Mapa de questões · 1º dia
Questão 14 — ENEM 2016 PPL
A importância do argumento de Hobbes está em parte no fato de que ele se ampara em suposições bastante plausíveis sobre as condições normais da vida humana. Para exemplificar: o argumento não supõe que todos sejam de fato movidos por orgulho e vaidade para buscar o domínio sobre os outros; essa seria uma suposição discutível que possibilitaria a conclusão pretendida por Hobbes, mas de modo fácil demais. O que torna o argumento assustador e lhe atribui importância e força dramática é que ele acredita que pessoas normais, até mesmo as mais agradáveis, podem ser inadvertidamente lançadas nesse tipo de situação, que resvalará, então, em um estado de guerra.
RAWLS, J. Conferências sobre a história da filosofia política . São Paulo: WMF, 2012 (adaptado).
O texto apresenta uma concepção de filosofia política conhecida como
Alternativas
Resolução
Ficha da Questão
- 📚 Matérias Necessárias: Filosofia → Filosofia Política Moderna (Hobbes)
- ⚡ Nível: Médio — exige distinguir conceitos próximos (estado de natureza × contrato social) a partir da lógica interna do texto, não apenas de memorização de nomes.
- 🎯 Tema/Habilidade: Identificação de concepções de filosofia política a partir de textos-fonte (H8/H9 — Ciências Humanas: reconhecer o papel do Estado e das relações de poder na organização da vida social).
- 🏆 Gabarito: C — revelado após a resolução completa
Passo 1 — Leitura Estratégica do Comando
- Comando reformulado: "Qual conceito de filosofia política o texto de Rawls sobre Hobbes está descrevendo?"
- Palavras-chave decisivas: "resvalará... em um estado de guerra", "pessoas normais... podem ser inadvertidamente lançadas", "condições normais da vida humana"
- Armadilha típica: confundir a condição pré-política que gera o conflito (o problema) com a solução que Hobbes propõe para superá-lo (o contrato social, alternativa D) — o texto fala apenas da primeira.
- O que a resposta precisa demonstrar: compreensão de que o trecho descreve uma condição hipotética anterior a um poder soberano, em que mesmo pessoas pacíficas tendem ao conflito — por definição, o "estado de natureza" hobbesiano.
Passo 2 — Mapa de Conceitos Essenciais
- Estado de natureza (Hobbes): condição hipotética dos seres humanos antes de um poder político soberano. Sem lei nem autoridade comum, os indivíduos vivem em insegurança permanente — a "guerra de todos contra todos" (bellum omnium contra omnes).
- Contrato social (Hobbes): acordo pelo qual os indivíduos, para escapar do estado de natureza, transferem seus direitos naturais a um soberano (o "Leviatã") em troca de proteção. É a saída do problema, não o problema em si.
- Vontade geral (Rousseau): interesse comum de uma coletividade, superior à soma das vontades individuais; fundamenta a legitimidade das leis em Rousseau — sem relação com o argumento hobbesiano do texto.
- Microfísica do poder (Foucault): o poder não estaria concentrado no Estado, mas disseminado em relações capilares (escola, família, instituições) — referencial contemporâneo, alheio ao argumento clássico de Hobbes.
- Alienação ideológica (marxismo): distorção da consciência dos indivíduos por interesses de classe — também estranho ao raciocínio hobbesiano apresentado.
Passo 3 — Decodificação do Enunciado
- Evidência 1: "o argumento não supõe que todos sejam de fato movidos por orgulho e vaidade para buscar o domínio sobre os outros" → Rawls explica que Hobbes não precisa de pessoas más ou ambiciosas para que o conflito surja — o argumento é mais sofisticado que isso.
- Evidência 2: "pessoas normais, até mesmo as mais agradáveis, podem ser inadvertidamente lançadas nesse tipo de situação, que resvalará, então, em um estado de guerra" → mesmo indivíduos pacíficos, diante da insegurança e da ausência de autoridade comum, entram em conflito por desconfiança mútua e disputa por recursos escassos — a lógica que Hobbes usa para descrever o "estado de natureza".
- Síntese: o texto não fala de um pacto, de vontade coletiva ou de relações difusas de poder — descreve a insegurança generalizada que antecede e justifica a necessidade de um poder soberano. Essa condição tem nome próprio: estado de natureza.
