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HumanasHistóriaMédio

Questão 41ENEM 2016 PPL

É hoje a nossa festa nacional. O Brasil inteiro, da capital do Império a mais remota e insignificante de suas aldeolas, congrega-se unânime para comemorar o dia que o tirou dentre as nações dependentes para colocá-lo entre as nações soberanas, e entregou-lhe os seus destinos, que até então haviam ficado a cargo de um povo estranho.

Gazeta de Notícias , 7 set. 1883.

As festividades em torno da Independência do Brasil marcam o nosso calendário desde os anos imediatamente posteriores ao 7 de setembro de 1822. Essa comemoração está diretamente relacionada com

Alternativas

Resolução

Ficha da Questão

  • 📚 Matérias Necessárias: História → Brasil Império, construção da identidade nacional
  • ⚡ Nível: Médio — a resposta exige articular o texto-fonte (um jornal de 1883) com um conceito historiográfico abstrato (construção de símbolos nacionais), e não apenas localizar uma data ou fato isolado
  • 🎯 Tema/Habilidade: Comemorações cívicas e formação da identidade nacional no Brasil do século XIX; leitura crítica de fonte primária jornalística (competência de análise histórica típica da matriz de Ciências Humanas do ENEM)
  • 🏆 Gabarito: A — revelado após resolução completa

Passo 1 — Leitura Estratégica do Comando

  • Comando reformulado: "A que fenômeno histórico está ligada a tradição de comemorar todo 7 de setembro desde os anos seguintes a 1822?"
  • Palavras-chave decisivas: "festa nacional", "congrega-se unânime", "nosso calendário"
  • Armadilha típica: escolher uma alternativa que traga um fato real da história do Império (domínio de cargos pela elite, questão da escravidão, transferência da Corte), mas que não seja o que explica por que o Estado promove uma festa cívica anual — o texto fala de rito e símbolo, não de disputa de poder ou de direitos sociais
  • O que a resposta precisa demonstrar: que o(a) candidato(a) entende que datas comemorativas, hinos, bandeiras e desfiles cívicos não surgem espontaneamente: são construções deliberadas do Estado para consolidar um sentimento de pertencimento em uma população vasta e heterogênea

Passo 2 — Mapa de Conceitos Essenciais

  • Identidade nacional: sentimento de pertencimento a uma coletividade ("nação") que não é natural nem automático — precisa ser ensinado, celebrado e repetido ano após ano para se enraizar culturalmente.
  • Invenção das tradições (Eric Hobsbawm): rituais, símbolos e datas cívicas são criados ou reforçados por instituições (sobretudo Estados recém-formados) para gerar coesão social e legitimar o poder político, dando a impressão de continuidade histórica.
  • Comunidade imaginada (Benedict Anderson): a nação é uma construção simbólica — seus membros nunca se conhecerão pessoalmente, mas se sentem parte de um mesmo corpo político por meio de práticas compartilhadas, como um calendário cívico comum.
  • Brasil Império pós-1822: território continental, com fortes identidades regionais e herança colonial fragmentada, precisava urgentemente de símbolos que unificassem "a capital do Império" e "a mais remota aldeola" em torno de uma mesma narrativa de nação soberana.

Passo 3 — Decodificação do Enunciado

  • Evidência 1: "É hoje a nossa festa nacional" → o jornal, escrito 61 anos após a Independência, trata o 7 de setembro como um rito já consolidado e repetido, isto é, uma tradição cívica institucionalizada.
  • Evidência 2: "O Brasil inteiro, da capital do Império a mais remota e insignificante de suas aldeolas, congrega-se unânime" → a comemoração é descrita propositalmente como algo que une o centro político ao interior mais distante, reforçando a ideia de uma nação una — mesmo sabendo-se que, na prática, o Brasil oitocentista era marcado por enormes desigualdades regionais e sociais.
  • Evidência 3: "que o tirou dentre as nações dependentes para colocá-lo entre as nações soberanas" → a data é usada retoricamente para narrar a soberania do Brasil, elemento-chave da identidade nacional que se quer fixar na memória coletiva.
  • Síntese: o texto não descreve uma disputa política, uma reivindicação social ou uma medida de governo — descreve um ritual simbólico de celebração da nação. Isso aponta diretamente para o mecanismo de construção e manutenção de símbolos nacionais.

Passo 4 — Resolução Completa (Passo a Passo)

Subpasso 4.1 — Situar o texto-fonte no tempo e no gênero

O trecho é de um jornal (Gazeta de Notícias) de 7 de setembro de 1883, publicado, portanto, ainda no Segundo Reinado, mais de meio século depois da Independência. Um texto assim não registra o evento de 1822 em si, mas a celebração anual dele — ou seja, é evidência de uma prática cívica já cristalizada no calendário, repetida ininterruptamente "desde os anos imediatamente posteriores ao 7 de setembro de 1822", como afirma o enunciado da questão.

