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Mapa de questões · 1º dia
HumanasFilosofiaMédio

Questão 40ENEM 2016 PPL

Todas as coisas são diferenciações de uma mesma coisa e são a mesma coisa. E isto é evidente. Porque se as coisas que são agora neste mundo ― terra, água, ar e fogo e as outras coisas que se manifestam neste mundo ―, se alguma destas coisas fosse diferente de qualquer outra, diferente em sua natureza própria e se não permanecesse a mesma coisa em suas muitas mudanças e diferenciações, então não poderiam as coisas, de nenhuma maneira, misturar-se umas às outras, nem fazer bem ou mal umas às outras, nem a planta poderia brotar da terra, nem um animal ou qualquer outra coisa vir à existência, se todas as coisas não fossem compostas de modo a serem as mesmas. Todas as coisas nascem, através de diferenciações, de uma mesma coisa, ora em uma forma, ora em outra, retomando sempre a mesma coisa.

DIÓGENES. In: BORNHEIM, G. A. Os filósofos pré-socráticos . São Paulo: Cultrix, 1967.

O texto descreve argumentos dos primeiros pensadores, denominados pré-socráticos. Para eles, a principal preocupação filosófica era de ordem

Alternativas

Resolução

Ficha da Questão

  • 📚 Matérias Necessárias: Filosofia → Filosofia Pré-Socrática (cosmologia e a busca pelo arché)
  • ⚡ Nível: Médio — exige reconhecer, num texto sem citar nomes ou escolas, o objeto clássico da investigação pré-socrática.
  • 🎯 Tema/Habilidade: O problema do princípio (arché) da natureza nos filósofos pré-socráticos — competência de leitura e interpretação de textos filosóficos (H6/C1 da matriz de Ciências Humanas).
  • 🏆 Gabarito: A — revelado após resolução completa

Passo 1 — Leitura Estratégica do Comando

  • Comando reformulado: "Qual era o tipo de preocupação filosófica central dos pensadores pré-socráticos retratada no texto?"
  • Palavras-chave decisivas: pré-socráticos, terra, água, ar e fogo, mesma coisa
  • Armadilha típica: confundir "unidade de todas as coisas" com um debate ético ou hermenêutico só porque o texto fala em "bem" e "mal" ou porque é uma interpretação de um fragmento antigo — isso é armadilha de vocabulário, não de conteúdo.
  • O que a resposta precisa demonstrar: que o aluno reconhece a filosofia pré-socrática como o momento fundador da cosmologia racional, isto é, a tentativa de explicar a origem e a constituição do mundo (physis) a partir de elementos naturais, sem recorrer a mitos.

Passo 2 — Mapa de Conceitos Essenciais

  • Pré-socráticos: primeiros filósofos gregos (séculos VII–V a.C.), anteriores a Sócrates, que deslocaram a explicação do mundo do mito (mythos) para o discurso racional (logos), buscando uma causa natural e não divina para os fenômenos.
  • Cosmologia filosófica / physis: investigação sobre a natureza (physis), sua origem, ordem e transformações; é o núcleo da filosofia da natureza pré-socrática.
  • Arché: o "princípio" ou elemento primordial do qual tudo deriva e ao qual tudo retorna. Cada filósofo pré-socrático propôs um: água (Tales), ar (Anaxímenes), fogo (Heráclito), os quatro elementos (Empédocles) ou o "ilimitado"/ápeiron (Anaximandro). Diógenes de Apolônia, autor do trecho, defendia o ar como substância única que se diferencia em todas as coisas.
  • Monismo: tese de que existe uma única substância ou princípio subjacente a toda a diversidade do mundo material — é exatamente o que o texto defende ao dizer que "todas as coisas são diferenciações de uma mesma coisa".

Passo 3 — Decodificação do Enunciado

  • Evidência 1: "Todas as coisas são diferenciações de uma mesma coisa e são a mesma coisa" → afirma um princípio unificador de toda a realidade material, típico do monismo pré-socrático.
  • Evidência 2: "terra, água, ar e fogo e as outras coisas que se manifestam neste mundo" → o filósofo recorre a elementos naturais concretos, não a normas morais, leis da cidade ou interpretações de textos, para explicar a realidade — isso é a marca da cosmologia.
  • Evidência 3: "não poderiam as coisas [...] misturar-se umas às outras [...] nem a planta poderia brotar da terra, nem um animal [...] vir à existência" → o argumento busca explicar racionalmente fenômenos naturais (mistura, geração de seres vivos) a partir da unidade da matéria, sem apelar a deuses ou mitos.
  • Síntese: o texto de Diógenes de Apolônia ilustra a pergunta fundamental que move os primeiros filósofos gregos: "do que é feito o mundo e como ele se transforma?". Essa é, por definição, uma investigação cosmológica sobre a natureza (physis), fundamentada em elementos naturais — exatamente o que a alternativa correta descreve.

Passo 4 — Resolução Completa (Passo a Passo)

Subpasso 4.1 — Identificar o autor e o contexto do fragmento

O texto é atribuído a Diógenes de Apolônia, filósofo pré-socrático do século V a.C. que retomou e adaptou a tese de Anaxímenes de que o ar é o princípio (arché) de todas as coisas. Sua originalidade está em argumentar que, para o mundo funcionar de modo coerente — permitindo mistura, transformação e geração de seres vivos —, é necessário que exista uma substância única subjacente a toda a diversidade. Esse é o núcleo do problema que ocupou os pensadores de Mileto (Tales, Anaximandro, Anaxímenes) e seus sucessores: a busca do princípio material do universo.

