Mapa de questões · 1º dia
Questão 13 — ENEM 2016 PPL
Enquanto o pensamento de Santo Agostinho representa o desenvolvimento de uma filosofia cristã inspirada em Platão, o pensamento de São Tomás reabilita a filosofia de Aristóteles ― até então vista sob suspeita pela Igreja ―, mostrando ser possível desenvolver uma leitura de Aristóteles compatível com a doutrina cristã. O aristotelismo de São Tomás abriu caminho para o estudo da obra aristotélica e para a legitimação do interesse pelas ciências naturais, um dos principais motivos do interesse por Aristóteles nesse período.
MARCONDES, D. Textos básicos de filosofia . Rio de Janeiro: Zahar, 2005.
A Igreja Católica por muito tempo impediu a divulgação da obra de Aristóteles pelo fato de a obra aristotélica
Alternativas
Resolução
Ficha da Questão
- 📚 Matérias Necessárias: Filosofia → Filosofia Medieval (Patrística e Escolástica: Agostinho, Tomás de Aquino e a recepção de Aristóteles)
- ⚡ Nível: Médio — exige situar historicamente a recepção de Aristóteles na Idade Média, mas o próprio texto de apoio entrega pistas decisivas para quem lê com atenção.
- 🎯 Tema/Habilidade: Relação entre fé e razão no pensamento medieval; compreensão de correntes filosóficas e seu diálogo com a tradição religiosa ocidental.
- 🏆 Gabarito: A — revelado após resolução completa
Passo 1 — Leitura Estratégica do Comando
- Comando reformulado: "Qual foi o motivo real da desconfiança da Igreja em relação à obra de Aristóteles, a ponto de restringir sua divulgação?"
- Palavras-chave decisivas: vista sob suspeita, ciências naturais, compatível com a doutrina cristã
- Armadilha típica: supor que o conflito era de natureza moral ou institucional — como se Aristóteles tivesse atacado a Igreja, negado Deus ou pregado outra religião. Nada disso é historicamente sustentável, já que Aristóteles viveu no século IV a.C., quase sete séculos antes da existência da Igreja Católica.
- O que a resposta precisa demonstrar: identificar que a tensão nascia do método racional-naturalista de Aristóteles — sua investigação da natureza por causas observáveis —, que parecia colocar em risco certos dogmas centrados na ação direta e miraculosa de Deus, e não de qualquer hostilidade doutrinária direta à fé cristã.
Passo 2 — Mapa de Conceitos Essenciais
- Patrística (Santo Agostinho): primeira grande síntese entre cristianismo e filosofia grega, fortemente inspirada no platonismo. Agostinho valoriza a introspecção, a iluminação divina e o mundo inteligível como caminho para Deus — pouco interesse pela natureza física em si.
- Escolástica (São Tomás de Aquino): movimento filosófico-teológico medieval (séculos XII-XIII) que busca conciliar fé e razão, defendendo que ambas conduzem à mesma verdade e podem se complementar sem contradição.
- Aristotelismo latino: redescoberta, no Ocidente medieval, das obras de Aristóteles sobre física, lógica, biologia e metafísica, chegadas via traduções árabes (sobretudo comentários de Averróis). É um corpus voltado à observação da natureza e à explicação por causas naturais.
- Condenações parisienses (1210-1277): a Universidade de Paris chegou a proibir o ensino de obras "naturais" de Aristóteles, temendo teses como a eternidade do mundo (contra a criação bíblica) e a explicação causal-determinista dos fenômenos, que pareciam dispensar a intervenção divina direta.
Passo 3 — Decodificação do Enunciado
- Evidência 1: "até então vista sob suspeita pela Igreja" → confirma que havia desconfiança institucional em relação à obra aristotélica antes da reabilitação promovida por Tomás de Aquino.
- Evidência 2: "abriu caminho para o estudo da obra aristotélica e para a legitimação do interesse pelas ciências naturais" → mostra exatamente onde estava o nó do problema: o interesse pelas ciências naturais, isto é, pela investigação racional e empírica do mundo físico.
- Síntese: a suspeita da Igreja não recaía sobre uma suposta hostilidade de Aristóteles à fé, mas sobre o caráter científico e naturalista de sua obra, que buscava explicar os fenômenos por causas racionais e observáveis — algo que, antes de ser domesticado por Tomás de Aquino, parecia ameaçar dogmas como a criação do mundo, a Providência e a imortalidade pessoal da alma.
Passo 4 — Resolução Completa (Passo a Passo)
Subpasso 4.1 — O choque inicial entre Aristóteles e a teologia cristã
No século XII e XIII, a Europa cristã redescobre boa parte da obra de Aristóteles — Física, Metafísica, Da Alma, tratados de biologia — principalmente através de comentadores árabes e judeus, como Averróis e Avicena. Esse corpus trazia teses que soavam perigosas aos olhos da Igreja: a eternidade do mundo (contra o relato da criação no Gênesis), a ideia de um intelecto único e universal (o "averroísmo", que parecia negar a imortalidade individual da alma) e uma explicação da natureza baseada em causas necessárias, quase mecânicas, que deixava pouco espaço para milagres e para a ação providencial de Deus. Por isso, entre 1210 e 1277, a Universidade de Paris chegou a proibir formalmente o ensino de obras "naturais" de Aristóteles.