Subpasso 4.2 — Relacionar o ritual comemorativo ao seu papel histórico

Por que um Estado recém-independente precisa comemorar anualmente, com pompa, sua própria fundação? Porque a Independência, por si só, não criou automaticamente um "povo brasileiro" coeso: o antigo território colonial era plural, com elites regionais distintas, economias diversas e pouca experiência de unidade política prévia. A monarquia recém-instalada precisava de instrumentos simbólicos — datas cívicas, hinos, bandeira, iconografia de D. Pedro I, desfiles — para converter esse território fragmentado em uma "nação" sentida como tal por seus habitantes. A festa do 7 de setembro cumpre exatamente essa função: repetir, ano a ano, a narrativa fundadora da soberania brasileira até que ela se torne parte do senso comum.

Subpasso 4.3 — Verificação por eliminação lógica

Ao confrontar essa leitura com as cinco alternativas, apenas uma delas descreve esse mecanismo de construção simbólica de identidade; as demais trazem fatos até verídicos da história do Império, mas que não são a causa nem o conteúdo do que o texto narra (uma festa cívica de unidade nacional). Isso confirma que a resposta correta é a que fala em "construção e manutenção de símbolos para a formação de uma identidade nacional".

Passo 5 — Análise Crítica de Todas as Alternativas

A) a construção e manutenção de símbolos para a formação de uma identidade nacional.

✅ Correta: é exatamente isso que o texto ilustra — a comemoração anual do 7 de setembro funciona como um símbolo cívico repetido deliberadamente para consolidar, em uma população dispersa e heterogênea ("da capital do Império a mais remota aldeola"), o sentimento de pertencer a uma mesma nação soberana.

B) o domínio da elite brasileira sobre os principais cargos políticos, que se efetivou logo após 1822.

❌ Incorreta: é um fato histórico real (a elite político-econômica, ligada aos grandes proprietários, de fato manteve o controle do aparelho de Estado após a Independência), mas o texto nada diz sobre ocupação de cargos públicos ou disputa de poder — trata de um rito comemorativo, não de composição política do governo.

C) os interesses de senhores de terras que, após a Independência, exigiram a abolição da escravidão.

❌ Incorreta: contém um erro conceitual grave — os senhores de terras foram, historicamente, a força que mais resistiu à abolição, não a que a exigiu; além disso, a abolição (1888) é um processo posterior e distinto, sem qualquer menção no texto, que trata apenas da festa da Independência.

D) o apoio popular às medidas tomadas pelo governo imperial para a expulsão de estrangeiros do país.

❌ Incorreta: não existe, no período, nenhuma política de "expulsão de estrangeiros" associada à comemoração da Independência, e o texto não faz nenhuma referência a estrangeiros ou a medidas de expulsão — é uma informação inventada, sem lastro na fonte.

E) a consciência da população sobre os seus direitos adquiridos posteriormente à transferência da Corte para o Rio de Janeiro.

❌ Incorreta: a transferência da Corte portuguesa para o Rio de Janeiro ocorreu em 1808, antes da Independência (1822), e o texto não trata de direitos populares conquistados nesse contexto — a alternativa mistura cronologia e tema de forma equivocada em relação ao que o trecho realmente narra.

🏆 Gabarito: A — a comemoração anual da Independência, descrita no texto como um rito que une simbolicamente todo o território nacional, é a própria expressão da construção e manutenção de símbolos cívicos voltados à formação da identidade nacional brasileira.

Passo 6 — Conclusão, Generalização e Dica de Prova

  • Reafirmação do gabarito: apenas a alternativa A descreve o fenômeno retratado no texto — um ritual cívico repetido para consolidar a ideia de nação —, enquanto as demais trazem fatos históricos reais, mas deslocados do que a fonte efetivamente apresenta.
  • Padrão de cobrança: o ENEM recorrentemente usa fontes primárias do século XIX (jornais, discursos, gravuras, hinos) para testar se o(a) candidato(a) entende os símbolos nacionais (bandeira, hino, datas cívicas) como construções históricas deliberadas, e não como fatos "naturais" da nação.
  • Generalização: sempre que o texto de uma questão de História descrever um rito, símbolo, monumento, hino ou data comemorativa oficial, a resposta correta tende a girar em torno da construção/reforço da identidade e unidade nacional — raramente estará ligada a um evento político-econômico específico que o texto não menciona.
  • Dica de eliminação rápida: descarte de imediato qualquer alternativa que mencione fatos, grupos sociais ou eventos que não aparecem no trecho citado (like "expulsão de estrangeiros" ou "abolição"); em questões de interpretação histórica de fonte, a alternativa correta sempre pode ser sustentada por trechos literais do texto, e as erradas costumam trazer informação verdadeira, porém fora de contexto.
  • Conexões: esse mesmo raciocínio aparece em questões sobre a criação do hino e da bandeira nacional, sobre o mito das "três raças" na Primeira República e sobre as políticas de identidade nacional do Estado Novo de Getúlio Vargas.

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