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Mapa de questões · 1º dia
HumanasSociologiaMédio

Questão 30ENEM 2016 PPL

Objetos trivializados por seu largo uso, os relógios são mais que instrumentos indispensáveis à rotina diária: apontam para um modo historicamente construído de lidar com o tempo. O emprego mais rigoroso e cotidiano de instrumentos que registram a passagem do tempo pode ser constatado pela produção massificada de relógios: em espaços públicos, no ambiente doméstico e nos incontáveis movimentos do homem urbano, outrora na algibeira, atualmente no pulso. Em seus ponteiros, a sucessão dos instantes é padronizada em unidades fixas: horas, minutos, segundos.

SILVA FILHO, A. L. M. Fortaleza : imagens da cidade. Fortaleza: Museu do Ceará; Secult-CE, 2001 (adaptado).

Durante o século XX, essa forma de conceber o tempo, experimentada sobretudo no espaço urbano, traz indícios de uma cultura marcada pela

Alternativas

Resolução

Ficha da Questão

  • 📚 Matérias Necessárias: Sociologia → racionalização do tempo na modernidade urbano-industrial
  • ⚡ Nível: Médio — exige relacionar um texto sobre relógios a um processo histórico-sociológico (racionalização), sem que o conceito esteja nomeado explicitamente
  • 🎯 Tema/Habilidade: Tempo, trabalho e disciplina na sociedade urbano-industrial — compreensão de processos sociais que marcam a modernidade
  • 🏆 Gabarito: D — revelado após resolução completa

Passo 1 — Leitura Estratégica do Comando

  • Comando reformulado: "O que a padronização do tempo em horas, minutos e segundos, vivida principalmente nas cidades do século XX, revela sobre a cultura da época?"
  • Palavras-chave decisivas: emprego rigoroso e cotidiano, sucessão dos instantes padronizada em unidades fixas, espaço urbano
  • Armadilha típica: confundir "padronização e medição exata do tempo" com "liberdade" ou "democratização" no uso do tempo — o texto fala de rigor e controle, não de acesso igualitário nem de escolha pessoal
  • O que a resposta precisa demonstrar: que o texto descreve um processo de racionalização/quantificação do tempo, isto é, sua transformação em algo mensurável, exato e regido por unidades numéricas fixas — o oposto de uma vivência subjetiva ou orgânica do tempo

Passo 2 — Mapa de Conceitos Essenciais

  • Tempo orgânico/natural: forma de vivenciar o tempo a partir de ciclos da natureza (dia e noite, estações, safras) ou de ritmos do próprio corpo e da comunidade, sem exatidão numérica — típica de sociedades pré-industriais.
  • Tempo mecânico/matematizado: forma de vivenciar o tempo a partir de unidades abstratas e fixas (hora, minuto, segundo), medidas por instrumentos técnicos (relógios) e aplicadas de modo uniforme a toda a coletividade — típica da modernidade urbano-industrial.
  • Racionalização (Max Weber): processo histórico de crescente cálculo, previsibilidade e controle técnico sobre as diferentes esferas da vida social, entre elas o tempo, associado ao desenvolvimento do capitalismo e da burocracia modernas.
  • Disciplina do tempo no capitalismo industrial: a fábrica, o comércio e a vida urbana exigem sincronização coletiva — horários de entrada, turnos, compromissos —, o que faz do relógio um instrumento de controle social, não apenas de curiosidade técnica.

Passo 3 — Decodificação do Enunciado

  • Evidência 1: "o emprego mais rigoroso e cotidiano de instrumentos que registram a passagem do tempo" → revela intensificação e precisão crescentes no controle do tempo, não abandono ou relativização dele.
  • Evidência 2: "em seus ponteiros, a sucessão dos instantes é padronizada em unidades fixas: horas, minutos, segundos" → mostra que o tempo deixa de ser uma experiência fluida e variável (como o tempo natural) para se tornar uma grandeza numérica, dividida, medida e igual para todos — ou seja, matematizada.
  • Síntese: o texto descreve a produção massificada de relógios e sua presença em espaços públicos, domésticos e no corpo do "homem urbano" como sinal de que o século XX consolidou uma cultura em que o tempo passou a ser tratado como grandeza matemática exata, e não mais como experiência subjetiva, natural ou negociada individualmente.

Passo 4 — Resolução Completa (Passo a Passo)

Subpasso 4.1 — Identificar o processo histórico descrito

O texto-base não fala de um relógio isolado, mas de um fenômeno social amplo: a "produção massificada de relógios" presentes em três esferas — espaço público, ambiente doméstico e o corpo do indivíduo urbano ("na algibeira", ou seja, no bolso, e depois "no pulso"). Essa disseminação em escala mostra que medir o tempo com exatidão deixou de ser exceção (privilégio de torres de igrejas ou observatórios) e passou a ser regra da vida cotidiana urbana no século XX.

