Mapa de questões · 1º dia
Questão 29 — ENEM 2016 PPL
As camadas dirigentes paulistas na segunda metade do século XIX recorriam à história e à figura dos bandeirantes. Para os paulistas, desde o início da colonização, os habitantes de Piratininga (antigo nome de São Paulo) tinham sido responsáveis pela ampliação do território nacional, enriquecendo a metrópole portuguesa com o ouro e expandindo suas possessões. Graças à integração territorial que promoveram, os bandeirantes eram tidos ainda como fundadores da unidade nacional. Representavam a lealdade à província de São Paulo e ao Brasil.
ABUD, K. M. Paulistas, uni-vos! Revista de História da Biblioteca Nacional , n. 34, 1 jul. 2008 (adaptado).
No período da história nacional analisado, a estratégia descrita tinha como objetivo
Alternativas
Resolução
Ficha da Questão
- 📚 Matérias Necessárias: História → Brasil Império (Segundo Reinado) e formação da identidade política paulista
- ⚡ Nível: Médio — exige articular a memória histórica do mito bandeirante com o contexto econômico da expansão cafeeira e a conjuntura política do período
- 🎯 Tema/Habilidade: Uso político da história pelas elites regionais; competência de relacionar processos econômicos e políticos a partir da interpretação de um texto historiográfico
- 🏆 Gabarito: D — revelado após resolução completa
Passo 1 — Leitura Estratégica do Comando
- Comando reformulado: "Qual foi o objetivo político das elites paulistas ao resgatar a memória dos bandeirantes na segunda metade do século XIX?"
- Palavras-chave decisivas: segunda metade do século XIX, camadas dirigentes paulistas, estratégia
- Armadilha típica: associar o texto a períodos que não coincidem com o recorte temporal indicado, como a Regência (1831-1840, primeira metade do século XIX) ou o fim da política do café com leite (1930, já no século XX)
- O que a resposta precisa demonstrar: a relação causal entre o resgate do mito bandeirante e um processo político-econômico concreto que estava em curso justamente naquele recorte temporal (1850-1900)
Passo 2 — Mapa de Conceitos Essenciais
- Mito bandeirante: narrativa que exalta os bandeirantes paulistas dos séculos XVI-XVIII como desbravadores corajosos, responsáveis pela expansão territorial e pelo enriquecimento da Coroa; foi reconstruída no século XIX como símbolo de identidade e de superioridade paulista.
- Expansão cafeeira paulista: a partir de meados do século XIX, a produção de café desloca-se do Vale do Paraíba para o Oeste Paulista, impulsionada por solos de terra roxa, ferrovias (como a Companhia Paulista) e mão de obra imigrante, tornando São Paulo o principal polo econômico do país.
- Elites regionais e poder político no Império: no Segundo Reinado, a força política de uma província tendia a acompanhar seu peso econômico; regiões que enriqueciam buscavam converter esse capital em maior espaço nas decisões do governo central.
- Uso político da memória histórica: o passado é mobilizado seletivamente para legitimar demandas do presente — no caso, dar aos paulistas um capital simbólico de "fundadores da nação" que respalde reivindicações de maior protagonismo político.
Passo 3 — Decodificação do Enunciado
- Evidência 1: "na segunda metade do século XIX" → fixa o recorte temporal no Segundo Reinado avançado e no início da Primeira República, período de auge da economia cafeeira paulista — não a Regência, nem a crise de 1930.
- Evidência 2: "responsáveis pela ampliação do território nacional, enriquecendo a metrópole" e "fundadores da unidade nacional" → revela que o discurso usa o passado colonial para conferir legitimidade histórica e moral aos paulistas como protagonistas da formação do Brasil.
- Evidência 3: "Representavam a lealdade à província de São Paulo e ao Brasil" → une identidade regional e identidade nacional, apresentando São Paulo como parte essencial e insubstituível do país.
- Síntese: o texto mostra uma elite regional construindo um discurso de excepcionalidade histórica exatamente no momento em que sua força econômica — o café — crescia. A memória bandeirante funciona como instrumento retórico para transformar peso econômico em peso político.
Passo 4 — Resolução Completa (Passo a Passo)
Subpasso 4.1 — Situar o processo econômico no período
Na segunda metade do século XIX, a cafeicultura desloca-se para o Oeste Paulista (regiões como Campinas e, mais tarde, Ribeirão Preto), favorecida por solos férteis e por investimentos em ferrovias e trabalho assalariado/imigrante. Isso faz de São Paulo a província mais rica e dinâmica do Império, superando economicamente regiões tradicionalmente mais influentes na política nacional, como o Vale do Paraíba fluminense e o Nordeste açucareiro.