Subpasso 4.2 — A operação de Tomás de Aquino: batizar Aristóteles
Tomás de Aquino realiza uma verdadeira reengenharia filosófica: mostra que a razão natural aristotélica, usada com rigor, não contradiz a revelação, mas pode servir a ela. Ele emprega conceitos-chave de Aristóteles — ato e potência, substância e causalidade — para construir, por exemplo, as "cinco vias" de demonstração racional da existência de Deus, na Suma Teológica. Ao fazer isso, Tomás retira da obra aristotélica seu caráter "ameaçador" e a transforma em ferramenta a serviço da doutrina cristã, legitimando, de quebra, o estudo científico da natureza dentro dos muros da própria Igreja.
Subpasso 4.3 — Verificação
Voltando ao enunciado: o motivo do impedimento não foi ateísmo, nem crítica institucional, nem religião estrangeira, nem teoria política — foi o caráter de investigação científica da natureza presente na obra de Aristóteles, que colidia com certos dogmas religiosos (criação, alma imortal individual, Providência) até que Tomás de Aquino demonstrasse sua compatibilidade com a fé. Essa leitura converge exatamente com a alternativa A.
Passo 5 — Análise Crítica de Todas as Alternativas
A) valorizar a investigação científica, contrariando certos dogmas religiosos.
✅ Correta: é precisamente esse o ponto destacado no texto-base — o interesse pelas ciências naturais era "um dos principais motivos do interesse por Aristóteles" e, antes de Tomás de Aquino reabilitá-lo, esse mesmo viés naturalista e causal colocava em xeque dogmas como a criação do mundo e a Providência divina.
B) declarar a inexistência de Deus, colocando em dúvida toda a moral religiosa.
❌ Incorreta: Aristóteles é o autor da noção de "Motor Imóvel", uma entidade divina, eterna e imaterial que é causa final de todo movimento no cosmo — sua metafísica culmina, na verdade, em uma teologia racional, não em ateísmo. Atribuir-lhe negação de Deus inverte o conteúdo real de sua obra.
C) criticar a Igreja Católica, instigando a criação de outras instituições religiosas.
❌ Incorreta: erro cronológico grave — Aristóteles viveu no século IV a.C., quase 700 anos antes da consolidação da Igreja Católica. Ele não poderia ter criticado uma instituição que ainda não existia, tampouco instigado a criação de outras igrejas.
D) evocar pensamentos de religiões orientais, minando a expansão do cristianismo.
❌ Incorreta: Aristóteles é um filósofo grego, expoente central da racionalidade ocidental clássica; sua obra não trata de religiões orientais nem se articula com tradições espirituais asiáticas — essa alternativa não tem qualquer respaldo textual ou histórico.
E) contribuir para o desenvolvimento de sentimentos antirreligiosos, seguindo sua teoria política.
❌ Incorreta: a Política de Aristóteles discute formas de governo, a natureza social do homem ("o homem é um animal político") e a busca do bem comum — não há nela qualquer conteúdo antirreligioso, e o enunciado associa explicitamente a suspeita da Igreja ao interesse pelas ciências naturais, não à filosofia política.
🏆 Gabarito: A — a Igreja restringiu a obra de Aristóteles porque seu método de investigação científica da natureza, baseado em causas racionais observáveis, contrariava certos dogmas religiosos, até que Tomás de Aquino demonstrasse sua compatibilidade com a fé cristã.
Passo 6 — Conclusão, Generalização e Dica de Prova
- Reafirmação do gabarito: apenas a alternativa A é compatível com a cronologia, com o conteúdo real da obra aristotélica e com a pista textual explícita sobre "ciências naturais" — todas as demais alternativas atribuem a Aristóteles posições que ele nunca defendeu ou eventos que sua época sequer permitiria.
- Padrão de cobrança: o ENEM frequentemente explora a tensão entre fé e razão na filosofia medieval, contrapondo Patrística (Agostinho/Platão) e Escolástica (Tomás/Aristóteles), assim como retoma o tema em contextos posteriores, como a Revolução Científica e o Iluminismo.
- Generalização: sempre que a questão discutir conflito entre religião e filosofia/ciência na história, busque o termo que indica o "método" em disputa (investigação racional, causalidade, empirismo) — geralmente é aí, e não em ataques diretos à fé, que reside a resposta correta.
- Dica de eliminação rápida: descarte de cara qualquer alternativa que atribua a Aristóteles posições anacrônicas ou incompatíveis com sua época (crítica à Igreja Católica, religiões orientais) — isso elimina C e D em segundos; em seguida, lembre que Aristóteles tem uma teologia própria (Motor Imóvel), o que descarta B.
- Conexões: averroísmo latino e as condenações de 1277 em Paris; o paralelo posterior entre ciência moderna (Galileu) e dogmas religiosos, outra manifestação recorrente da tensão entre razão científica e autoridade doutrinária.
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