Mapa de questões · 1º dia
Questão 18 — ENEM 2016 PPL
Quando refletimos sobre a questão da justiça, algumas associações são feitas quase intuitivamente, tais como a de equilíbrio entre as partes, princípio de igualdade, distribuição equitativa, mas logo as dificuldades se mostram. Isso porque a nossa sociedade, sendo bastante diversificada, apresenta uma heterogeneidade tanto em termos das diversas culturas que coexistem em um mundo interligado como em relação aos modos de vida e aos valores que surgem no interior de uma mesma sociedade.
CHEDIAK, K. A pluralidade como ideia reguladora: a noção de justiça a partir da filosofia de Lyotard. Trans/Form/Ação , n. 1, 2001 (adaptado).
A relação entre justiça e pluralidade, apresentada pela autora, está indicada em:
Alternativas
Resolução
Ficha da Questão
- 📚 Matérias Necessárias: Filosofia → Ética e Filosofia Política (noção de justiça, pluralismo, pós-modernidade)
- ⚡ Nível: Médio — exige interpretação fina de um texto filosófico abstrato e distinção entre paráfrase fiel e paráfrase distorcida das ideias da autora.
- 🎯 Tema/Habilidade: Justiça como conceito plural e não universalizável (leitura em chave lyotardiana) — competência de leitura e análise de textos filosóficos (Matriz ENEM: H5/H6 — Ciências Humanas).
- 🏆 Gabarito: B — revelado após a resolução completa
Passo 1 — Leitura Estratégica do Comando
- Comando reformulado: "Qual alternativa expressa corretamente como a diversidade cultural e de valores afeta a ideia de justiça, segundo o texto?"
- Palavras-chave decisivas: heterogeneidade, diversificada, dificuldades
- Armadilha típica: confundir "dificuldade em aplicar um critério único de justiça" com "impossibilidade da justiça existir" (alternativa A) ou com a defesa de que a justiça deveria impor um critério fixo e universal (alternativas C e D) — o texto diz exatamente o oposto disso.
- O que a resposta precisa demonstrar: que a pluralidade cultural e de valores é a causa da complexidade da justiça, tornando inviável um parâmetro único e geral — sem sugerir que a justiça é impedida de existir, nem que ela deva impor uma norma fixa para resolver essa diversidade.
Passo 2 — Mapa de Conceitos Essenciais
- Justiça como equilíbrio/igualdade (senso comum): o texto parte da ideia intuitiva de que justiça é sinônimo de equilíbrio entre as partes e distribuição equitativa — um critério que parece simples à primeira vista.
- Heterogeneidade social: é a coexistência, dentro de uma mesma sociedade e entre sociedades diferentes, de múltiplas culturas, modos de vida e sistemas de valores — não há um "consenso moral" único.
- Pluralismo (chave de leitura lyotardiana): para Jean-François Lyotard, referência da autora do texto, as sociedades pós-modernas perderam as "grandes narrativas" (metarrelatos) que ofereciam critérios universais de verdade e de justiça; o que resta são "jogos de linguagem" e valores locais, heterogêneos entre si.
- Justiça como problema, não como solução pronta: decorre daí que a justiça deixa de ser um princípio fixo aplicável a todos os casos e passa a ser um exercício constante de negociação entre pontos de vista diferentes — por isso "as dificuldades logo se mostram".
Passo 3 — Decodificação do Enunciado
- Evidência 1: "algumas associações são feitas quase intuitivamente, tais como a de equilíbrio entre as partes, princípio de igualdade, distribuição equitativa, mas logo as dificuldades se mostram" → revela que o senso comum sobre justiça (igualdade, equilíbrio) é insuficiente e entra em crise quando confrontado com a realidade social.
- Evidência 2: "a nossa sociedade, sendo bastante diversificada, apresenta uma heterogeneidade tanto em termos das diversas culturas que coexistem em um mundo interligado como em relação aos modos de vida e aos valores que surgem no interior de uma mesma sociedade" → revela a causa dessa dificuldade: a pluralidade cultural e valorativa, tanto entre sociedades quanto dentro de uma mesma sociedade.
- Síntese: a autora não afirma que a justiça se torna impossível, nem que ela deve se tornar mais rígida para conter a diversidade; ela afirma que a diversidade é a razão pela qual a justiça se torna um problema complexo, sem um critério geral e definitivo que sirva para todos os casos — é exatamente essa relação de causa (pluralidade) e efeito (complexidade/ausência de parâmetro único) que a alternativa correta precisa reproduzir.
Passo 4 — Resolução Completa (Passo a Passo)
Subpasso 4.1 — Identificar a estrutura argumentativa do texto
O texto segue uma estrutura de tese e problematização: (1) apresenta a concepção intuitiva de justiça (igualdade, equilíbrio, distribuição equitativa); (2) afirma que essa concepção enfrenta "dificuldades"; (3) explica a causa dessas dificuldades — a heterogeneidade cultural e valorativa da sociedade. A pergunta pede a alternativa que traduz corretamente esse encadeamento causal: pluralidade → complexificação da justiça.