Passo 4 — Resolução Completa (Passo a Passo)
Subpasso 4.1 — Identificar o autor e o contexto da citação
O texto é de John Rawls comentando Thomas Hobbes, autor do Leviatã (1651) e fundador da tradição contratualista moderna. O ponto de partida teórico de Hobbes é sempre a pergunta: "como seria a vida humana sem um poder político que a organize?". A resposta a essa pergunta é o conceito que o texto descreve.
Subpasso 4.2 — Isolar o mecanismo descrito por Rawls
Rawls destaca que a força do argumento de Hobbes não depende de as pessoas serem gananciosas ou vaidosas — isso seria uma explicação "fácil demais". O que sustenta o argumento é que, mesmo entre pessoas razoáveis, a ausência de autoridade comum gera desconfiança mútua: cada um teme ser atacado e, por precaução racional, pode atacar primeiro. Esse mecanismo — competição, desconfiança e busca por reputação — é a engrenagem que explica por que a ausência de governo central "resvala" para a guerra de todos contra todos.
Subpasso 4.3 — Verificação: associar o mecanismo ao conceito correto
Essa condição — vida social sem poder soberano, marcada por insegurança e risco de conflito — é a definição clássica de estado de natureza em Hobbes. Não é o contrato (solução posterior), nem vontade geral (Rousseau), nem microfísica do poder (Foucault), nem alienação ideológica (marxismo). O texto converge para a alternativa C.
Passo 5 — Análise Crítica de Todas as Alternativas
A) alienação ideológica.
❌ Incorreta: conceito da tradição marxista, que descreve a distorção da consciência por interesses de classe dominante — não há no texto qualquer menção a classes sociais ou exploração econômica. O texto trata da condição pré-política dos indivíduos entre si, não de dominação de classe.
B) microfísica do poder.
❌ Incorreta: conceito de Michel Foucault, formulado três séculos depois de Hobbes, que descreve o poder disperso em micropráticas institucionais, não centralizado no Estado. O texto de Rawls discute justamente a ausência de um poder centralizado (soberano) — o oposto do enfoque foucaultiano.
C) estado de natureza.
✅ Correta: o texto descreve com precisão o mecanismo pelo qual pessoas comuns, sem más intenções, são levadas ao conflito na ausência de uma autoridade política comum. Essa é a definição hobbesiana de estado de natureza — condição hipotética anterior ao Estado, marcada pela guerra de todos contra todos.
D) contrato social.
❌ Incorreta (armadilha mais forte da questão): embora Hobbes seja teórico do contrato social, o texto não descreve o pacto pelo qual os indivíduos cedem direitos a um soberano — descreve a situação-problema que antecede e justifica esse pacto. Confundir a causa (estado de natureza) com a solução (contrato) é o erro mais comum aqui.
E) vontade geral.
❌ Incorreta: conceito central de Jean-Jacques Rousseau, que expressa o interesse coletivo legítimo de um povo soberano — referencial de outro autor e de outro momento da filosofia política, sem relação com o mecanismo de conflito individual descrito.
🏆 Gabarito: C — o texto descreve, com as palavras de Rawls, o mecanismo pelo qual indivíduos comuns, sem poder soberano que os contenha, são levados ao conflito generalizado: essa é a definição precisa de estado de natureza em Hobbes.
Passo 6 — Conclusão, Generalização e Dica de Prova
- Reafirmação do gabarito: a alternativa C é a única que nomeia corretamente a condição pré-política de insegurança e guerra latente que o texto descreve — nenhuma outra trata da ausência de poder soberano como causa do conflito.
- Padrão de cobrança: o ENEM costuma cobrar filosofia política contratualista (Hobbes, Locke, Rousseau) por meio de trechos originais ou de comentadores (como Rawls), pedindo que se reconheça o conceito-chave sem citar o nome do autor na alternativa.
- Generalização: se o texto descreve uma condição humana "antes" ou "sem" governo, marcada por insegurança e conflito, o conceito é estado de natureza; se descreve o acordo que funda o poder político, é contrato social. São etapas sequenciais do mesmo raciocínio, não sinônimos.
- Dica de eliminação rápida: descarte alternativas de autores distantes no tempo/tema (microfísica do poder = Foucault; vontade geral = Rousseau; alienação ideológica = Marx) quando o texto citar Hobbes — sobra a disputa entre estado de natureza e contrato social, resolvida perguntando "o texto fala do problema ou da solução?".
- Conexões: compare com o contratualismo de Locke (estado de natureza como liberdade regulada pela lei natural, não de guerra) e de Rousseau (estado de natureza como bondade original corrompida pela sociedade).
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