Mapa de questões · 1º dia
Questão 34 — ENEM 2016 PPL
As informações sugeridas por Antônio Manuel estão imersas em um jornal dividido entre o “real” e o que podemos chamar de “situacional”. O artista transforma todo o clima de repressão na própria matéria de seu trabalho, utilizando os meios de comunicação como arma (irônica) contra a estrutura de poder de um Estado autoritário.
SCOVINO, F. Com as armas do inimigo. Revista de História da Biblioteca Nacional , n. 84, set. 2012 (adaptado).
No contexto histórico descrito, a estratégia adotada por alguns segmentos da imprensa para a construção de uma crítica sociopolítica foi a de
Alternativas
Resolução
Ficha da Questão
- 📚 Matérias Necessárias: História → Brasil República, Ditadura Militar (1964-1985), censura e resistência cultural
- ⚡ Nível: Médio — exige articular o contexto da repressão pós-AI-5 com a leitura de uma linguagem indireta (arte/imprensa) usada como forma de crítica velada
- 🎯 Tema/Habilidade: Censura e imprensa alternativa na ditadura militar; competência de interpretar produções culturais como fontes históricas de resistência política
- 🏆 Gabarito: A — revelado após resolução completa
Passo 1 — Leitura Estratégica do Comando
- Comando reformulado: "Qual foi a estratégia usada por setores da imprensa, no contexto da repressão descrita, para produzir crítica política e social?"
- Palavras-chave decisivas: "arma (irônica)", "repressão", "Estado autoritário"
- Armadilha típica: trocar "burlar/driblar a censura" (resistência indireta, que é o que o texto narra) por alternativas que descrevem a imprensa como cúmplice ou aliada do poder — o candidato apressado lê "meios de comunicação" e "poder" e associa automaticamente a manipulação a favor do regime, invertendo o sentido do texto-base.
- O que a resposta precisa demonstrar: que a estratégia era de resistência simbólica — usar a linguagem, a ironia e os códigos da própria imprensa para escapar do controle censório e, ainda assim, produzir uma leitura crítica da realidade social e política.
Passo 2 — Mapa de Conceitos Essenciais
- Ditadura Militar e o AI-5 (dez. 1968): o Ato Institucional nº 5 endureceu o regime, suspendeu garantias constitucionais e instaurou censura prévia sistemática à imprensa, à música, ao teatro e às artes plásticas, exercida por órgãos como o DCDP (Divisão de Censura de Diversões Públicas).
- Censura prévia: textos, reportagens e obras precisavam ser aprovados antes de circular; o não cumprimento gerava cortes, apreensões e até prisão de jornalistas e artistas — daí a necessidade de estratégias indiretas de comunicação.
- Imprensa alternativa ("nanica"): publicações como O Pasquim, Opinião e Movimento desenvolveram humor ácido, metáforas, trocadilhos e "dupla leitura" — mensagens que pareciam inofensivas para o censor, mas eram decodificadas como crítica política pelo leitor comum.
- Antônio Manuel e a ação "Corpo a corpo" (1970): artista conceitual carioca que, após ter obra recusada em salão oficial, ocupou o espaço de primeira página do Jornal do Brasil com seu próprio corpo nu, transformando o jornal — instrumento do "real" noticioso — em suporte de uma ação artística ("situacional"), embaralhando os limites entre informação e crítica ao poder.
Passo 3 — Decodificação do Enunciado
- Evidência 1: "imersas em um jornal dividido entre o 'real' e o... 'situacional'" → revela que a obra usa o formato do jornal — que promete informar fatos reais — para veicular uma construção alegórica e crítica, um jogo deliberado entre notícia e narrativa artística.
- Evidência 2: "utilizando os meios de comunicação como arma (irônica) contra a estrutura de poder de um Estado autoritário" → deixa explícito que o uso da imprensa era instrumento de resistência: uma arma que ataca o regime pela via indireta da ironia, não uma ferramenta a serviço do poder.
- Síntese: as duas evidências mostram um mesmo padrão — parte da imprensa e da arte conceitual da época usava disfarces discursivos (ironia, ambiguidade, performance) para furar o bloqueio da censura e continuar produzindo uma leitura crítica da vida social sob o autoritarismo.
Passo 4 — Resolução Completa (Passo a Passo)
Subpasso 4.1 — Situar o contexto histórico da repressão
O trecho de Fernanda Scovino trata do trabalho de Antônio Manuel no início dos anos 1970, auge do chamado "milagre econômico" e também do período mais duro da repressão política brasileira, iniciado com o AI-5. Nesse cenário, a censura prévia atingia diretamente jornais e revistas: matérias eram cortadas, páginas saíam com espaços em branco ou eram substituídas por receitas de bolo e poemas — sinal visível, para o leitor, de que algo havia sido vetado. É dentro desse ambiente de vigilância constante que se deve interpretar qualquer "estratégia" adotada pela imprensa.
