Mapa de questões · 1º dia
Questão 8 — ENEM 2016 PPL
Estamos, pois, de acordo quando, ao ver algum objeto, dizemos: “Este objeto que estou vendo agora tem tendência para assemelhar-se a um outro ser, mas, por ter defeitos, não consegue ser tal como o ser em questão, e lhe é, pelo contrário, inferior”. Assim, para podermos fazer estas reflexões, é necessário que antes tenhamos tido ocasião de conhecer esse ser de que se aproxima o dito objeto, ainda que imperfeitamente.
PLATÃO. Fédon . São Paulo: Abril Cultural, 1972.
Na epistemologia platônica, conhecer um determinado objeto implica
Alternativas
Resolução
Ficha da Questão
- 📚 Matérias Necessárias: Filosofia → Filosofia Antiga, Teoria das Formas (Ideias) e epistemologia platônica
- ⚡ Nível: Médio — exige reconstituir, a partir de um trecho denso do Fédon, o dualismo entre objeto sensível e "ser" inteligível
- 🎯 Tema/Habilidade: Epistemologia de Platão (relação entre objeto sensível e Forma/Ideia) — competência de leitura e interpretação de textos filosóficos clássicos
- 🏆 Gabarito: D — revelado após resolução completa
Passo 1 — Leitura Estratégica do Comando
- Comando reformulado: "De acordo com o trecho do Fédon, o que significa, para Platão, 'conhecer' um objeto?"
- Palavras-chave decisivas: tendência para assemelhar-se, por ter defeitos... inferior, conhecer esse ser
- Armadilha típica: trocar a relação objeto-Forma por algo empírico, como descrever as características do objeto (C) ou compará-lo consigo mesmo em outro momento (A).
- O que a resposta precisa demonstrar: que o conhecimento verdadeiro, em Platão, depende de relacionar o objeto sensível (cópia imperfeita) ao "ser" — a Forma/Ideia — do qual ele deriva.
Passo 2 — Mapa de Conceitos Essenciais
- Dualismo platônico: Platão divide a realidade em dois planos — o mundo sensível, captado pelos sentidos, mutável e imperfeito, e o mundo inteligível, das Formas (Ideias), eterno e acessível apenas pela razão.
- Teoria das Formas (Ideias): cada objeto sensível (uma coisa bela, um par de coisas iguais, um círculo desenhado) é cópia imperfeita de uma Forma correspondente — o "ser" verdadeiro daquilo que ele tenta ser. O objeto participa da Forma, mas nunca a iguala.
- Teoria da Reminiscência (anamnese): como a alma, antes de encarnar, contemplou diretamente as Formas, conhecer no mundo sensível é "recordar" essas Formas ao contato com suas cópias imperfeitas.
- Episteme x Doxa: conhecimento verdadeiro (episteme) remete à Forma/essência; a mera constatação sensível, sem esse referencial, é apenas opinião (doxa), sujeita a erro.
Passo 3 — Decodificação do Enunciado
- Evidência 1: "Este objeto que estou vendo agora tem tendência para assemelhar-se a um outro ser, mas, por ter defeitos, não consegue ser tal como o ser em questão, e lhe é, pelo contrário, inferior" → revela que o objeto sensível é sempre cópia deficiente de um "ser" que ele tenta reproduzir, sem jamais alcançá-lo.
- Evidência 2: "é necessário que antes tenhamos tido ocasião de conhecer esse ser de que se aproxima o dito objeto, ainda que imperfeitamente" → revela que julgar o objeto (como imperfeito, inferior) pressupõe um conhecimento PRÉVIO desse "ser" — sem esse referencial, seria impossível perceber a imperfeição do objeto.
- Síntese: conhecer um objeto, para Platão, não é apenas observá-lo ou descrevê-lo, mas relacioná-lo — fazer corresponder — a esse "ser" anterior e superior (a Forma/Ideia) do qual o objeto sensível é reflexo imperfeito.
Passo 4 — Resolução Completa (Passo a Passo)
Subpasso 4.1 — Identificar o núcleo filosófico do trecho
O excerto pertence ao Fédon, em que Sócrates discute com Símias a origem do conhecimento sobre igualdade, beleza, justiça etc. Sempre que julgamos que um objeto sensível "tende a se parecer" com algo, mas "falha" nesse parecer (é "inferior"), estamos comparando implicitamente esse objeto a um padrão que ele não alcança totalmente. Esse padrão é o que Platão chama de "ser" — a Forma/Ideia correspondente.