Subpasso 4.2 — Relacionar economia e demanda política
Esse enriquecimento gera um descompasso: São Paulo produzia riqueza crescente, mas sua participação no poder político central não crescia na mesma proporção. As elites paulistas — fazendeiros de café, bacharéis, futuros líderes do Partido Republicano Paulista — passam a reivindicar mais espaço político: mais cargos, mais autonomia provincial, mais peso nas decisões nacionais, proporcional à sua pujança econômica.
Subpasso 4.3 — O papel do mito bandeirante nessa disputa
Para sustentar essa reivindicação, essas elites recorrem à narrativa histórica dos bandeirantes: se os paulistas já haviam sido, desde a colônia, os responsáveis por expandir o território e "fundar" a unidade nacional, era natural — e justo — que tivessem também papel de liderança política no presente. O passado colonial é reinterpretado para legitimar uma demanda contemporânea de maior protagonismo político, diretamente vinculada ao novo poderio econômico do café.
Subpasso 4.4 — Verificação
Cruzando o recorte temporal (segunda metade do século XIX) com o conteúdo do discurso (bandeirantes como fundadores e expansores) e sua função (legitimar liderança), a única alternativa compatível associa o resgate do mito bandeirante ao crescimento da participação política decorrente da expansão cafeeira. Trata-se da alternativa D.
Passo 5 — Análise Crítica de Todas as Alternativas
A) promover o pioneirismo industrial pela substituição de importações
❌ Incorreta: a industrialização por substituição de importações é um processo típico do século XX (a partir de 1930), associado a outra conjuntura — crise de 1929, Era Vargas. O texto trata de um discurso histórico sobre expansão territorial colonial, não de política industrial.
B) questionar o governo regencial após a descentralização administrativa
❌ Incorreta: o período regencial ocorreu entre 1831 e 1840, na primeira metade do século XIX, incompatível com o recorte "segunda metade do século XIX" indicado no enunciado. Além disso, o texto não descreve um conflito com um governo regencial, mas a construção de uma identidade e de uma legitimidade política.
C) recuperar a hegemonia perdida com o fim da política do café com leite
❌ Incorreta: a política do café com leite é derrubada pela Revolução de 1930, evento do século XX, fora do recorte temporal da questão. A alternativa também inverte a lógica histórica: no período analisado, São Paulo estava construindo e ampliando sua hegemonia, e não a recuperando após tê-la perdido.
D) aumentar a participação política em função da expansão cafeeira
✅ Correta: a expansão da cafeicultura paulista na segunda metade do século XIX tornou a província o principal centro econômico do país. As elites paulistas mobilizaram a memória dos bandeirantes — apresentados como fundadores e expansores da nação — para legitimar sua ascensão como protagonistas políticos, buscando converter poder econômico em maior participação e influência política.
E) legitimar o movimento abolicionista durante a crise do escravismo
❌ Incorreta: o texto não menciona escravidão nem abolição; o discurso bandeirante enfatiza a expansão territorial e o enriquecimento da metrópole, temas ligados à identidade e ao protagonismo político paulista, não à causa abolicionista.
🏆 Gabarito: D — o resgate do mito bandeirante funcionou como instrumento de legitimação histórica para que a elite paulista, enriquecida pela expansão cafeeira, ampliasse sua participação e influência política no cenário nacional.
Passo 6 — Conclusão, Generalização e Dica de Prova
- Reafirmação do gabarito: apenas a alternativa D respeita simultaneamente o recorte temporal (segunda metade do século XIX) e a lógica interna do texto (uso do passado para legitimar poder político vinculado à riqueza cafeeira).
- Padrão de cobrança: o ENEM frequentemente explora o "uso político da história" — como grupos sociais reinterpretam o passado para justificar interesses do presente, seja com o mito bandeirante, seja com outras identidades regionais ou nacionais.
- Generalização: sempre que um texto histórico mobilizar símbolos do passado, pergunte "quem se beneficia dessa narrativa, e por quê, naquele momento específico?" — a resposta costuma estar ligada a uma disputa por poder ou legitimidade contemporânea ao emissor do discurso.
- Dica de eliminação rápida: elimine primeiro as alternativas cujo recorte temporal não bate com o enunciado — Regência pertence à primeira metade do século XIX, e café com leite/industrialização pertencem ao século XX. Isso corta B, A e C quase de imediato.
- Conexões: Convenção de Itu (1873) e criação do Partido Republicano Paulista; formação da "política dos governadores" e da política do café com leite já na Primeira República.
Comunidade Memorize · Grátis
Não perca nenhuma live, aula ou material.
Entre na comunidade do WhatsApp e receba os avisos de tudo que a equipe Memorize lança de graça — direto no seu celular.