Mapa de questões · 1º dia
Questão 26 — ENEM 2016 PPL
A atividade atualmente chamada de ciência tem se mostrado fator importante no desenvolvimento da civilização liberal: serviu para eliminar crenças e práticas supersticiosas, para afastar temores brotados da ignorância e para fornecer base intelectual de avaliação de costumes herdados e de normas tradicionais de conduta.
NAGEL, E. et al. Ciência : natureza e objetivo. São Paulo: Cultrix, 1975 (adaptado).
Quais características permitem conceber a ciência com os aspectos críticos mencionados?
Alternativas
Resolução
Ficha da Questão
- 📚 Matérias Necessárias: Filosofia → Epistemologia e Filosofia da Ciência
- ⚡ Nível: Médio — o texto é curto, mas as alternativas soam parecidas e exigem distinguir "certeza dogmática" de "verificação empírica"
- 🎯 Tema/Habilidade: O que torna a ciência um saber crítico, capaz de superar superstição e tradição
- 🏆 Gabarito: D — revelado após resolução completa
Passo 1 — Leitura Estratégica do Comando
- Comando reformulado: "Qual característica do método científico explica por que a ciência consegue derrubar crenças supersticiosas e questionar costumes tradicionais?"
- Palavras-chave decisivas: eliminar crenças supersticiosas, avaliação de costumes herdados, aspectos críticos
- Armadilha típica: confundir "rigor científico" com "certeza absoluta" e marcar alternativas que descrevem verdades inquestionáveis ou autoevidentes — exatamente o oposto do que separa ciência de dogma.
- O que a resposta precisa demonstrar: que a força crítica da ciência vem de um procedimento de checagem (teoria confrontada com fato observável), e não de possuir verdades fixas, infalíveis ou autoevidentes.
Passo 2 — Mapa de Conceitos Essenciais
- Empirismo científico: corrente segundo a qual o conhecimento só se valida quando confrontado com a experiência observável — é a base do texto de Nagel, um dos grandes nomes do empirismo lógico do século XX.
- Falseabilidade/testabilidade: uma explicação só é científica se puder, em princípio, ser confrontada com fatos e corrigida caso não corresponda a eles. É essa exposição ao teste que permite à ciência "errar e se corrigir".
- Dogma x ciência: crenças religiosas, mágicas e tradicionais se sustentam pela repetição, pela autoridade ou pela fé, sem exigir prova empírica — por isso o texto as chama de "supersticiosas" e "ignorantes".
- Função crítica da ciência: ao exigir que toda explicação corresponda aos fatos, a ciência se torna um instrumento de revisão de costumes e normas que antes eram aceitos apenas "porque sempre foi assim".
Passo 3 — Decodificação do Enunciado
- Evidência 1: "serviu para eliminar crenças e práticas supersticiosas" → mostra que a ciência tem poder de desconstrução: ela substitui explicações não verificáveis por explicações testáveis.
- Evidência 2: "fornecer base intelectual de avaliação de costumes herdados e de normas tradicionais de conduta" → indica que a ciência funciona como um critério de julgamento externo às tradições, ou seja, um padrão que não depende da própria tradição para se legitimar.
- Síntese: o texto descreve efeitos (eliminar superstição, avaliar costumes), mas a pergunta quer a causa — qual traço do método científico produz esses efeitos. Só um método que compara sistematicamente ideias com fatos observados consegue desempenhar esse papel de árbitro crítico.
Passo 4 — Resolução Completa (Passo a Passo)
Subpasso 4.1 — Identificar o que caracteriza a "criticidade" da ciência
O texto de Nagel afirma que a ciência tem função corretiva: ela desmonta crenças infundadas e serve de parâmetro para avaliar tradições. Para que um saber cumpra esse papel, ele precisa de um mecanismo que permita testar se uma afirmação é sustentável ou não — algo que a superstição e a tradição não possuem, pois se apoiam em repetição e autoridade, não em prova.
Subpasso 4.2 — Eliminar alternativas que descrevem dogmatismo, não ciência
As alternativas B ("proposições inquestionáveis e necessárias") e C ("conhecimento autoevidente e verdadeiro") descrevem justamente o tipo de saber fechado e infalível que caracteriza dogmas e superstições — exatamente aquilo que o texto diz que a ciência vem eliminar. Se a ciência tivesse esse perfil, ela não teria força crítica: seria apenas mais uma crença inquestionável concorrendo com as demais.