Subpasso 4.2 — Reconstituir a estrutura lógica do argumento
(1) Vemos um objeto sensível X. (2) Julgamos que X se parece com um ser Y, mas é inferior a Y. (3) Esse juízo só é possível se já tivéssemos conhecimento prévio de Y. (4) Logo, conhecer X, no sentido filosófico pleno, envolve relacionar X (objeto sensível, cópia) a Y (o ser, a Forma, o modelo). Esse Y é justamente "o ser" da alternativa D — o ser verdadeiro e perfeito do qual o objeto observado é manifestação imperfeita.
Subpasso 4.3 — Verificação
Testando "conhecer = fazer corresponder o objeto observado ao seu ser (Forma)" contra as cinco alternativas, apenas uma expressa essa correspondência entre o particular sensível e sua essência inteligível, sem reduzi-la a descrição, comparação temporal ou busca por um exemplar idêntico — o que o próprio texto descarta ao afirmar que o objeto é "inferior", nunca idêntico ao ser que evoca.
Passo 5 — Análise Crítica de Todas as Alternativas
A) estabelecer semelhanças entre o que é observado em momentos distintos
❌ Incorreta: o texto não trata de comparar o mesmo objeto observado em momentos diferentes; trata de comparar o objeto, num único ato de percepção, a um "ser" de natureza distinta — a Forma —, que não é um estado anterior do próprio objeto sensível, mas um modelo inteligível eterno.
B) comparar o objeto observado com uma descrição detalhada dele
❌ Incorreta: em nenhum momento o trecho menciona uma "descrição" do objeto; o parâmetro de comparação é um "ser" ontologicamente superior, não um relato verbal das propriedades do próprio objeto.
C) descrever corretamente as características do objeto observado
❌ Incorreta: reduz o conhecer platônico à catalogação empírica de propriedades sensíveis — exatamente o que Platão desqualifica como doxa (opinião), e não episteme (conhecimento verdadeiro); descrever o sensível não basta, é preciso remeter à Forma.
D) fazer correspondência entre o objeto observado e seu ser
✅ Correta: reproduz com precisão o núcleo da Teoria das Formas — conhecer um objeto sensível exige relacioná-lo ao "ser" (Ideia/Forma) do qual ele é cópia imperfeita; é essa correspondência prévia que permite reconhecer no objeto sua semelhança deficiente com o modelo.
E) identificar outro exemplar idêntico ao observado
❌ Incorreta: o texto nega a identidade — diz que o objeto "não consegue ser tal como o ser em questão", sendo-lhe inferior; além disso, a Forma não é "outro exemplar" do mesmo tipo sensível, mas um princípio inteligível único, de natureza distinta dos objetos sensíveis.
🏆 Gabarito: D — Porque, na epistemologia platônica exposta no Fédon, conhecer implica relacionar o objeto sensível percebido com o "ser" (a Forma/Ideia) que ele imperfeitamente reflete; é essa correspondência prévia que torna possível reconhecer a imperfeição do objeto observado.
Passo 6 — Conclusão, Generalização e Dica de Prova
- Reafirmação do gabarito: a letra D é a única que capta a relação central do texto: o objeto sensível só é "conhecido" quando remetido ao seu "ser" — sua Forma/Ideia correspondente —, pois é esse referencial prévio que permite constatar a semelhança imperfeita do objeto em relação ao modelo.
- Padrão de cobrança: o ENEM cobra Platão recorrentemente a partir de excertos de diálogos (Fédon, A República, Mênon), pedindo que o estudante reconstitua, com as palavras das alternativas, a lógica do dualismo entre mundo sensível e mundo das Formas.
- Generalização: em questões sobre epistemologia platônica, procure a alternativa que trata o conhecimento como relação entre um particular sensível/imperfeito e um universal inteligível/perfeito — nunca como descrição, memória ou repetição do próprio sensível.
- Dica de eliminação rápida: elimine de cara alternativas que restrinjam o conhecimento ao próprio objeto sensível (descrevê-lo, compará-lo consigo mesmo, achar um "gêmeo" idêntico) — para Platão, o conhecimento verdadeiro sempre aponta para "fora" do sensível, rumo à Forma.
- Conexões: o Mito da Caverna (A República, Livro VII) e a Teoria da Reminiscência/Anamnese (Mênon) são os outros grandes "portões de entrada" do ENEM para a epistemologia platônica.
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