X para mascarar.
- Portador(a) vs. afetado(a): portador é o heterozigoto saudável que carrega o alelo mutante — só existe quando o alelo é recessivo. Se fosse dominante, um único alelo já causaria a doença.
- Herança ligada ao Y: transmitida só de pai para filho; quem tem o Y mutante está sempre afetado (não há "portador" no Y) e mulheres nunca são atingidas.
- Efeito fundador e consanguinidade: em populações pequenas e endogâmicas, alelos raros atingem frequências mais altas do que na população geral, explicando a alta recorrência da doença — sem alterar o tipo de herança em si.
Passo 3 — Decodificação do Enunciado
- Evidência 1: "fundada por uma família de europeus" + "casamentos consanguíneos" → justifica a alta frequência de uma doença rara (efeito fundador e endogamia), mas não define sozinha o tipo de herança.
- Evidência 2: "pais são saudáveis, somente os filhos do sexo masculino podem ser afetados" → a doença salta geração e atinge só homens — assinatura de herança recessiva ligada ao X, com mãe heterozigota portadora.
- Evidência 3: "pai é acometido... mãe é portadora... 50% da descendência, independentemente do sexo, é afetada" → proporção que bate exatamente com o cruzamento entre homem hemizigoto afetado e mulher heterozigota portadora, em herança recessiva ligada ao X.
- Síntese: as duas evidências convergem para um único alelo recessivo no cromossomo X; basta testar esse modelo contra os dois cruzamentos.
Passo 4 — Resolução Completa (Passo a Passo)
Subpasso 4.1 — Família com pais saudáveis
Alelo normal Xᴬ, mutante Xᵃ. Mãe saudável portadora: XᴬXᵃ. Pai saudável: XᴬY (não pode ter Xᵃ, senão estaria afetado, já que é hemizigoto).
Cruzamento XᴬXᵃ × XᴬY → descendência: XᴬXᴬ (filha normal), XᴬXᵃ (filha portadora), XᴬY (filho normal), XᵃY (filho afetado).
Nenhuma filha é afetada, pois todas recebem o Xᴬ do pai. Só o filho que herda Xᵃ da mãe (¼ do total, metade dos meninos) é afetado — reproduz exatamente "somente os filhos do sexo masculino podem ser afetados".
Esse resultado já elimina:
- Autossômica (dominante ou recessiva): o sexo do descendente é definido pelos cromossomos sexuais, independente dos autossomos — filhas e filhos teriam a mesma chance de serem afetados.
- Ligada ao Y: não existe "pai saudável" com Y mutante para repassar, pois quem tem Y mutante é sempre afetado.
Subpasso 4.2 — Família com pai afetado e mãe portadora
Pai afetado XᵃY × mãe portadora XᴬXᵃ → descendência: XᴬXᵃ (filha portadora), XᵃXᵃ (filha afetada), XᴬY (filho normal), XᵃY (filho afetado).
De 4 combinações, 2 são afetadas — uma filha e um filho —, ou seja, 50% da descendência afetada nos dois sexos, exatamente como o texto descreve. Isso descarta a herança dominante ligada ao X: se fosse dominante, a mãe heterozigota já estaria doente e o texto não a chamaria de "portadora".
Subpasso 4.3 — Verificação
O modelo recessivo ligado ao X reproduziu, sem ajustes, as duas situações descritas. Nenhum outro padrão consegue explicar simultaneamente as duas famílias. Confirma-se a alternativa A.
Passo 5 — Análise Crítica de Todas as Alternativas
A) Recessiva, ligada ao cromossomo X.
✅ Correta: único padrão compatível com os dois cruzamentos — mães portadoras saudáveis geram apenas filhos homens afetados (hemizigotos), e pai afetado × mãe portadora gera 50% de afetados nos dois sexos.
B) Dominante, ligada ao cromossomo X.
❌ Incorreta: um único alelo mutante já causaria a doença, tornando impossível existir "mãe portadora saudável" heterozigota — ela própria estaria afetada.
C) Recessiva, ligada ao cromossomo Y.
❌ Incorreta: genes do Y só passam de pai para filho e não têm estado de "portador" (quem tem o Y mutante está sempre afetado); um pai saudável não poderia gerar filhos afetados, e mulheres, sem cromossomo Y, jamais seriam atingidas — mas o texto descreve filhas afetadas.
D) Recessiva autossômica.
❌ Incorreta: em autossomos, a chance de ser afetado é igual para os dois sexos, contradizendo "somente os filhos do sexo masculino podem ser afetados".
E) Dominante autossômica.
❌ Incorreta: herança dominante exige ao menos um genitor afetado para gerar descendência afetada, o que contradiz a primeira família (pais saudáveis); além disso, autossomos não distinguem sexo.
🏆 Gabarito: A — apenas a herança recessiva ligada ao X explica por que pais saudáveis geram só filhos homens afetados e por que pai afetado × mãe portadora produz 50% de afetados nos dois sexos.
Passo 6 — Conclusão, Generalização e Dica de Prova
- Reafirmação do gabarito: a alternativa A é a única que sobrevive aos dois testes de cruzamento; as demais falham em pelo menos um cenário do texto.
- Padrão de cobrança: o ENEM costuma trazer herança ligada ao sexo via heredograma ou, como aqui, por descrição textual de cruzamentos com proporções e distribuição por sexo.
- Generalização: doença que aparece só (ou preferencialmente) em homens, filhos de pais aparentemente saudáveis, sugere herança recessiva ligada ao X, com a mãe como portadora assintomática.
- Dica de eliminação rápida: se a doença salta geração com pais sadios gerando filhos afetados, elimine as dominantes; se atinge só um sexo, elimine as autossômicas; se há mulher afetada ou "mãe portadora", elimine a ligada ao Y.
- Conexões: compare com hemofilia e daltonismo (herança recessiva ligada ao X); revise efeito fundador em Genética de Populações, usado para justificar a alta frequência de uma doença rara em comunidade isolada e endogâmica.
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