Subpasso 4.3 — Verificação
Resta comparar A, D e E. A alternativa A fala em "linguagem isenta de erros", o que contraria a natureza falível e corrigível da ciência. A alternativa E descreve apenas organização/classificação do saber, sem relação direta com testar crenças contra fatos. Já a alternativa D — "estabelecer rigorosa correspondência entre princípios explicativos e fatos observados" — descreve exatamente o mecanismo de verificação empírica que permite à ciência corrigir crenças, afastar temores da ignorância e avaliar costumes: ela não aceita uma explicação porque é tradicional, e sim porque bate com os fatos observados. Essa é a característica que gera o efeito crítico narrado no texto.
Passo 5 — Análise Crítica de Todas as Alternativas
A) Apresentar explicações em uma linguagem determinada e isenta de erros.
❌ Incorreta: a ciência não é definida por ausência de erros — ela é falível e está sempre sujeita a correção. É justamente por admitir erro e revisão diante dos fatos que ela consegue superar crenças ultrapassadas; tratá-la como "isenta de erros" inverte sua real natureza crítica.
B) Possuir proposições que são reconhecidas como inquestionáveis e necessárias.
❌ Incorreta: "inquestionável" é o traço definidor do dogma e da superstição que o texto diz que a ciência combate. Se a ciência tivesse proposições inquestionáveis, ela seria tão fechada à crítica quanto as crenças que pretende eliminar — o oposto do que o texto descreve.
C) Ser fundamentada em um corpo de conhecimento autoevidente e verdadeiro.
❌ Incorreta: conhecimento "autoevidente" dispensa verificação — é aceito de imediato, por intuição ou revelação, como ocorre em crenças religiosas e tradicionais. A ciência, ao contrário, depende de comprovação empírica constante, não de evidências tidas como óbvias por si mesmas.
D) Estabelecer rigorosa correspondência entre princípios explicativos e fatos observados.
✅ Correta: é esse confronto sistemático entre teoria e realidade observável que dá à ciência autoridade para corrigir crenças infundadas, afastar temores nascidos da ignorância e servir de critério para julgar costumes e normas herdadas. A ciência é crítica porque submete toda explicação ao teste dos fatos, não à força da tradição.
E) Constituir-se como saber organizado ao permitir classificações deduzidas da realidade.
❌ Incorreta: descreve apenas a dimensão classificatória/taxonômica do conhecimento científico (organizar, sistematizar), mas não a dimensão avaliativa-crítica destacada no texto. Classificar dados não implica, por si só, capacidade de testar e corrigir crenças herdadas.
🏆 Gabarito: D — a força crítica da ciência descrita no texto (eliminar superstições, afastar temores, avaliar tradições) decorre de seu método de confrontar explicações com fatos observados, e não de possuir certezas fixas, infalíveis ou autoevidentes.
Passo 6 — Conclusão, Generalização e Dica de Prova
- Reafirmação do gabarito: só a alternativa D descreve um mecanismo de verificação (teoria vs. fato observado); todas as demais descrevem, de algum modo, certeza fechada (B, C), ausência de erro (A) ou mera organização (E), nenhuma delas explica a capacidade crítica citada no texto.
- Padrão de cobrança: o ENEM recorrentemente traz textos de filosofia da ciência (Bacon, Popper, empirismo lógico) contrastando conhecimento científico com senso comum, dogma ou tradição, sempre valorizando testabilidade e revisão como marcas do método científico.
- Generalização: em questões sobre "natureza da ciência", desconfie de alternativas com palavras como "inquestionável", "autoevidente", "definitivo" ou "isento de erros" — ciência de verdade é provisória, testável e corrigível.
- Dica de eliminação rápida: risque de cara qualquer alternativa que descreva a ciência como certeza absoluta ou verdade autoevidente (aqui, B e C) — isso contraria o próprio conceito de método científico; depois compare as sobras com o verbo-chave do texto ("avaliação", que pede comparação com fatos).
- Conexões: relacione com o método hipotético-dedutivo de Karl Popper (falseabilidade) e com o Novum Organum de Francis Bacon, que também tratam da ciência como instrumento de superação de crenças infundadas.
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