Subpasso 4.2 — Relacionar o conteúdo do texto ao "tipo" de preocupação filosófica

Os pré-socráticos são chamados também de "filósofos da natureza" (physiologoi) porque seu projeto era romper com as explicações mitológicas (Hesíodo, Homero) e propor uma explicação racional, baseada na observação da natureza, para a origem e a estrutura do cosmos. O texto trata exatamente disso: terra, água, ar e fogo são os elementos naturais candidatos a princípio único, e o argumento de Diógenes é lógico-racional ("porque se... então..."), não narrativo-mítico. Isso caracteriza uma preocupação de ordem cosmológica.

Subpasso 4.3 — Verificação

Confrontando com as alternativas: a única que menciona "explicação racional do mundo" e "elementos da natureza" corresponde literalmente ao que o texto apresenta (terra, água, ar, fogo; argumento lógico sobre a unidade da matéria). Nenhuma das demais alternativas (política, ética, estética, hermenêutica) encontra correspondência direta com o vocabulário e o argumento do fragmento. A alternativa A é, portanto, confirmada como a única compatível com o texto.

Passo 5 — Análise Crítica de Todas as Alternativas

A) cosmológica, propondo uma explicação racional do mundo fundamentada nos elementos da natureza.

✅ Correta: é exatamente o projeto da filosofia pré-socrática dos primeiros séculos — explicar a origem e a unidade do cosmos (physis) a partir de elementos naturais (terra, água, ar, fogo), como o próprio texto faz ao defender que tudo deriva de "uma mesma coisa". Essa busca pelo arché é o marco fundador da cosmologia racional grega.

B) política, discutindo as formas de organização da pólis ao estabelecer as regras da democracia.

❌ Incorreta: a reflexão política sobre a pólis e a democracia é característica dos sofistas e de filósofos posteriores (como Sócrates, Platão e Aristóteles), que viveram já no contexto da democracia ateniense consolidada. O texto de Diógenes não menciona cidade, lei, cidadania ou poder — trata exclusivamente da constituição física do mundo.

C) ética, desenvolvendo uma filosofia dos valores virtuosos que tem a felicidade como o bem maior.

❌ Incorreta: a discussão sobre virtude, valores e felicidade (eudaimonia) como bem maior é típica da filosofia socrático-helenística (Sócrates, Platão, Aristóteles, estoicos, epicuristas). O texto menciona "bem" e "mal" apenas para descrever a capacidade das coisas de interagirem fisicamente ("fazer bem ou mal umas às outras"), não como um sistema de valores morais.

D) estética, procurando investigar a aparência dos entes sensíveis.

❌ Incorreta: a estética como investigação filosófica da beleza e da aparência sensível é uma preocupação que ganha corpo muito depois, sobretudo na modernidade. O texto não discute beleza, arte ou aparência — discute a substância comum que constitui todas as coisas, o que é um problema metafísico-cosmológico, não estético.

E) hermenêutica, construindo uma explicação unívoca da realidade.

❌ Incorreta: hermenêutica é a disciplina da interpretação de textos e sentidos, desenvolvida séculos depois (com raízes na exegese bíblica e desenvolvimento pleno a partir de Schleiermacher e Dilthey, na filosofia moderna/contemporânea). Os pré-socráticos não interpretavam textos sagrados: eles observavam e teorizavam sobre a natureza física do mundo. O termo "unívoca" também não corresponde ao argumento, que fala em diferenciação e multiplicidade a partir de uma origem comum.

🏆 Gabarito: A — o texto de Diógenes de Apolônia é um exemplo clássico de investigação cosmológica pré-socrática, que busca explicar racionalmente a origem e a unidade do mundo a partir de elementos naturais como terra, água, ar e fogo.

Passo 6 — Conclusão, Generalização e Dica de Prova

  • Reafirmação do gabarito: apenas a alternativa A reproduz com precisão o vocabulário e o método do texto — elementos naturais, explicação racional, unidade da matéria —, sendo a única coerente com o problema filosófico proposto pelos pré-socráticos.
  • Padrão de cobrança: o ENEM recorrentemente usa trechos originais (ou traduzidos) de pré-socráticos como Tales, Heráclito, Anaximandro, Anaxímenes e Diógenes de Apolônia para testar se o aluno reconhece a passagem do mito ao logos e a centralidade da pergunta "do que é feito o mundo?" nessa fase inicial da filosofia.
  • Generalização: sempre que um texto filosófico antigo mencionar elementos naturais (água, ar, fogo, terra, número, átomos) como origem de tudo, buscando uma explicação racional e não divina, a resposta será cosmológica/naturalista — é a assinatura da filosofia pré-socrática.
  • Dica de eliminação rápida: elimine de cara alternativas que remetam a temas de "filosofia clássica madura" (ética, política) ou modernos/contemporâneos (estética, hermenêutica) quando o enunciado disser explicitamente "pré-socráticos": esses filósofos são anteriores a esses debates, que só se consolidam a partir de Sócrates em diante.
  • Conexões: compare com questões sobre o mito da caverna de Platão (já pós-socrático, foco em epistemologia/política) e sobre o "conhece-te a ti mesmo" socrático (virada antropológica), que marcam justamente a mudança de foco da filosofia grega da natureza para o ser humano.

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