Subpasso 4.2 — Identificar a natureza da estratégia descrita
Diante do controle estatal, o enunciado não descreve uma imprensa que confronta o regime de forma frontal (o que seria imediatamente censurado ou apreendido), nem uma imprensa que colabora com o poder. Ele descreve uma terceira via: o uso de recursos indiretos — ironia, ambiguidade, arte conceitual, dupla leitura — para que a crítica passasse pelo crivo da censura sem ser identificada como tal. Antônio Manuel fez isso ao transformar seu corpo em "notícia" na primeira página de um jornal de grande circulação: uma ação que confundia os limites entre informação e obra, permitindo uma leitura crítica da sociedade sem se apresentar como um panfleto político explícito, que seria vetado de imediato.
Subpasso 4.3 — Verificação cruzada com as alternativas
Ao comparar essa leitura com as cinco opções, apenas uma alternativa combina simultaneamente os dois elementos centrais do texto: (1) driblar/escapar do controle censório e (2) manter a função de leitura crítica da vida social. Essa é exatamente a descrição de "burlar a censura, contribuindo para a análise da vida social" — a alternativa A. As demais descrevem a imprensa como instrumento do próprio Estado (B e C) ou tratam de questões estranhas ao problema da censura, como velocidade de difusão (D) ou distorção deliberada de fatos (E), que contradizem o sentido de "arma irônica contra a estrutura de poder".
Passo 5 — Análise Crítica de Todas as Alternativas
A) burlar a censura, contribuindo para a análise da vida social.
✅ Correta: sintetiza com precisão a estratégia descrita no texto-base. "Burlar" corresponde ao uso da ironia e da linguagem indireta para escapar do controle prévio do Estado, e "contribuir para a análise da vida social" corresponde à função crítica que essa produção cultural mantinha — exatamente o que Antônio Manuel fez ao ocupar o espaço do jornal com sua ação-arte, e o que jornais como O Pasquim e Opinião faziam com humor e metáfora.
B) justificar o regime vigente, apresentando versões diversas da realidade.
❌ Incorreta: inverte o sentido do texto. A imprensa descrita age contra a "estrutura de poder de um Estado autoritário", não a favor dela. Essa alternativa confunde a imprensa alternativa/de resistência com órgãos de propaganda oficial do próprio regime (como a AERP – Assessoria Especial de Relações Públicas), que de fato buscavam legitimar o governo militar.
C) estimular a livre interpretação dos fatos, atendendo aos interesses dominantes.
❌ Incorreta: contém uma contradição interna em relação ao texto — "atender aos interesses dominantes" é o oposto de usar os meios de comunicação como "arma... contra a estrutura de poder". O enunciado é claro ao colocar a imprensa em posição de enfrentamento simbólico ao regime, não de serviço aos grupos que o sustentavam.
D) aprimorar o alcance das informações, apresentando as notícias em tempo real.
❌ Incorreta: é anacrônica e irrelevante ao problema colocado. A questão não trata de velocidade ou alcance tecnológico da informação (transmissão "em tempo real"), mas do conteúdo político da mensagem e da forma de escapar da censura. Nada no texto de Scovino menciona rapidez de difusão como estratégia.
E) manipular a visão coletiva, promovendo interpretações distorcidas das notícias oficiais.
❌ Incorreta: descreve uma prática de manipulação e desinformação, associada muito mais aos aparelhos de propaganda do próprio regime autoritário do que à resistência cultural. O texto valoriza a imprensa/arte como instrumento de crítica lúcida e irônica, não como produtora de distorções a serviço de qualquer poder.
🏆 Gabarito: A — a estratégia descrita por Scovino é a de driblar a censura estatal por meio da ironia e da linguagem indireta, mantendo, ainda assim, a função de análise crítica da sociedade sob a ditadura.
Passo 6 — Conclusão, Generalização e Dica de Prova
- Reafirmação do gabarito: somente a alternativa A une os dois elementos exigidos pelo texto — driblar o controle estatal ("burlar a censura") e preservar a função social crítica da imprensa ("contribuindo para a análise da vida social") —, sendo por isso a única resposta coerente com a ação de Antônio Manuel e com o fenômeno mais amplo da imprensa alternativa.
- Padrão de cobrança: o ENEM recorrentemente explora a ditadura militar brasileira por meio de fontes culturais — charges, letras de música, obras de arte, trechos de jornal — pedindo que o estudante identifique estratégias de resistência simbólica (ironia, metáfora, dupla leitura) diante da censura e do autoritarismo.
- Generalização: em questões sobre produção cultural sob regimes de censura, a alternativa correta costuma combinar "driblar/contornar o controle" com "manter função crítica ou social"; desconfie sempre de opções que atribuem à imprensa ou à arte um papel de colaboração, legitimação ou manipulação a favor do poder vigente.
- Dica de eliminação rápida: elimine de cara as alternativas que colocam a imprensa como aliada do Estado ou dos "interesses dominantes" (aqui, B e C) e as que tratam de temas alheios ao conflito censura-resistência, como velocidade de informação ou distorção deliberada de fatos (D e E) — sobra apenas a que descreve resistência com função crítica.
- Conexões: o mesmo padrão aparece em questões sobre a Tropicália e a censura musical, e sobre jornais como O Pasquim, Movimento e Opinião, exemplos clássicos de "jornalismo nanico" que driblavam a censura com humor e ironia durante a ditadura militar.
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