Subpasso 4.2 — Testar cada alternativa contra a estrutura identificada
Uma alternativa correta precisa (i) reconhecer que a diversidade cultural/de valores é a causa; (ii) afirmar que o efeito é tornar a justiça mais complexa e sem critério único — não impedi-la de existir, não exigir um critério fixo, e não transformá-la em instrumento de dominação. Somente a alternativa B atende integralmente a esses três requisitos: ela nomeia a causa ("diversidade cultural e de valores"), descreve o efeito correto ("torna a justiça mais complexa") e evita as distorções presentes nas demais ("distante de um parâmetro geral orientador" reflete fielmente a ideia de que não há mais um critério universal aplicável, coerente com a leitura pós-moderna de Lyotard sobre o fim dos metarrelatos).
Subpasso 4.3 — Verificação
Relendo o texto após confirmar a alternativa B: "sociedade diversificada" = diversidade cultural e de valores; "as dificuldades se mostram" = torna a justiça mais complexa; ausência de um critério universal de igualdade aplicável a todos = distante de um parâmetro geral orientador. A correspondência é direta e não deixa margem para outra leitura — a alternativa B é uma paráfrase fiel e completa da tese da autora.
Passo 5 — Análise Crítica de Todas as Alternativas
A) A complexidade da sociedade limita o exercício da justiça e a impede de atuar a favor da diversidade cultural.
❌ Incorreta: o texto não afirma que a justiça é "impedida de atuar" a favor da diversidade — ele afirma que a diversidade dificulta encontrar um critério único de justiça, o que é diferente de dizer que a justiça é paralisada ou que atua contra a diversidade. É uma inversão do sentido causal do texto.
B) A diversidade cultural e de valores torna a justiça mais complexa e distante de um parâmetro geral orientador.
✅ Correta: reproduz com precisão a relação de causa e efeito do texto — a heterogeneidade cultural e de valores (causa) é o que torna a busca por um critério único e universal de justiça (parâmetro geral orientador) algo cada vez mais difícil (complexo), exatamente como descrito na passagem "mas logo as dificuldades se mostram".
C) O papel da justiça refere-se à manutenção de princípios fixos e incondicionais em função da diversidade cultural e de valores.
❌ Incorreta: contradiz o texto diretamente. A autora mostra que princípios fixos e incondicionais (como a "distribuição equitativa" citada) são justamente o que entra em crise diante da diversidade — não algo que a justiça deveria "manter" por causa dela.
D) O pressuposto da justiça é fomentar o critério de igualdade a fim de que esse valor torne-se absoluto em todas as sociedades.
❌ Incorreta: propõe o oposto do argumento da autora. O texto relativiza a ideia intuitiva de igualdade como critério de justiça justamente por causa do pluralismo cultural; defender a igualdade como valor absoluto e universal ignora a heterogeneidade que o texto destaca como central.
E) O aspecto fundamental da justiça é o exercício de dominação e controle, evitando a desintegração de uma sociedade diversificada.
❌ Incorreta: não há qualquer menção, no texto, a dominação, controle ou risco de "desintegração social". Essa alternativa introduz um conteúdo estranho ao trecho, típico de uma leitura autoritária da justiça que a autora não defende.
🏆 Gabarito: B — é a única alternativa que expressa fielmente a relação de causalidade proposta pela autora: a pluralidade cultural e de valores é o que torna a justiça mais complexa e impede a existência de um parâmetro único e universal para julgá-la.
Passo 6 — Conclusão, Generalização e Dica de Prova
- Reafirmação do gabarito: a alternativa B é a única que mantém a relação causal exata do texto (diversidade → complexidade/ausência de parâmetro geral), sem inverter o sentido, sem propor soluções não mencionadas e sem inserir conteúdos estranhos ao trecho.
- Padrão de cobrança: o ENEM recorrentemente cobra, em Filosofia e Sociologia, textos sobre ética, justiça, relativismo cultural e pós-modernidade (Lyotard, Bauman, Habermas), sempre pedindo a alternativa que resume com fidelidade a tese do autor citado.
- Generalização: em questões de interpretação filosófica, a alternativa correta é sempre aquela que reproduz a relação lógica (causa/efeito, tese/consequência) do texto-base sem adicionar juízos de valor, soluções ou conteúdos que o texto não afirma.
- Dica de eliminação rápida: elimine de cara qualquer alternativa que proponha uma "solução fixa e universal" (C e D) quando o texto fala em pluralidade, e qualquer alternativa que insira temas ausentes do trecho, como dominação/controle (E); depois, compare as sobras (A e B) verificando qual delas preserva o sentido de "dificuldade/complexidade" sem afirmar impedimento total da justiça.
- Conexões: relativismo cultural e etnocentrismo (Sociologia); crítica pós-moderna às grandes narrativas em Lyotard; teorias da justiça distributiva (Rawls) como contraponto a essa leitura pluralista.
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