Subpasso 4.2 — Traduzir "unidades fixas: horas, minutos, segundos" em termos conceituais

Dizer que o tempo é "padronizado em unidades fixas" equivale, em linguagem sociológica, a dizer que o tempo foi matematizado: transformado em uma escala numérica, divisível, mensurável e igual para todos os indivíduos, independentemente de suas percepções subjetivas. Esse é exatamente o oposto de uma vivência "orgânica e pessoal" do tempo (que variaria de pessoa para pessoa, ou seguiria ciclos naturais). A precisão dos ponteiros — hora, minuto, segundo — é a evidência textual direta dessa matematização.

Subpasso 4.3 — Verificação

Cruzando as evidências (rigor crescente + padronização numérica + massificação urbana) com as alternativas, apenas a opção que fala em "maior matematização do tempo cotidiano" repete, com outras palavras, exatamente o que o texto descreve: quantificação crescente e generalizada do tempo na vida urbana do século XX. As demais alternativas contradizem ao menos um elemento central do texto (rigor, padronização ou uso técnico do instrumento).

Passo 5 — Análise Crítica de Todas as Alternativas

A) organização do tempo de modo orgânico e pessoal.

❌ Incorreta: o texto descreve exatamente o oposto — um tempo padronizado em unidades fixas e de uso massificado, não uma organização subjetiva ou variável de pessoa para pessoa. "Orgânico" remeteria a ritmos naturais (sol, estações), que é a lógica que o relógio mecânico substitui.

B) recusa ao controle do tempo exercido pelos relógios.

❌ Incorreta: não há qualquer indício de resistência ou recusa no texto; ao contrário, ele descreve adesão crescente e cotidiana ao uso rigoroso dos relógios, do espaço público ao pulso do indivíduo urbano.

C) democratização nos usos e apropriações do tempo cotidiano.

❌ Incorreta: "democratização" sugeriria liberdade de escolha ou pluralidade de formas de vivenciar o tempo. O texto, porém, mostra justamente o contrário: uma padronização uniforme e obrigatória (as mesmas unidades fixas para todos), reflexo de controle e disciplina, não de diversidade de apropriações.

D) necessidade de uma maior matematização do tempo cotidiano.

✅ Correta: a padronização em "unidades fixas: horas, minutos, segundos" e o uso "mais rigoroso" dos instrumentos de medição são a própria definição de matematização do tempo — sua conversão em grandeza numérica exata, generalizada à vida urbana do século XX.

E) utilização do relógio como experiência natural de elaboração do tempo.

❌ Incorreta: o relógio mecânico é um instrumento técnico e cultural, historicamente construído (como o próprio texto afirma: "modo historicamente construído de lidar com o tempo"), e não uma experiência "natural". A alternativa inverte o sentido do texto, que se opõe à ideia de naturalidade.

🏆 Gabarito: D — o texto descreve a padronização rigorosa e massificada do tempo em unidades fixas (hora, minuto, segundo), o que corresponde exatamente à ideia de matematização crescente do tempo cotidiano na cultura urbana do século XX.

Passo 6 — Conclusão, Generalização e Dica de Prova

  • Reafirmação do gabarito: só a alternativa D traduz corretamente a ideia central do texto — o tempo tratado como grandeza numérica exata e padronizada —, sem contradizer nenhuma evidência textual, como fazem as demais.
  • Padrão de cobrança: o ENEM recorrentemente explora, em Sociologia e História, o tema da racionalização da vida moderna (tempo, trabalho, espaço urbano), muitas vezes a partir de um objeto cotidiano (relógio, fábrica, calendário) como porta de entrada para um conceito mais amplo — aqui, a matematização/racionalização do tempo associada à urbanização e à industrialização do século XX.
  • Generalização: sempre que um texto descrever precisão, padronização e uso técnico crescente de instrumentos de medição na vida cotidiana, a resposta correta tende a valorizar conceitos como racionalização, controle e quantificação — e a descartar alternativas que sugiram naturalidade, espontaneidade ou liberdade irrestrita.
  • Dica de eliminação rápida: elimine de cara qualquer alternativa com palavras que contradigam "rigor" e "padronização" do texto-base — como "orgânico", "recusa", "democratização" (no sentido de pluralidade) e "natural". Sobra quase sempre a opção que fala em controle, medida ou matematização.
  • Conexões: o tema dialoga diretamente com a teoria da racionalização de Max Weber e com a disciplina fabril descrita por E. P. Thompson em "Tempo, disciplina de trabalho e capitalismo industrial", ambos recorrentes em questões de Sociologia sobre modernidade e trabalho.

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